Chega a ser inacreditável como David Mackenzie saiu do coeso “A Qualquer Custo” para este “Legítimo Rei”. Arremedo de “Coração Valente”, o projeto da Netflix usa e abusa de clichês dos dramas épicos de guerra em uma trama cheia de furos para trazer uma história de heroísmo, honra e bom mocismo pouco crível para uma época de “Game of Thrones”.

Estrelado por Chris Pine, “Legítimo Rei” mostra a rebelião liderada por Robert the Bruce, herdeiro natural do reinado da Escócia, para libertar o país do domínio do rei da Inglaterra, de Eduardo I (Stephan Dillane). Mesmo com poucos homens ao seu lado frente à força inglesa, ele tentará de todas as formas acabar com as humilhações sofridas pelo povo escocês.

Pior de tudo é que os 10 primeiros minutos de “Legítimo Rei” empolgam, afinal de contas, o plano-sequência é de tirar o fôlego. David Mackenzie joga o espectador na trama de forma eficiente trazendo as humilhações a que estão sendo submetidos os escoceses e a falsa benevolência do rei inglês Eduardo I proveniente do poderio militar avassalador. A forma como a câmera trafega dentro e fora da tenda apresentando diversos personagens cada um com um pequeno destaque introduz as características mais marcantes deles aliada à ambientação seja do solo lamacento presente desde o começo (e fundamental no ato final) aos figurinos e o desfecho da sequência soam como uma premissa interessante.

A inventividade, entretanto, termina aí. O roteiro escrito a dez mãos (!!!) não consegue desenvolver nenhum personagem de maneira digna. Temos um Roberto de Bruce educado, bom pai, marido respeitador e amoroso, leal com seus amigos, encorajador como líder das tropas, patriota, indignado com injustiças sociais, triste com a perda de cada irmão de batalha e blá-blá-blá do manual do herói perfeito. Detalhe: “Legítimo Rei” é ambientado na Idade Média e não no mundo pós-#MeToo – nem Jon Snow poderia ser mais certinho.

Mesmo quando diz abandonar a honra após cometer um tolo erro de estratégia ocasionado justamente pelo bom mocismo, o protagonista passa longe de ir tomar atitudes mais duras. Nem Chris Pine fazendo o maior esforço do mundo (até peladão ele fica, bichinho) para dar densidade ao que vemos consegue convencer o pobre espectador a comprar esse discursinho fajuto.

Junto do protagonista, há, claro, os leais soldados com destaque para um Aaron Taylor-Johnson em uma atuação que torna o trabalho dele em “Vingadores – A Era de Ultron” digno de Oscar. O que é ele tendo que gritar ‘DOUGLASSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS’ com cara de louco a todo momento? Florence Pugh é outra sem oportunidade de demonstrar qualquer traço do talento visto no ótimo “Lady Macbeth”. Ainda por cima a mandam cantar em uma cena sem o menor sentido de estar ali – cadê o montador?.

Para piorar, “Legítimo Rei” conta com uma trama apressada sem tempo de desenvolver os contextos históricos, deixando buracos gritantes na trama. O momento-chave para a virada do primeiro para o segundo ato – o assassinato de Lorde John Comyn por Bruce – não convence por pouco entendermos como era a rivalidade entre os dois anteriormente. A situação de Elizabeth de Burgh (Pugh) é ainda pior: com ligações com a Coroa inglesa, a personagem simplesmente vira a casaca pelo jeito doce e meigo do protagonista capaz de conquista-la. Foi tão simples assim? Em nenhum momento, ela pensou que poderia ser um erro? Por fim, toda a composição do Príncipe de Gales (Billy Howle pagando todos os pecados) é sofrível na tentativa de criar um vilão malvado, mas, com toques de fragilidade, sendo um cosplay requentado de Joaquin Phoenix em “Gladiador”.

A pobreza de criação de algo novo também aparece na parte técnica. As tomadas aéreas feitas de grupos andando por entre vales e lagos remetem a “O Senhor dos Anéis”, as cenas de batalhas da sequência final pedem royalties da Batalha dos Bastardos da sexta temporada de “Game of Thrones”, os figurinos e a direção de arte são emprestadas de “Coração Valente” e por aí vai. Ora, qual o propósito de fazer uma superprodução épica se a ideia é Ctrl C + Ctrl V na cara dura?

Para se arriscar em tramas medievais no cinema e televisão hoje em dia, é preciso trazer algo novo devido à saturação do gênero. Para raros acertos como “O Senhor dos Anéis” e “Game of Thrones”, existem diversos “Reis Arthurs” e “Robins Hoods” como contrapontos. A Netflix até acertou na escolha de David Mackenzie como a figura capaz de fazer esta inovação, porém, infelizmente, o resultado não mostrou isso.

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