Sempre é um prazer poder escrever que há um western novo na praça – e ainda por cima com todo o hype de quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme.

A Qualquer Custo, primeira (espera-se que não seja a última) incursão do diretor David Mackenzie no gênero, traz roteiro de Taylor Sheridan (de Sicario: Terra de Ninguém) e um elenco forte, puxado pelo mítico Jeff Bridges (O Grande Lebowski, Bravura Indômita). E, de fato, o filme é um sucesso, enxuto e equilibrado no desenvolvimento de personagens e tramas. Mas… (você sabia que ele viria) o saldo final é prejudicado pela reverência excessiva a um clássico recente do gênero, Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), dos irmãos Joel e Ethan Coen.

É nítida a sombra de Fracos sobre as tramas e personagens da obra de Mackenzie. Dois irmãos, Toby e Tanner Howard (Chris Pine, dos novos Star Trek, e Ben Foster, de Alpha Dog e 360) cometem uma série de assaltos a bancos do Meio-Oeste americano, despertando a atenção do ranger Marcus Hamilton (Bridges). Os crimes dos irmãos Howard são bem planejados – até demais, pode-se dizer: eles só buscam notas pequenas, que não possam ser rastreadas, em quantias mínimas, e em agências de cidadezinhas desoladas, pobres demais até para ter câmeras de vigilância. Não pode ser só pelo dinheiro, fareja o patrulheiro (com a mesma clarividência de Tommy Lee Jones em Fracos), e o filme, infelizmente, não nos permite duvidar: seus temas, como o da devastação dos pequenos empreendimentos pela cobiça dos bancos e empresas de petróleo, ou a decadência de figuras centrais na mitologia do western – os vaqueiros, abandonados à própria sorte em meio à sanha petrolífera, ou os próprios protagonistas, assaltantes e justiceiros que se batem em uma tragédia comezinha, enquanto o Meio-Oeste sangra com a especulação financeira – são martelados de forma excessiva no roteiro de Sheridan. E não sei dizer se é homenagem ou paródia o momento climático da morte de um dos personagens, com direito a uma fala pomposa antes do headshot.

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A alusão a Fracos continua no tom melancólico e nas falas lacônicas dos personagens, à maneira de Cormac McCarthy, autor do romance que deu origem ao filme dos Coen.  Mas Sheridan nunca atinge a grandeza expressiva do escritor, criando diálogos satisfatórios, eficientes, mas incapazes de amplificar ou “torcer”, com ironia, o drama iminente.

Mas, afinal, esses são os defeitos. Felizmente, o filme também abunda em qualidades positivas. A maior delas é o ritmo: com toda a ânsia de recriar a atmosfera pesarosa, solene, de Fracos, A Qualquer Custo acaba resultando quase em seu oposto – um filme movimentado, impulsivo, de situações que evoluem num crescendo de excitação e violência, muito graças ao trabalho brilhante, merecidamente indicado, do montador Jake Roberts. Confira a sequência de abertura – provavelmente a mais memorável do filme –, e tente não se deixar levar. A fotografia de Giles Nuttgens também ajuda a dar uma feição mais individual à obra, fugindo dos tons austeros de Fracos para abraçar a exuberância dos amarelos, laranjas e azuis intensos, tão típicos da região. E a trilha sonora, a cargo do cantor australiano Nick Cave e seu parceiro de crime, Warren Ellis, coloca os temas de ambição e decadência do filme de forma mais eloquente que o roteiro de Sheridan.

Ah, sim, o elenco. Difícil esperar algo ruim vindo de Bridges ou Foster, mas até nisso o filme soou underwhelming: se ambos estão eficientes e à vontade em seus personagens, eles também não fogem aos tipos que os consagraram no cinema – Bridges, como uma versão mais convencional do xerife Rooster Cogburn, de Bravura Indômita (olha os Coen de novo), e Foster como o sujeito selvagem, descontrolado, que ele vive em praticamente todo filme. A única surpresa fica por conta de Chris Pine, surpreendentemente sutil e seguro como o ressentido Toby.

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Afinal, pode não ser bem um novo Fracos, mas, com sua agilidade e inteligência, A Qualquer Custo confirma o potencial do western para a geração atual de realizadores e espectadores. Fica a torcida para que mais gente como Mackenzie mantenha viva essa tradição tão rica do cinema americano.

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