Tom Cruise conseguiu de novo: contra toda a maré negativa dos últimos anos, por sua associação ferrenha à igreja da Cientologia, pelos rumores sobre as esquisitices de sua vida pessoal, pelo fim do casamento com Katie Holmes, pela perda de cacife na indústria, ele vem se concentrando no que sempre deu de melhor ao público – de bons a grandes filmes de ação – e se saindo muito bem. Não que ele seja um ator particularmente limitado – toda vez que Cruise se aventura fora do reino do action film, ele costuma ser impecável: Trovão Tropical, Rock of Ages: O Filme e Feito na América estão aí, e não me deixam mentir.

Mas, dessa vez, ele se superou: Missão: Impossível – Efeito Fallout, o sexto capítulo da série que Cruise transformou numa das melhores franquias em curso no cinema, é não só o melhor Missão: Impossível até aqui, como pode muito bem ser o melhor filme de ação de 2018 – e um dos maiores de uma década que não tem feito nada feio no gênero.

Novamente com Christopher McQuarrie na retaguarda, escrevendo e dirigindo (os dois fizeram juntos Jack Reacher: O Último Tiro e os dois últimos capítulos de Missão), Cruise investiu pesado em todas as qualidades que se esperam de um filme de ação: o ritmo é frenético; a trama, elegantemente alinhada para dar lógica e potencializar o efeito das pancadarias e explosões; os combates e sequências de perseguição são de uma ferocidade rara de se ver num filme de grande orçamento de Hollywood; e, principalmente, os personagens são memoráveis, figuras pelas quais vale a pena prender o fôlego e mergulhar junto no turbilhão dos acontecimentos.

O roteiro enxuto parte exatamente de onde o último filme, Nação Secreta, parou. Ethan Hunt (Cruise) continua o mesmo agente secreto de determinação e engenhosidade à toda prova. Mas a ligação pessoal que ele nutre com alguns de seus colaboradores próximos – por exemplo, os parceiros agentes Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg) – faz seus superiores duvidarem da sua capacidade de tomar decisões cruciais, que visem ao bem maior – leia-se deixar que eles morram, se isso ajudar a poupar a vida dos milhões afetados pelas tramoias dos vilões que volta e meia assombram o universo da série.

Essa questão da lealdade será o grande fio condutor das várias viradas da história, todas muito bem urdidas, em especial o jogo de gato e rato entre Hunt e o agente enviado para se certificar de que ele vai cumprir sua missão, Walker (um formidável Henry Cavill, o Superman dos filmes da DC, claramente se divertindo muito num raro respiro vilanesco). O nêmesis de Hunt em Nação Secreta, o terrorista Solomon Lane (Sean Harris), também retorna, e as tentativas de capturá-lo rendem algumas das grandes sequências de ação do filme – sobretudo a espetacular perseguição ao carro de Hunt pelas ruas de Paris, cheia de manobras arriscadas e gloriosos stunts sem computação gráfica, na melhor homenagem ao estilo ação vérité de William Friedkin (Operação França, Viver e Morrer em Los Angeles) desde Mad Max: Estrada da Fúria.

Sim, a comparação com Mad Max não é despropositada: Cruise e McQuarrie têm motivos para crer que a sua colaboração pode ficar perfeitamente à vontade perto da obra-prima de George Miller, possivelmente o melhor filme de ação da história. São tantas sequências de encher os olhos (e assaltar os ouvidos) que o espectador pode querer apertar o braço da cadeira para não se deixar levar: a luta no banheiro da boate, a “extração” de Lane, o tiroteio na galeria subterrânea, e, o melhor de tudo, os vários conflitos paralelos na base médica da Caxemira, que culminam num dos melhores clímaxes que o action film já viu.

Como todas as demais peças nessa engrenagem tão eficiente, o elenco de Efeito Fallout brilha: Cruise está cada vez empático e humanizado como Hunt; Rhames e Pegg fazem sidekicks verdadeiramente carismáticos; Alec Baldwin tem uma participação pequena, mas memorável, como o chefe de Hunt em seu órgão de espionagem, Alan Hunley; a também agente (e amiga/rival de Cruise no filme) Ilsa Faust (a sueca Rebecca Ferguson, da série The White Queen) mostra por que merece estar no rumo certo do estrelato; e os papéis menores, como Erica (Angela Bassett), a chefe de Walker no filme, a Viúva Branca (a linda e magnética Vanessa Kirby, a princesa Margaret de The Crown), uma negociante de armas que leva Hunt a Lane, e Julia (Michelle Monaghan), a esposa de Hunt, também dizem a que vieram. Mas é Cavill a figura mais fabulosa: no que talvez seja o elemento mais delicado de um filme de ação, um vilão que valha a pena, Cavill bate de frente com Cruise no carisma, na convicção, até na extraordinária fisicalidade da interpretação.

É bem raro eu ter a chance de poder escrever isso numa crítica do Cine SET, então lá vai: o maior defeito de Missão: Impossível – Efeito Fallout é que ele acaba. Mas, até nisso, Cruise e McQuarrie acertaram: o timing é preciso, a obra (com sua montagem irrepreensível) é enxuta, e fica apenas o desejo sincero de que essa parceria renda de novo um fruto tão formidável quanto este aqui.

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