O cinema amazônico é muito mais que o cinema amazonense. Ponto. Posto isto como premissa, posso agora falar de comparações entre filmes. Longe de não reconhecer que a atividade de produção de filmes no Amazonas deu um salto qualitativo nas duas últimas décadas, mas fica fácil constatar que os realizadores amazonenses ainda guardam certa distância do que significa viver na Amazônia. Talvez pelo próprio desconhecimento disso, tão ausente da vida concreta desde os espaços escolares. Sua identificação é bem mais com a cultura dos colonizadores que dos ancestrais amazônicos. Mas, de todo, não têm culpa disto, uma vez que a cultura branca dos colonizadores se fez mostrar avassaladora, de modo mesmo a refutar qualquer outra.

A Floresta de Jonathas, de Sérgio Andrade

Penso, no entanto, que o cinema tem outra função – talvez mais importante – que o de simples entretenimento. E está justamente na capacidade de envolvimento político-cultural dos realizadores querer transformar parte desse cenário massificador: revelar os traços culturais, os hábitos e costumes daqueles que efetivamente praticam a vida neste espaço geográfico. E dos que já a viveram. Estou falando do mundo dos povos originários da Amazônia.

A Amazônia sempre exerceu sobre o mundo um fascínio de mistério, de algo desconhecido do homem branco colonizador, de potenciais originais e necessários à sanha tresloucada do enriquecimento, seja financeiro ou espiritual. No entanto, o que o cinema invariavelmente revelou para o mundo foi uma Amazônia exótica, inóspita, misteriosa, cheia de segredos, onde os valores a serem revelados eram as florestas, os animais, os rios, a terra. Como nos filmes norte-americanos da colonização, tanto sua como da africana, os moradores desse espaço – os indígenas – eram os inimigos, os vilões, que sempre impediram a “chegada do desenvolvimento, do progresso”. E assim foi até o presente momento. É bom que se diga, antes que me critiquem, que por povos originários da Amazônia acrescento aqueles que detêm traços indígenas, moram em ambientes extrativistas e já foram devidamente alcançados pela cultura e lógica capitalista. Posso citar algumas produções ficcionais que até tentaram revelar outros aspectos mais originários da região, mas invariavelmente com o “olhar de fora”. Temos aí “Fitzcarraldo” (1982), de Werner Herzog, “A Floresta das Esmeraldas” (1985), de John Boorman, “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), de Hector Babenco, “Tainá – Uma Aventura na Amazônia” (1999), de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch, “Eclipse” (2002), de Herbert Brodl, “A Selva” (2003), de Leonel Vieira, “A Festa da Menina Morta” (2008), de Matheus Nachtergaele, e “A Floresta de Jonathas” (2012), de Sérgio Andrade.

Torno a dizer, falo de longas ficcionais. No campo do curta-metragem e do documentário, temos muitos filmes que procuram estar em sintonia com o olhar amazônico. E isso é extremamente louvável, pois significa que uma geração mais recente de possíveis cineastas amazonenses está preocupada em falar basicamente daquele que fica ausente nos filmes ou é figurado como “estranho”, “exótico”, ou coadjuvante: o indígena, o homem da Amazônia. Tomo como exemplo – mas não único – o trabalho de Aldemar Matias.

O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra

Feito este longo introito, quero me deter no longa amazônico, de origem colombiana, “O Abraço da Serpente” (2015), de Ciro Guerra. O filme trabalha com os escritos de dois pesquisadores que passaram anos estudando a Amazônia: o etnólogo alemão Theodor Koch-Grunberg e o botânico norte-americano Richard Evans Schultes. Foram suas expedições que abriram portas para o conhecimento dos povos indígenas da região. É com base em seus relatos que Ciro construiu seu river movie. O filme é uma viagem nos rios da região onde os vestígios antropológicos, etnográficos, históricos e místicos nos são mostrados com grande precisão e verossimilhança.

Filmado (quase) todo em preto e branco, para assim imprimir maior autenticidade, “O Abraço da Serpente” inicia nos primeiros anos de 1900 com um adoentado Theo chegando até o índio Karamakate, único sobrevivente de seu grupo e que mora recluso no interior da floresta, em busca de uma planta sagrada que, segundo o ritual indígena, cura diversas doenças. Desconfiado inicialmente, o xamã o ajuda e aí todo um conjunto de conhecimentos históricos, culturais e místicos da Amazônia e seus habitantes nos são apresentados. A trama é entrecortada sem linearidade por dois momentos: esse, o primeiro, quando Karamakate ainda jovem convive com Theo, e 40 anos depois, quando o botânico Evan o procura para conhecer a planta relatada nos escritos por Theo. O filme caminha em cima dessa viagem de profundo conhecimento de homens de ciência e a natureza realizando um diálogo sobre o significado da mistura de culturas (a sequência terrível da missão religiosa) e o avanço de interesses econômicos, com destaque para o estrago que o período da borracha fez à região (notadamente aos escravos seringueiros). O colonizador está longe de ser um herói, como notadamente o é no cinema convencional. No filme de Ciro e na História, ele é sempre um intruso, sempre querendo dominar e controlar a natureza e as pessoas originárias. Nunca entenderá que não se deve pescar antes da época das chuvas, que não deve carregar arma de fogo e não pode usar os recursos naturais para acabar com outro.

Além da fotografia precisa e exuberante, o filme nos ensina a profusão de línguas amazônicas (foram usados nove idiomas) e a possibilidade de mistura de sons (canções indígenas e sinfonias europeias), numa combinação precisa e pungente com os elementos da natureza. Muitos espectadores poderão ver aqui traços dos filmes de Herzog (“Aguirre, a Coléra dos Deuses” (1972) e “Fitzcarraldo”), porém naqueles filmes os protagonistas eram dois colonizadores obcecados pela selva, enquanto os indígenas se limitavam a compor o exótico como decoração. Em “O Abraço da Serpente” são eles próprios seus protagonistas, constantemente ameaçados pelos “conquistadores” e “barões da borracha”. Ficamos conhecendo os cubeos, huitotos, tikunas, macús, wanamos, ocainas e outras tribos habitantes do Amazonas, cuja maior preocupação ancestral é cuidar, conhecer e respeitar tudo que se refere à natureza. Infelizmente, esse não é o conhecimento da população extremamente urbanizada do Amazonas, marcada no senso comum por uma incorporação de linguagens, costumes e culturas “importadas”. Quando muito, aquele é um conhecimento ainda restrito à academia universitária. É nesse conhecimento nativo que vivem os sonhos e os espíritos que comandam a vida, e para vivê-la precisamos compreender o significado dos alucinógenos, sem a conotação pejorativa que a sociedade envolvente lhes atribui. No filme de Ciro encontramos provavelmente o mais poderoso elogio dos alucinógenos, mostrando que sua influência cinematográfica está mais para Jodorowsky, Tarkovsky e Lynch. Nesse uso do alucinógeno compreendemos que ele se constitui numa espécie de essência divina que nos permite conhecer o universo, não para nos apropriar dele, mas para compreendê-lo.

Exatamente no desfecho do filme, no instante em que percebemos a necessidade do renascimento do novo, na busca que cada um tem para encontrar-se a si mesmo e assim ver tudo sob outro olhar e um outro significado, é que o filme de Guerra se aproxima, visual e poeticamente, à viagem do renascimento cósmico de 2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), genial e premonitório filme de Stanley Kubrick. “O Abraço da Serpente” é um filme intenso, sensível e transformador em conteúdo para aqueles que veem com os olhos, mas sentem com a alma; para os que desejam refletir sobre os impactos culturais e naturais provocados pela colonização; para aqueles – amazônidas ou não – que têm que lidar com essa questão desumana.

Espero que um filme com o tema (e a forma como foi abordado) de “O Abraço da Serpente” seja um exitoso estímulo aos cineastas amazonenses para repensar a importância de se trabalhar esteticamente com o homem amazônico. Não é preciso que seja sempre um documentário, mas a possibilidade de construção de histórias ficcionais capazes de adentrar antropológica e poeticamente no universo simbólico da Amazônia.

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