Não há como negar que o novo “O Predador” seja um filme de Shane Black: a história é ambientada em uma data comemorativa, há personagens insanos, situações inusitadas, cinismo e dose de sarcasmo. Tudo seria uma maravilha se não fossem duas coisas: a falta de um protagonista marcante e um pouco de freio no ímpeto do diretor.

Interessante notar que o filme começa em uma espécie de “in media res”, com uma referência clara a “Star Wars”. Com sua nave sendo atacada, a criatura acaba pousando na Terra e no meio do serviço do soldado McKenna (Boyd Holbrook) que estava prestes a “finalizar” sua missão. Ao entrar em contato com a criatura, o militar acaba sendo preso com a mesma pelo governo e, a partir daí, a confusão está armada.

Eu poderia descrever mais a sinopse, mas é só isso mesmo. Confusão é a palavra para definir o roteiro do próprio diretor acompanhado de Fred Decker. Shane Black tinha duas missões: renovar a franquia que estava parada desde 2010 com “Predadores” e expandir o já tão pobre universo do alienígena. Não levem a mal, mas o mistério, visual e o arsenal do monstro são as melhores coisas do mesmo e explorar, contar a origem ou tentar justificá-lo, no fim das contas, pode ser um erro.

Mas o filme não deixa de ser divertido quando abraça o seu potencial de ser um cinemão Slasher e ainda com o texto encaixando em diálogos cheios de zoeira – o momento em que explicam o porquê do nome da criatura é espirituoso – mas, se é legal vermos a personagem feminina cortando mansplaining, logo em seguida, voltamos à programação normal ao nos depararmos com situações sexistas. Seja a mulher nua com a criatura a encarando ou o herói encaixando a moça em uma pose sexual “involuntária”.

Mas não posso deixar de elogiar, de certa forma, como o roteiro trata a personagem de Olivia Munn (apesar do emprego dela de cientista ser apenas uma desculpa). Não fazendo a do tipo mocinha indefesa e caindo pra dentro da ação quando necessário, o seu temor pela criatura só não é maior que o seu fascínio.

Como já é de praxe, os personagens secundários são pouco desenvolvidos – sempre apenas mais vítimas – mas só não é um desastre por conta dos atores. Se você liga pra algum personagem com certeza é pelo ator ali e não pelo o que você viu no filme. Todos remetendo ao time do primeiro filme, mas convenhamos Boyd não é Schwarzenegger e o Trevante Rhodes (apesar do talento) não é o Carl Weathers quando se trata de carisma.

Diálogos óbvios e preguiçosos estão espalhados por todo filme como o debochado “Aliens” ao “é exatamente isso que você está pensando”. Referências sutis ao original como quando o protagonista pede pra todos irem pegar as “Choppers” (aqui se referindo a motos).

A trilha sonora de Henry Jackman é nada mais nada menos que brincar com a original de Alan Silvestri. Tecnicamente, o 3D empregado no filme nada acrescenta, “O Predador”, em grande parte, se passa à noite e a imagem escurecida por conta da tecnologia prejudica nas cenas de ação que, em alguns momentos, ficam, adivinha só, confusas – vide quando o Super Predador ataca.

Falando nas criaturas, o design atualizado continua caprichado, apesar da fotografia escura escondê-las demais. A atualização da tecnologia do alienígena mostra que eles não ficaram parados e continuam procurando formas de melhorar o desempenho deles na caçada. Se você curtiu os Cães Hulk do filme do Ang Lee, preparem-se para uma surpresa.

Por fim, outro destaque é Jacob Trambley, que faz o filho do protagonista. É engraçado a capacidade do garoto em interpretar de maneiras diferentes crianças peculiares, mesmo que nesse último caso, seja até uma criança clichê – garoto especial que se torna peça-chave da trama. Já imagino o menino trabalhando com o Tim Burton no futuro.

É impressionante como mesmo cheio de furos e confuso, “O Predador” ainda consiga ser um passatempo divertido. Isso superando até mesmo o final anticlimático e com uma tentativa bizarra de adicionar um novo elemento.

O filme poderia até ser considerado melhor que os dois anteriores (convenhamos não é muito difícil), apesar de eu ter um carinho nostálgico pelo segundo. Mas o primeiro continua lá intacto e já vou rever minha cópia porquê desse agora, com certeza, daqui duas semanas eu não lembro deste reboot.

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