Narciso Lobo é um dos pesquisadores essenciais para compreender o cinema no Amazonas. Versado em letras, literatura, poesia, música, cinema e política, sua contribuição é tão pertinente, que, mesmo após 10 anos de seu falecimento, ele permanece sendo imprescindível para a cultura audiovisual local.

Por isso, o Cine Set foi atrás de críticos, pesquisadores e diretores de cinema para saber qual o legado de Narciso Lobo ao nosso cinema.

“Narciso é um ser transdisciplinar. As intervenções feitas por ele tiveram essa marca da sala de aula à rua, nos espaços por onde andou, experimentou e protagonizou acontecimentos.

Precisamos colher as contribuições de Narciso Lobo nas várias áreas. No rádio, criou, em parceria com outros professores, o Programa Radiofônico Universidade Livre de Manaós, apresentado por mais de dez anos na Rio Mar e, mais tarde, transformado em projeto de extensão com participação direta dos estudantes de jornalismo da Ufam. No Encontro de Ideias, projeto realizado entre o final de 1989 até 1992, impulsionou grandes debates com foco em temas de relevância para a Amazônia e o Amazonas. Conectou esta região com o Brasil a partir dos diálogos entre universidades e múltiplas áreas do conhecimento. Nos jornais, onde atuou como articulista e repórter, qualificou a abordagem cultural; seguiu na problematização das séries para a televisão e o lugar da Amazônia nessas narrativas.

No cinema, havia uma luta local, para manter salas de cinemas abertas e ampliação desses espaços. É nesse ritmo de “Hoje tem Guarany”, livro produzido por ele e pela Profª Selda Vale, que noções de direitos humanos e do acesso a bens culturais são lançadas e ganham as ruas, as discussões nos botecos, nos encontros dos intelectuais e dos artistas, nas sala de aula. Esse rosto da luta travada naquele momento engloba questões pelas quais lutamos hoje e espalhou sementes de resistência; a outra face está na determinação do Prof. Narciso em conhecer a história do cinema local, produzir pesquisas, estimular o debate e os estudantes a se interessarem por essa temática.

Como árvore, Narciso Lobo tinha galhos longos e em cada um deles estava abrigada uma proposta cultural-acadêmica. Organizar os eixos de atuação de Narciso é uma tarefa que se coloca menos pela homenagem a ele e mais por necessidade nossa, a fim de, na memória, nos reencontrarmos e encontrarmos as razões para resistir ao tempo da selvageria de agora. O cinema, e o cinema na Amazônia, é um dos territórios da cidadania defendida por Narciso”.

“Acho que Narciso não tem apenas um legado, ele tem legados. Quanto mais leio e procuro saber sobre a trajetória dele mais me surpreendo. As atividades enquanto militante, as inquietações enquanto pesquisador, e sobretudo a dedicação ao ensino como professor da Ufam.

Certamente Narciso é uma referência para nós como Centro Popular do Audiovisual, por mostrar que o cinema vai além dos filmes, e se desdobra em atividades outras”.

“O professor Narciso Lobo foi alguém de uma influência tremenda em diversas áreas. Para o Cinema amazonense ele foi alguém que deu complexidade aos estudos do cinema, por um lado, pois discutiu cinema em relação a cultura, a política, a sociedade e etc. Por outro lado, ele aproximou o cinema de muitas gerações, inclusive gerações de jornalistas que foram formados por ele na Ufam e mais tarde, como no meu caso, formado pela Ufam, mas depois de sua ida.

Eu conheci a obra do Narciso pelo seu livro ” A tônica da descontinuidade: cinema e política em Manaus na década de 60″ uma obra riquíssima, fruto de um pesquisador maduro e dedicado, mas que por outro lado é prazeroso de ler e acompanhar. Foi um livro que me ajudou muito a abrir a mente para estudar o cinema em Parintins, no meu mestrado. Lembro também do livro “Hoje Tem Guarany” escrito junto a professora Selda Vale, onde além do intelectual, aparece de forma muito forte o militante, algo que ele fazia muito bem e da melhor forma possível, ser um intelectual denso, mas também um militante popular e presente”.

“O professor Narciso será sempre lembrado por sua contribuição para os estudos do cinema no Amazonas por ser basicamente um dos indivíduos que trouxeram à tona essa história. Simplesmente não há pesquisa séria sobre a temática que não o cite. O afinco e olhar crítico do professor também marcaram sua atuação como docente consciente, politizado e envolvido com a democratização da informação,  além de seus estudos na área de ficção seriada, usualmente menos lembrado.

Pensando estritamente em termos de cinema, a trajetória do professor Narciso é uma das razões da história do cinema amazonense continuar a ser contada hoje, pois além de sua produção própria, ele esteve diretamente envolvido na formação de vários diretores, pesquisadores, jornalistas e críticos de cinema no estado”.

 “O legado de Narciso para o cinema foi ser um dos precursores na pesquisa sobre a produção e exibição de filmes no Amazonas, além de refletir a importância do movimento cineclubista em Manaus a partir dos anos 1960.

Junto com a Selda, foi quem desenvolveu estudos e levantamentos acerca dessa historiografia do cinema na região, contribuindo para que o Amazonas ocupe um lugar histórico no cenário nacional, na identificação de um de seus pioneiros (Silvino Santos)”.

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