O sucesso do cinema pernambucano já é uma realidade consolidada. Mas o que nem todo mundo se deu conta é que ele acontece no mesmo momento em que o cinema produzido em São Paulo e Rio vive uma fase não muito sólida, parece viver uma crise de criatividade, ou ainda tateia na busca de um estilo próprio, que não esteja diretamente associado à publicidade ou à Globo Filmes.

Não pretendo com esse texto identificar os pontos que fazem do cinema nordestino ser (atualmente) mais interessante do que o da região sudeste, pois acho que isso vale um texto próprio, mas é interessante ver que um filme interessante como “Permanência”, que se passa inteiro em São Paulo, seja de um diretor e equipe pernambucana. Sendo ressalvadas as dignas exceções, é como se pra que fosse possível sair um resultado de qualidade de São Paulo fosse necessário ir alguém de Pernambuco para fazê-lo.

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É esse olhar estrangeiro sobre São Paulo que garante a estranheza necessária para que o trabalho alcance um resultado satisfatório, ao ser um palco ideal para a confusão de afetos entre os personagens, que parecem nunca se conectar verdadeiramente um ao outro.

Ivo (Irandhir Santos) é um fotógrafo de Recife que vai para São Paulo porque as suas fotos serão publicadas em uma exposição, que será a primeira da sua carreira. Ele se hospeda na casa da sua ex-namorada, Rita (Rita Carelli), que é casada com Mauro (Sílvio Restiffe), e isso faz com que eles percebam que a relação entre os dois é bastante diferente de antes, e a maneira com que Ivo se relaciona com a cidade torna a viagem ainda mais estranha.

“Permanência” funciona como uma espécie de continuação de um curta-metragem, “Décimo Segundo” (2007), também dirigido por Lacca, e com Santos e Carelli nos papéis principais. O curta é basicamente a cena inicial do longa, que é o reencontro de Ivo e Rita, e “Permanência” encarrega-se de ressignificar os dois personagens, e dilatar os seus universos.

Apesar do protagonista ser Ivo, a cidade de São Paulo quase rouba o posto de personagem principal da história. Lacca e Sotero filmam a cidade de uma maneira bastante peculiar, ressaltando ora a sua superpopulação, através de planos em que as pessoas (no caso, os habitantes da cidade) surgem quase amontoadas umas sobre as outras, como que para mostrar, ou buscar uma explicação para, a falta de afeto entre elas; e ora mostrando um aspecto esquisito das máquinas tão presentes na vida urbana paulista, como o metrô, traquitanas para fazer suco e café, ou equipamentos eletrônicos.

Ivo não consegue manter uma boa relação com o local, olha tudo com estranheza, como se questionasse a suposta eficiência desse estilo de vida. Tal desconexão também está presente no seu relacionamento interpessoal, e o melhor exemplo disso são as cenas que compartilha com Mauro e com a responsável pela sua exposição: apesar da educação de ambas as partes, fica claro que um desmerece a maneira de pensar do outro, pois possuem ideias radicalmente diferentes sobre as coisas, (assim como os sotaques, como Lacca faz questão de ressaltar), o que impede qualquer tipo de ligação entre eles que não seja a mais superficial possível.

Até mesmo com Rita é difícil a relação. Isso fica evidente na elogiável sequência inicial, na qual os dois simplesmente não conseguem estabelecer uma conversa com naturalidade. Mesmo que haja muito a dizer, colocar isso em palavras é doloroso e inadequado, olhar para os lados, e falar sobre banalidades é a saída de menor confronto. O silêncio é outro personagem fortíssimo na trama, está presente nos diversos contextos vividos por Ivo, em que o não dito tem muito mais a dizer, criando um contraste interessante num homem com muitas relações: possui uma namorada em Recife, mantém uma relação inacabada com uma mulher casada, e se relaciona sexualmente com outra.

Permanência, com Irandhir Santos

Por isso, conjecturo, que em diversos momentos o diretor corta a cena antes que haja a resolução da conversa ali estabelecida, pois no fundo não interessa muito o assunto tratado: ou não é importante pra trama, e só serve para apresentar alguma informação sobre os personagens, e isso fica escancarado; ou os próprios personagens não estão verdadeiramente interessados no papo, e o corte seco abrupto significa que eles estão pensando já no que fazer quando aquilo acabar, e poder realmente fazer algo do seu interesse.

Por investir fundo nessa proposta da incomunicabilidade daquelas figuras, e por estabelecer a cidade como um local inóspito para a criação/manutenção de bons relacionamentos (o tempo inteiro me lembrei de “Não Existe Amor em SP”, do Criolo), é realmente frustrante acompanhar o uso equivocado da trilha sonora.

Chega a ser contrastante ver, por exemplo, a cena em que Ivo e sua ficante caminham pelas ruas de madrugada, em que a câmera está na mão, a imagem granulada, meio desfocada, numa proposta meio bruta, mas interessante, para momentos depois ouvirmos o convencional e clichê acúmulo de violinos, tentando inserir na marra uma suposta complexidade maior. Não dá pra entender! Tudo flui bem, não sentimos a menor falta de trilha sonora, principalmente se for melosa e descartável. A sequência mais bonita e marcante do filme, a do café pelo corpo da moça, fica com essa marca desagradável e implausível, que soa quase como um crime.

Apesar de tal deslize, o saldo de “Permanência” é positivo, principalmente por criar um elo tão identificável com a plateia, e por ter um Irandhir Santos em plena forma.

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