Como o último filme japonês sobre o qual escrevi aqui no Cine Set, cheguei a este “Sabor da Vida” sem saber exatamente do que se tratava. Assim como da última vez, a ocasião foi fortuita: mais uma vez pude ser surpreendido pela habilidade nipônica de esconder o real tema de uma obra cinematográfica até que ele venha de maneira natural.

“Sabor da Vida” é o novo filme de Naomi Kawase, uma diretora japonesa queridinha de Cannes, famosa por suas narrativas complexas. Para quem é familiar com sua obra, a primeira coisa que chama a atenção em seu novo projeto é o espantoso tradicionalismo de sua trama, que gira em torno da interação de três personagens cujas vidas se cruzam em uma loja que vende dorayaki, um doce típico japonês recheado com uma pasta do doce de feijão (essa pasta dá nome ao longa no Japão).

Teve crítico que chamou a produção de simples demais por conta do choque, mas não se assuste: sim, “Sabor da Vida” tem uma história que faria aquela sua tia que ama filmes água-com-açúcar se derreter toda se fosse estrelado por americanos, porém ele toca em pontos tão certeiros de maneira tão sutil e sincera que é impossível não se deixar levar.

Nesse sentido, Kawase conta com um time talentoso para trazer a sua versão de um filme “Telecine Touch” a um nível acima dos demais. A fotografia de Shigeki Akiyama (retomando a parceria com a diretora, com quem fez “O Segredo das Águas”) brilha ao trazer uma Tóquio muito diferente da conurbação que filmes como “Encontros e Desencontros” (2003) popularizaram aqui no Ocidente.

Esta parte da cidade tem uma pinta suburbana, bastante conectada com a natureza, a qual os realizadores fazem questão de destacar em belíssimas tomadas – em destaque, as de flores de cerejeira, que pontuam o filme servindo como anotações temporais.

No mais, como o trio de protagonistas, Masatoshi Nagase, Kirin Kiki e Kyara Uchida estão completamente devotados aos seus papeis e totalmente nos vendem o conto sobre amor e perda que “Sabor da Vida” é – Kawase, inclusive, fez questão de mantê-los separados durantes as gravações para tornar seu desempenho em frente às câmeras mais espontâneo.

Em especial, Kiri, uma figura emblemática na atuação japonesa (ela pôde ser conferida recentemente por essas bandas no excelente “Pais e Filhos”, de 2013), encarna sua personagem de tal forma que o espectador fica nas mãos dela durante qualquer cena em que ela aparece. Seu desempenho no terceiro ato deste filme é simplesmente assombroso e deixa marcas em quem quer que a veja.

Ainda que dotado de um ritmo decididamente oriental e de uma pegada que lembre uma versão light de Terrence Malick, “Sabor da Vida” se mostra uma incursão fantástica e cheia de delicadeza de Kawase no lado mais “mainstream” do cinema, com direito a sérias reflexões sobre a maneira como aproveitamos a vida e como tratamos as coisas que nos são realmente importantes.

Se eu recomendo o filme? Claro, mas leve lenços. Conselho de amigo ;).

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