Durantes estes últimos quinze anos, Saleyna Borges esteve numa posição privilegiada para acompanhar o movimento de cinema no Amazonas. Presente no cenário audiovisual desde o início, primeiro como realizadora premiada – seu filme do Festival do Minuto Infância Perdida foi premiado na Goiânia Mostra Curtas – e depois como Assessora do Audiovisual da Secretaria de Estado da Cultura e gerente da Casa do Cinema, ela acompanhou toda a evolução da produção cinematográfica local.

Depois de tanto tempo, ela tem histórias para contar… E contou muita coisa ao Cine Set durante um bate-papo na nova sede da Amazonas Film Comission, situada agora no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, na Bola da Suframa. Nesta entrevista, abordamos a história da Film Comission, administrada pela Secretaria de Estado de Cultura, as razões para a mudança desse órgão, as recentes políticas do Governo do Estado para a área audiovisual, e o que ela espera para o futuro do cinema amazonense.

Leia a primeira parte da entrevista aqui

Cine Set: Primeiro, fale um pouco sobre a história da Amazonas Film Comission. Quando ela foi fundada?

Saleyna Borges: A AFC foi estabelecida em 2000, e as negociações para a criação dela começaram em 1998. Na época, quem era a gestora do Museu da Imagem e do Som era a professora Vera Lúcia Ferreira, historiadora e antropóloga. Um dia, pesquisando sobre uma exposição, ela descobriu que existia uma instituição internacional própria para lidar com produções, para dar apoio.

Ela deu a ideia de criar esse setor dentro da SEC para atender essa demanda de produções de TV e cinema aqui na região. Ela reconheceu que era uma forma de levar a imagem do Estado para o mundo inteiro, não só gerando trabalho para os técnicos da área audiovisual, mas também para incrementar a economia e o turismo.

Já tinha acontecido o Anaconda (1997), e ele também serviu como estímulo pra criação da AFC. Foi rodado na região do Ariaú, uma produção de 60 milhões de dólares e que empregou mão-de-obra local. Ali, viram que era rentável para o Estado receber essas produções, mas tinha que ser algo legalizado.

É quando entra o Sérgio Andrade na história, o primeiro gerente da AFC. No começo era uma sala no subsolo do Palácio Rio Negro. Para inaugurar, houve um seminário para os empresários e órgãos que geralmente são requisitados quando chega uma produção: INPA, alfândega, porto… Esse seminário foi o pontapé inicial.

Nas minhas pesquisas, foi a primeira Film Comission do Brasil. A partir da nossa, foi criada a do Rio de Janeiro. A nossa segue os regulamentos de todas as Film Comissions atreladas ao governo. A gente não cobra taxa pra gravar aqui e nem dá incentivo financeiro, exceto pelas primeiras produções, entre os anos de 2000 e 2002. Foi o caso do A Selva, de O Dia da Caça com o Marcelo Antony, entre outros.

Cine Set: E quanto a você? Quando começou a trabalhar aqui?

Saleyna Borges: De 2000 a 2005 o gerente foi o Sérgio. A AFC dava suporte a todas as produções, mas as locais eram meio independentes. Foi o boom do filme do Minuto. Nessa época, a AFC e a SEC, com o Governo do Estado, entra para apoiar o Festival do Minuto, e assim o fizeram até 2005. O Festival teve uma grande visibilidade lá fora, chegou até Cannes no ano do Brasil na França. O mundo assistiu àquela coletânea de 60 filmes do Festival do Minuto! Logo em seguida, resolveram criar o outro festival. Não que o Amazonas Film Festival tenha nascido do Minuto, mas a visibilidade serviu como um motivador. Os franceses deram a ideia de ter um festival de cinema – o AFF foi organizado pela Republique – e o governador Eduardo Braga disse “vamos fazer”.

O AFF nasceu com essa mesma intenção: vender o Amazonas como locação e como polo de produção audiovisual, com o Estado fomentando a produção local e atraindo as produções de outros Estados e outros países.

Bem, eu fiz um filme do Minuto em 2003 e foi mandado para o Goiânia Mostra Curtas em 2004. O único selecionado de Manaus foi o meu: falava sobre prostituição infantil, o assunto estava na mídia, as redes sociais surgindo… Era um filme amador, produzido pelo edital da Multibrás, e naquele ano a SEC foi a maior apoiadora do evento. Mas foi selecionado e eu fui até lá, minha primeira viagem. E o filme ganhou uma menção honrosa e voltei como cineasta amazonense premiada.

Cheguei a Manaus no mesmo dia da coletiva do primeiro AFF, e fui para dizer que o apoio do Governo foi primordial. Já tínhamos a produção local, uma Film Comission, um novo festival, e tudo estava no caminho certo. Trabalhei naquele AFF e depois fui convidada a trabalhar na SEC prestando serviços até 2007, ajudando nos projetos e exposições audiovisuais da Secretaria.

Quando a AFC saiu do Palácio, foi para um endereço na Quintino Bocaiúva, já sob o comando do Óscar Ramos, um local chamado de Casa do Cinema, e por volta de 2006, 2007, começaram especulações sobre a vinda de um CTAV [Centro Técnico Audiovisual] para cá. E no fim das contas, a SEC decidiu montar um Núcleo Digital, que era um projeto novo do governo federal, o “Olhar Brasis”, uma implantação de núcleos digitais pra fomentar a produção audiovisual no Norte e Nordeste do país.

Cine Set: Fale também sobre a implantação do Núcleo Digital.

Saleyna Borges: O nosso foi o primeiro do Norte e no decorrer das negociações, às vésperas do novo AFF, fui convidada para ir à nova Casa do Cinema, na Ferreira Pena, para ver o Núcleo Digital montado. Fiquei encantada: era um andar próprio com seis salas, câmeras, ilha de edição, MACs, edição de áudio… Foi um investimento de R$ 200.000, 00 feito pelo Governo do Amazonas, por meio da SEC.

Saio da visita e encontro o secretário [Robério Braga] no Teatro Amazonas. Ele me pergunta: “É disso que os cineastas precisam?”. Respondi que sim e, no dia seguinte, me ligaram, dizendo que eu tinha sido escolhida para gerenciar o Núcleo. Não era minha meta, mas já me conheciam, sabiam que eu era realizadora local, então… Aí veio o grande desafio de gerenciar um órgão que lidava com recurso público, e eu nunca tinha gerenciado nada. Fui estudar, conversar com as pessoas por telefone e por e-mail, pra decidir o que a gente podia fazer com aquilo, que era nosso, dos realizadores locais, um espaço no qual eles não iam precisar pagar nada para usar.

Em 2008, iniciamos o ano querendo transformar aquilo em produtos palpáveis. Fizemos um manual de uso para definir quem podia e como se podia usar aquele equipamento. A primeira produção que usou de fato todos os recursos do Núcleo foi o Criminosos, filme do Sérgio com roteiro do Emerson Medina, premiado no concurso de roteiro do AFF.

Então vimos o quão importante era aquele setor, para fazer produtos mais profissionais. Nada mais de microfone amarrado no cabo de vassoura para captar o som (risos). Não que eu não tenha saudade daquela época. Foi uma época boa, a galera era mais unida em prol de um bem comum.

No Núcleo, vi que poderíamos atender mais projetos do que fazíamos até então. E eu assumo a Casa do Cinema em 2011, com a saída do Óscar Ramos. De 2008 a 2011, chegamos a produzir cerca de 60 filmes com equipamento do Núcleo, incluindo aí o projeto Jovem Cidadão que era de cinema nas escolas.

Dentro da Casa do Cinema, existia a AFC e o Núcleo Digital, e recebíamos tanto a produção que vinha da BBC quanto os filmes da Dheik Praia, como o Jorge, e do Zeudi Souza. O Zeudi foi o primeiro realizador local que usou o escritório de produção da AFC pra produzir o filme dele, Vivaldão – O Colosso do Norte.

Em 2010, fomos convidados a participar da primeira assembleia de formação da rede latino-americana de Film Comissions. E foi um sucesso total. Ali eu entendi o que era a nossa AFC. A gente não dava dinheiro para nenhuma produção, não cobrávamos taxa pra filmar aqui, e vi quanto respeito nós tínhamos lá fora por causa disso. E mais uma vez vi que estávamos no caminho certo.

Cine Set: Você sente falta de fazer filmes por causa desse trabalho?

Saleyna Borges: Sim, mas vou fazer. Estou escrevendo um roteiro de curta e tenho dois filmados, na ilha de edição. Mas por ética, por estar aqui dentro e ter equipamento disponível, eu preferi não montar meus filmes. Não quero que depois digam que usei o sistema a meu favor.

Cine Set: São sobre o quê?

Saleyna Borges: Meus filmes são muito ligados à questão social. São documentários. Antes, fiz Lixo que Alimenta, graças ao edital da Prefeitura, outrora Fundação Villa Lobos. Dentre os dois ainda não montados, um é um documentário sobre a padroeira do Amazonas, Nossa Senhora da Conceição – tem quatro horas de imagem pra virar um filme de cinco, dez minutos – e o outro ainda não foi gravado na integra, é uma história familiar, uma comédia. Eu até pretendo refilmar.

Mas, não tenho pretensão de me tornar um novo Sérgio Andrade ou um novo Aldemar Matias (risos).

Cine Set: Você disse antes que, na época em que o microfone era amarrado no cabo da vassoura, a classe era mais unida. Acha que hoje existe uma união? Nessa época de cortes na cultura, sem AFF, a Lei parada…

Saleyna Borges: Naquela época estávamos começando o movimento, se descobrindo realizadores, e ainda não tínhamos a dimensão de que o cinema é profissão. De que é uma indústria e que você pode sobreviver dele. Não é que as pessoas estejam desunidas, é que muitas delas seguiram seus rumos.

Cine Set: Mas, tomando como exemplo a falta do AFF, você não acha que uma união da classe em prol disso, com ideias e propostas para reverter essa situação… Não acha que falta isso?

Saleyna Borges: Sinto falta de uma mostra de curtas em Manaus. Se tivéssemos isso, organizada por alguma entidade do setor audiovisual, a produção local estaria sempre em evidência.

O Estado faz a parte dele, ele investe. Alguns podem dizer que é pouco, mas são editais de fomento, de apoio, não de patrocínio. As pessoas podem inscrever os projetos também nos editais federais ou tentar empresas. Penso que o movimento aqui não está desunido, mas poderia ser mais forte. Falo como realizadora também.

Penso que cada um, que se descobriu como realizador e agora já com experiência, poderia contribuir mais para o cenário local. Por exemplo, temos um fórum que neste ano de 2015, não se reuniu nenhum dia. Só discussões no Facebook e nenhuma proposta.

A SEC tem que ir atrás dessas pessoas, ou seria mais viável a gente receber delas alguma proposta e trabalharmos juntos? A classe tem que dialogar com os órgãos públicos, federais e estaduais.

Cine Set: Você acha que não há proposta porque o pessoal não se enxerga como cineasta, sente que não há futuro nessa área em Manaus?

Saleyna Borges: O Estado e o município já têm dado a sua parcela de contribuição. Temos o setor dentro da secretaria, o edital Proarte e os demais editais de incentivo, com valores que não estão abaixo dos editais fora daqui.

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Cine Set: De qual filme que passou por aqui você tem mais orgulho?

Saleyna Borges: Todo mundo que passou por aqui nos procurou porque tinha vontade de fazer filme. Não tinham o recurso técnico, que nós oferecemos. Tem alguns pelos quais eu sou completamente apaixonada. Eu adoro o Jorge da Dheik. Acho ele bem redondinho, foi feito com muita dedicação dela. Ele e o Buenos Dias são os filmes dela que eu mais gosto.

Sou fã dos filmes do Sérgio, porque eu vi o quanto é difícil fazer um longa-metragem. A trajetória dele abriu portas enormes pra gente aqui. Se temos um Sérgio Andrade, podemos ter vários.

E vamos ter vários no dia em que as pessoas entenderem que o cinema pode, sim, ser profissão, ser mais do que um hobby, mais do que o tapete vermelho do Festival. Quando as pessoas se conscientizarem que precisam levar a sério, ter cuidado com a produção, e quando entenderem que há vários meios.

Já imaginou se o Sérgio tivesse inscrito o longa dele somente no edital da SEC e não do MINC? Ele não teria feito A Floresta de Jonathas, não teria ido para 30 e poucos festivais como foi. Ele percorreu o mundo inteiro com o filme. Então, acho que acima de tudo, a pessoa tem que apostar nela e no seu sonho.

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