Há alguns anos, os irmãos roteiristas e diretores Andy e Lana Wachowski lançaram, em parceria com o cineasta alemão Tom Tykwer, o filme A Viagem” (2012). Era a adaptação para o cinema do livro do autor David Mitchell, considerado praticamente “infilmável”, que mostrava a conexão entre um grupo de personagens vivendo em diferentes épocas. Era um filme falho, claro, prejudicado por alguns desenvolvimentos estranhos e um trabalho de maquiagem ocasionalmente risível. Mas era também um filme ambicioso e repleto de momentos belos, trabalhando com a noção quase religiosa de interligação entre os seres humanos. Tanto que “A Viagem” até hoje tem seus defensores, entre os quais me incluo – as qualidades acabavam superando os defeitos, na minha opinião.

E no mesmo ano em que os Wachowskis amargaram seu maior fracasso no cinema, o filme O Destino de Júpiter (2015), eles se voltam para o seu primeiro projeto televisivo com “Sense8, exibido e co-produzido pelo Netflix. Em parceria com os irmãos criadores da trilogia Matrix está o roteirista e produtor J. Michael Straczynski, criador do seriado de ficção-científica dos anos 1990 “Babylon 5”. Tom Tykwer, que dirige alguns episódios, também dá suas contribuições. “Sense8” é basicamente o filhote resultante de uma noite de sexo selvagem entre “A Viagem” e o seriado “Lost”, levando as ideias de diversidade e interconectividade entre seus personagens à sua máxima expressão.

Daryl Hannah em Sense8

A trama

No começo, a confusão é inevitável. O primeiro episódio abre com a estranha cena da morte de uma mulher loura interpretada por Daryl Hannah. Dois homens a acompanham: um fornece conselhos e é interpretado pelo ator Naveen Andrews, o Sayid de “Lost”, aqui assumindo o papel do personagem conhecedor dos mistérios; e outro a ameaça – este é o grande vilão da trama. Mas eles aparecem e somem alternadamente, e dão a impressão de não estarem presentes na mesma sala que ela.

Mais à frente no seriado, o personagem de Andrews, chamado Jonas, vai aparecer para explicar algumas coisas para os outros personagens e para o espectador também. A série é justamente sobre a conexão entre oito indivíduos diferentes que nunca se viram e moram em diferentes partes do mundo. Cada um tem seus próprios problemas: uma moça indiana que não quer ir em frente com seu casamento arranjado (Tina Desai), um ladrão alemão (Max Riemelt), um ator mexicano famoso por papeis de herói machão que na verdade é homossexual (Miguel Ángel Silvestre), um motorista de van queniano (Aml Ameen), uma executiva coreana que dá vazão à sua raiva em lutas clandestinas (Doona Bae), uma DJ islandesa (Tuppence Midddleton), um policial de Chicago (Brian J. Smith) e uma hacker transexual (Jamie Clayton).

A conexão entre eles é instantânea: cada um deles consegue assumir o lugar do outro em dado momento. Eles conseguem conversar a até agir um pelo outro, além de compartilhar sensações e experiências. De repente, o policial consegue aparecer na casa da DJ, ou a coreana boa de briga aparece para ajudar o queniano quando este se mete numa encrenca, ou o alemão surge num momento chave para impedir o casamento da indiana. De acordo com Jonas, eles são sensate, uma nova espécie de ser humano capaz dessas conexões psíquicas imediatas. E ele precisa protegê-los da corporação maligna – na ficção, existe outro tipo? – que está à procura deles, comandada pelo misterioso Suspiros (Terence Mann).

Doona Bae em Sense8

A empatia está no ar

O tema principal de “Sense8” é a empatia. Afinal, os personagens do seriado realmente conseguem se colocar no lugar do outro e compreender seus problemas. A noção de ligação entre eles, de novo, é quase mística, como se via em “A Viagem”, e é perfeitamente visualizada pelo aspecto mais fascinante do seriado, a sua montagem. No decorrer dos episódios, vemos os sensate tendo conversas separadas por lugares ou até países diferentes, e a simples logística de produção necessária para fazer isso funcionar deve ter sido enlouquecedora. Numa tomada, vemos os atores em Nairobi, por exemplo, para na tomada seguinte a cena continuar em Chicago. Os melhores momentos a fazer uso dessa conexão são a sequência da “orgia telepática” no sexto episódio – Afinal esses poderes não servem só para causar problemas, e a abordagem pan-sexual dos roteiristas envolvem todas as nacionalidades e orientações sexuais – ou a fuga de Nomi, a hacker, na sequencia de ação criativa e de tirar o folego do oitavo episódio.

O tema principal de “Sense8” é a empatia. Afinal, os personagens do seriado realmente conseguem se colocar no lugar do outro e compreender seus problemas.

A empatia é o tema principal do programa e os vilões, claro, são aqueles incapazes dela: os cientistas e organizações que querem explorar os dons dos personagens para seus próprios fins. A luta vista no seriado é a da humanidade, diversa e vibrante, contra a desumanidade. Por isso mesmo, é uma pena que o aspecto “ficção-científica” de “Sense8” seja visivelmente menos interessante que os dramas dos personagens. Os roteiristas gastam um bom tempo nos primeiros episódios nos acostumando com as vidas interiores dos oito heróis e com o seu complicado dom, mas a trama envolvendo “grupo de pessoas especiais sendo perseguidas” já virou um clichê.

Crítica: Sense8 - Primeira Temporada

Se a trama de ficção é simples – embora os Wachowskis e Straczynski a apresentem de forma desnecessariamente complicada – o que chama mais atenção são os personagens. De novo, alguns são prejudicados por clichês dramáticos: a moça que não quer casar ou o rapaz forçado a trabalhar para um bandido são tramas velhas típicas do cinema de gênero, e aqui não conseguem parecer novas. O elenco todo é uniformemente dedicado e simpático, mas obviamente alguns se sobressaem e são melhor desenvolvidos que outros. Silvestre e Clayton são os pontos altos: o primeiro faz o personagem mais simpático da temporada, e Clayton conquista o publico com seu carisma e a honestidade da sua performance.

“Sense8” se equilibra o tempo todo numa corda bamba: em alguns minutos o espectador se sente vendo uma obra de arte interessante e criativa, como na fantástica cena envolvendo os personagens cantando o sucesso radiofônico “What’s Going On?” no quarto episódio – a cena é um primor de montagem e os atores se entregam ao momento. Já em outros momentos, o espectador se sente vendo uma (quase) besteira: algumas cenas de ação são exageradas e certos momentos são realmente bobos, como a “bazuca” usada por um dos personagens numa cena, ou a fuga de alguns personagens no episódio final, que parece forçada. Mas, como em “A Viagem”, os pontos positivos parecem superar os negativos. “Sense8” celebra a diversidade – aliás, o faz já na sequência de abertura – e é fundamentada na tentativa humana de compreender seu semelhante. E os personagens são, na sua maioria, interessantes o bastante para nos fazer querer acompanhá-los. Não há muito rigor narrativo em “Sense8”, mas há muita humanidade. Resta a cada espectador se perguntar se isso é suficiente para querer assistir a série. Afinal, a empatia no mundo real não ocorre tão fácil quanto para os heróis desta série.

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