Uma nota pessoal: não tive a oportunidade de conferir todos os filmes da Seleção Oficial do Festival de Cannes deste ano, mas dentre os que consegui ver, “The Square” foi meu favorito. Claro que ninguém do júri me consultou na hora de dar a Palma de Ouro à nova produção de Ruben Östlund, mas vê-lo ganhando o grande prêmio da noite me deixou contente pela decisão em premiar um filme macabro, em sintonia com o teor geral da mostra e, acima de tudo, engraçado.

Veja bem: comédia costuma ser um gênero que padece quando o assunto é grandes prêmios, injustamente. Tirando como exemplo a própria Palma de Ouro, o último filme de ficção com elementos fortes de humor a ganhá-la foi “Underground”, de Emir Kusturica, em 1995.

Não que “The Square” seja um festival de risadas, claro: o humor aqui é decididamente negro, comedido e com pitadas sérias de drama, mas é impossível não se envolver com a insignificância de Christian, o curador de um museu cuja vida e problemas mínimos (de um furto de telefone a uma transa casual se tornando problemática) acompanhamos durante as duas horas e vinte de projeção.

Nesse tempo, Östlund nos captura em cenas absurdas e ridículas que são mantidas até o seu ponto máximo de tensão, com consequências interessantes. A cena em que uma artista de performance escala seu ato a ponto de romper por completo a civilidade do jantar chique ao qual servir como entretenimento é algo memorável, não só pela duração, mas pela intensidade de todos os envolvidos, em especial Terry Notary (que interpreta o artista em questão).

Em meio a enquadramentos milimetricamente coordenados e cortes certeiros,  Östlund levanta um dedo do meio para o mundo da arte, que é duramente criticado através da figura do seu protagonista e do museu no qual trabalha. Também é alvo a questão do politicamente correto, algo que o presidente do Júri deste ano, Pedro Almodóvar, trouxe à tona na hora de justificar o prêmio dado ao longa.

Neste universo de pessoas ricas, estudadas e chiques, todos estão dispostos a se submeterem a abusos, humilhações e desonestidades, tão somente para não indispor o status quo ao redor ou a sua própria ideia de adequação social. Claro, a selvageria está a centímetros de distância, como o diretor faz questão de colocar, de forma surrealista, na forma de um macaco em cena.

Isso se relaciona com a crítica, também presente em “Okja”, de Bong Joon-Ho (de maneira que podemos ver um descontentamento geral da classe artística com isso), à maquina de notícias e relações públicas que media muito da experiência contemporânea. Boa parte da real ação do filme (não há muita, de fato) se dá em eventos, aberturas, coletivas de imprensa e no escritório de uma firma de RP e essas cenas trazem um senso de desconexão da realidade que mostram o quanto a preocupação com o que queremos dizer nos tolhem da possibilidade de dizer alguma coisa.

No final das contas, “The Square” pode não ter a pegada social que tornaria a Palma de Ouro deste ano mais política – isso teria acontecido se “120 Battements per Minute”, de Robin Campillo, obviamente preferido por Almodóvar, tivesse ganhado – porém sua visão pungente da apatia dos dias de hoje afirma a sua relevância e sua análise de um personagem vazio encontra eco nos outros que vimos na Croisette este ano.

De maneira geral, 2017 foi um ano em que diretores não viram muita esperança no ser humano, mas o protagonista de “The Square” provavelmente diria que isso não é um problema se puder gerar likes (eu sei que seu dedo de marcar coçou agora). Inclusive, você pode dar seu like agora.