Para um cineasta que curte subverter convenções de gênero, é estranho que a coisa mais subversiva no novo filme de Bong Joon-ho seja o logo da Netflix no início, recebido com vaias e aplausos na sua estreia no Festival de Cannes deste ano.

O projeto, “Okja”, é uma produção internacional que reúne um senhor elenco (Tilda Swinton, Jake Gylenhall, Paul Dano) para contar a história de uma menina que busca resgatar sua amiga, a porca que dá nome ao filme, das mãos de uma corporação que busca usá-la para seus fins maléficos.

Se o projeto parece ter uma pinta inegavelmente Disney, bom, é porque ele tem mesmo, ao menos, na superfície: várias cenas, ainda que não gráficas, passam muito longe do material censura livre em cima do qual Casa do Mickey fez fama, porém o maniqueísmo das suas fábulas permanece na nova obra do diretor sul-coreano que, antes de migrar para o mercado internacional, era conhecido por contos de moral dúbia.

O que “Okja” não oferece em riqueza em termos narrativos, ele oferece em temáticos: livre da obrigação de fazer das suas críticas o centro de sua atenção (esse posto cabe à menina e sua porca), o cineasta preenche o longa com diversas críticas à figuras da sociedade moderna.

As mais óbvias delas são as personalidades televisivas e ao discurso humanitário e limpo de grandes corporações, que encontram nos personagens de Gylenhall e Swinton, respectivamente, seus grandes alvos. O ator interpreta um decadente astro de reality show na veia do Animal Planet que vira garoto-propaganda de um projeto que usa animais de maneira no mínimo escusa. Já a atriz brilha no papel de uma CEO que busca mudar a imagem de sua companhia enquanto, nos bastidores, não passa de uma mulher infantil.

Também sobram críticas para toda a máquina de imprensa e relações públicas que moldam as narrativas da atualidade (basicamente, toda a trama do filme se dá por conta de uma ação de imagem) e para terroristas com causas, personalizados em Jay, ativista interpretado por Paul Dano, que carregam em si o dilema moral de fazerem coisas horríveis em prol de fins que eles julgam digno.

Ainda mais abrangente, o filme carrega um discurso em prol do vegetarianismo, usando de uma criatura fictícia para falar da crueldade contra os animais na produção de alimentos, bem como alertar sobre os perigos da intervenção do homem na ordem natural (algo que Joon-ho já tinha abordado em “O Hospedeiro”).

A despeito dos temas sérios, o timing cômico de todas as interpretações é grande parte do charme do filme, ainda que Gyllenhall canse com seus trejeitos exagerados no terceiro ato e que o personagem de Esposito seja terrivelmente mal aproveitado. De maneira geral, o clima de Sessão da Tarde é tal que, em certos momentos da projeção, consegui imaginar o filme dublado em português, como é feito na TV aberta brasileira.

No final das contas, a falha do filme é justamente não trazer nada de novo para a mesa, ainda que seu resultado divirta. A história principal não deve encantar espectadores mais velhos por ser muito batida e o filme não é exatamente para crianças, de maneira que podemos perceber uma confusão quanto a público-alvo,  mas talvez a Netflix, com suas estatísticas não-divulgadas, saiba do assunto melhor do que eu.

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