Em tempos onde expressões como “amor livre” e “poliamor” são acentuadamente decorrentes, o limite entre amizade e relacionamentos amorosos se torna um prato cheio para a imaginação de produtores audiovisuais. Utilizando esta perspectiva em seu argumento desde o princípio, ‘Alguma Coisa Assim’ consegue alçar outros debates ao apresentar Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes), um casal de amigos que, ao seguir suas respectivas trajetórias, continuam na descoberta de sentimentos sobre a relação que possuem.

O projeto dirigido por Esmir Filho e Mariana Bastos começou há 12 anos com o curta homônimo apresentando os dois personagens como adolescentes. Desde então, o contexto do filme mudou: a continuação prevista em 2013 se tornou uma parada no desenvolvimento da trama, com sua culminação final nas últimas gravações em 2016. A produção demorada e acompanhamento compassado dos personagens trouxeram a alusão para o filme de “Boyhood brasileiro”, atribuindo grandes expectativas para o longa.

No filme, Caio e Mari continuam contando sua história em Berlim, na Alemanha, vivendo as influências de seus cenários e linguagens. Ao participar de uma pesquisa científica, Caio volta para a vida da amiga, trazendo lembranças desconfortáveis. Entretanto, a reaproximação entre os dois vai além de dilemas do passado, criando situações impossíveis de serem ignoradas pelos dois.

Logo no princípio da trama, é notória a importância de Esmir Filho e Mariana Bastos na direção desta continuação. Além de preservar a essência dos personagens, o roteiro e ritmo da trama também se mantém a medida que a história relembra características do casal. Para isto, os flashbacks são uma parte substancial na criação da narrativa. Diferente da sua função usual em filmes, aqui, o recurso não é inserido apenas para justificar alguma situação, mas, também para acompanhar a trajetória de Caio e Mari.

Esta coesão no decorrer dos anos não ocorre apenas com roteiro, mas, também presente nos aspectos visuais. As cores vibrantes que marcam o início da trama seguem como elemento constante quando Caio e Mari estão juntos. Se por um lado, a vivacidade desses momentos é trazida à tona pelas fortes cores, por outro ângulo, os sons altos, com batidas rápidas, marcam a falta de entendimento entre o casal, apresentando momentos em que a falta de diálogo é decisiva na dinâmica entre os dois.

Aproveitando bem esses extremos, a fotografia avança em relação ao curta de 2006, se tornando um dos principais atrativos. Quando a cena apresenta essa dificuldade de entendimento, a câmera acompanha os personagens com certo desconforto e confusão. Mesmo nestes momentos, ângulos contemplativos podem ser observados, porém, o efeito visual dessa câmera parada é apreciado mais facilmente quando Caio e Mari apresentam novas descobertas individuais ou avançam na relação entre si, criando cenas memoráveis.

No desenvolvimento da trama também chega ao ponto em que a principal característica do filme se torna uma deficiência. Mesmo aprofundando muito bem a história dos amigos e cumprindo seu papel, o filme acaba se limitando, a ausência de outros personagens é notada, principalmente, em divergência com figuras que surgem apenas para incitar conflitos, sem apresentar uma importância efetiva na construção pessoal dos dois, salvo a rápida aparição do ex-marido de Caio.

A sexualidade, inclusive, também é retratada de forma coerente no filme. Os diretores ao optarem por não colocar a identidade de gênero em debate explícito, não limitam seus personagens a uma definição, deixando as relações amorosas tão confusas para o público quanto parecem para os próprios personagens. Apesar da confusão, a briga final entre Caio e Mari e os sinais apresentados no decorrer da história definem bem os sentimentos de ambos.

A cena de briga, apesar de ser um dos grandes momentos do filme, não guarda todo clímax da história para si. Esse terreno é preparado bem antes do final, porém, é apenas neste momento que a câmera se torna um espectador que definitivamente não gostaria de estar capturando o momento, gravando a discussão desconfortável que, graças ao esforço de André Antunes e principalmente de Caroline Abras, soa o mais natural possível, de forma orgânica.

No geral, ‘Alguma Coisa Assim’ apresenta um bom encerramento da história entre Caio e Mari. Os limites entre sentimentos dos dois e a relação de companheirismo é facilmente relacionável e se torna um argumento tão forte hoje quanto era na época da primeira produção. Além do ótimo momento para discussão, também é uma oportunidade muito bem aproveitada pelos diretores. Na escolha por trazer Caroline Leone para a montagem do longa, a história  não fica restrita a apresentar uma continuação ou os resquícios da trama iniciada em 2006, como também traz uma narrativa completa e coerente com sua proposta.

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