Já com mais de quinze filmes na bagagem, o que mais impressiona na filmografia de Joel e Ethan Coen é a facilidade com que os irmãos conseguem passear por diferentes gêneros cinematográficos, indo desde a comédia até o drama mais pesado. É assim que, depois de ter se debruçado em histórias essencialmente pessimistas em seus últimos filmes – Um Homem Sério (2009), Bravura Indômita (2010) e Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum (2013) –, a dupla retorna agora ao mundo das comédias com Ave, César! e seus leves toques de nonsense e humor negro, nos moldes de êxitos anteriores dos diretores, como Queime Depois de Ler (2008) e O Grande Lebowski (1998).

Em Ave, César, os irmãos Coen propõem um passeio pela Hollywood dos anos 1950, na Era de Ouro dos estúdios, acompanhando pouco mais de um dia na vida de Eddie Mannix (Josh Brolin), um chefe de produção da Capitol Pictures, e um resolvedor de problemas em geral. Embora baseado em um personagem que realmente existiu (o Eddie Mannix da vida real trabalhava para a MGM e se envolveu numa polêmica com o ator George Reeves), aqui, o Mannix da ficção é casado, tem dois filhos, se confessa constantemente na igreja, ao passo que tenta largar o cigarro, e flerta com uma oferta de emprego mais “séria” de uma companhia aeroespacial.

Enquanto isso, Mannix tem que lidar com todo tipo de confusão que os astros de seu estúdio causam: a gravidez da atriz solteira DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), as colunistas de fofoca gêmeas e rivais em busca de um furo, vividas por Tilda Swinton, e a desastrosa ascensão forçada do ator de faroeste Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) a protagonista de um romance mais sério. Entre inúmeros problemas, o principal deles, porém, é o desaparecimento de Baird Whitlock (George Clooney), o principal ator de um épico bíblico em produção e que é sequestrado durante as filmagens.

Tantas tramas paralelas acabam desviando a atenção do que deveria ser o foco da história, o que se revela o maior problema do longa, inchado com personagens e histórias desnecessárias, e com um ritmo descompassado que deixa os irmãos Coen tendo que correr atrás do prejuízo no terceiro ato anticlimático. Ainda que alguns momentos se revelem inspirados – como o número musical protagonizado por Channing Tatum com um subtexto homoerótico ou a divertida ponta de Frances McDormand –, eles acabam não fazendo muita diferença para o desenrolar do sequestro de Whitlock, que termina ainda com a revelação de um “grande vilão” sem impacto, já que o vimos apenas uma vez antes disso.

Mesmo com esses problemas de ritmo, Joel e Ethan Coen fazem de Ave, César! um misto de homenagem e sátira à indústria cinematográfica, com referências que devem encher os olhos de cinéfilos nostálgicos dos dias de glória dos grandes estúdios antes da derrocada. Ao mesmo tempo, a dupla mostra como essa nostalgia às vezes é tão infundada quando se embarca no velho lema de “naqueles tempos o cinema era melhor”: ao embarcarmos no universo da Capitol Pictures, vemos momentos que brevemente iludem até os próprios funcionários do estúdio pela magia do cinema, mas que são nada menos do que produtos muitas vezes genéricos feitos em escala industrial – não à toa Mannix se reúne com representantes de diferentes religiões para discutir se a repercussão do filme em produção será positiva. Nos aspectos técnicos, tudo colabora para essa viagem ao passado ser ainda mais eficiente, desde a fotografia do recorrente colaborador Roger Deakins à excelente direção de arte comandada por Jess Gonchor e Cara Brower.

Embora seja claramente um filme menor dos irmãos Coen, Ave, César! se revela uma divertida crônica de costumes do cinema norte-americano, especialmente quando investe nos seus temas secundários, que vão desde o nonsense da paranoia comunista ao constante elemento da religião. Nem sempre as piadas funcionam, mas, quando funcionam, nos lembram porque os Coen estão no rol dos principais diretores contemporâneos.