É difícil fazer a crítica de um filme que você gosta muito. Parece que os elogios nunca são suficientes, que por melhores que sejam, as frases nunca são bem construídas o bastante para explicar como aquele trabalho acertou nas suas sutilezas, e como ele é brilhante não apenas nos quesitos relacionados à técnica, mas também como nos toca fundo no coração. E os filmes dos Irmãos Coen enquadram-se perfeitamente nessa situação.

Inside Llewyn: Balada de Um Homem Comum é mais um acerto fenomenal na carreira dos diretores, mais um daqueles trabalhos de marcante assinatura, que demonstram que os Coen já podem, sem nenhum tipo de constrangimento, ser apontados como gênios do cinema, ao lado dos maiores nomes da arte, tamanha é a sua desenvoltura como contadores de história.

Livremente inspirado na vida do músico Dave Van Ronk, o longa conta a história de Llewyn Davis (Oscar Isaac), um músico folk que vive em Nova Iorque nos anos 60, berço de Bob Dylan e Joni Mitchell. Com a companhia dos amigos Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake), Davis se apresenta regularmente em um bar para poucas pessoas, vive sempre com pouco dinheiro, mas não parece muito preocupado em dar um rumo a sua vida, se contenta em dormir no sofá de conhecidos, ao mesmo tempo que não abre mão de manter o seu estilo musical ao invés de buscar um caminho mais comercial, e com maiores chances de ser contratado por uma gravadora. Seu primeiro disco solo não rendeu nenhum resultado, e ele vai em busca de algo que possa mudar a sua situação, mesmo que o seu pensamento e atitudes permaneçam inalterados.

Neste texto comentarei acontecimentos importantes da trama, portanto recomendo que apenas as pessoas que já assistiram ao filme prossigam.

Um olhar desatento pode dizer que este é um filme parado demais, em que pouca coisa acontece. Não deixa de ser verdade, mas é um fato obviamente proposital inserido pelos Coen para demonstrar como a vida de Llewyn não sai do lugar, mesmo quando o músico decide tomar alguma atitude. Nesse sentido se torna brilhante a ilusão criada pelos diretores ao vermos a primeira cena, e acharmos que a sua jornada tem início ali, e a partir daquele acontecimento ele toma uma série de atitudes que culminam na sua ida a Chicago. Depois descobrimos que aquilo é na verdade o final, que não houve nenhum tipo de “aprendizado” oriundo das experiências que viveu, tudo aquilo aconteceu e… é isso, não há nada além, não há mensagem, nem redenção, pois aquela pessoa não consegue se encaixar em nenhum padrão dos “bem-sucedidos”.

Há de se destacar a coragem dos Coen ao criar um personagem tão cheio de defeitos, de manias desagradáveis, e de uma certa empáfia misturada com tédio, que faz com que reconheçamos imediatamente um músico talentoso – o que faz com que nos importemos por ele, pois sabemos que ele tem potencial, e inconscientemente dizemos a nós mesmos que se ele conseguir o seu objetivo, ele com certeza vai mudar de comportamento – mas não omite o fato de que muito da culpa de Davis não sair do lugar é dele mesmo.

A assinatura dos diretores permanece fortíssima, apesar de em diversos momentos termos a sensação de que eles mudaram um pouco neste trabalho, estabelecendo uma sobriedade, e uma forte rigidez narrativa, que contrastam de maneira gloriosa com as suas tiradas de um humor melancólico, que podem parecer pesadas em alguns momentos, mas ao mesmo tempo mostram mais uma vez a sofisticação dos diretores. Inside Llewyn Davis é um filme tão coeso, e com tanto domínio da história que se quer contar, que arrisco dizer que os diretores aqui repetiram o feito do seu maior trabalho, Onde Os Fracos Não Tem Vez (2008), no quesito direção. Sua condução é magistral, conciliando de maneira mágica a dura e melancólica vida de Davis com situações de um humor certeiro, como a situação com o gato, a relação de Llewyn com Jean, todas as cenas envolvendo o personagem de John Goodman (falo mais disso daqui a pouco), e o momento em que ele canta para o seu pai, e ele defeca, uma prova do desprendimento que os diretores tem em relação a qualquer tipo de falso moralismo, ou norma politicamente correta. Sua maturidade alcança um novo patamar.

Se não bastasse, o roteiro (também da dupla, claro) também é fora de série, estabelecendo uma inteligente estrutura para que sempre achemos que Davis conseguirá sair do lugar, para depois vermos que isso não vai acontecer. O ápice disso acontece na cansativa e difícil viagem à Chicago, quando o cantor finalmente conhece Bud Grossman (F. Murray Abraham, ótimo), para ser descartado de maneira fria e distante, num diálogo excepcional, em que Grossman fala para Llewyn reatar a parceria com o seu antigo parceiro, e ele apenas responde dizendo que é uma boa ideia. Essa viagem à Chicago, culminando no encontro entre os dois, configura-se como uma das melhores sequências da carreira dos diretores, por representar de maneira sucinta a vida de um personagem, sem a necessidade de grandes explicações.

É evidente que tem que ser destacada a trilha sonora do filme, daquelas que dá vontade de ir atrás depois para ouvir as músicas separadamente. Os números musicais são belíssimos, e as canções escolhidas carregam um peso narrativo fantástico, contando a história de cada um daqueles personagens, indo da mais melancólica “Hang Me, Oh Hang Me”, que abre o filme, até as mais baladas como “Please Mr. Kennedy” e “Five Hundred Miles”, que mostram o estilo mais popular, que é o de Jim e Jean. Além disso, a mais do que premiada direção de fotografia de Bruno Delbonnel utiliza-se de cores mais voltadas para o azul e o cinza, e assim cria um mosaico sem vida, sem cores fortes, que representa bem a falta de perspectiva de Davis, criando quase um filme preto e branco. Curiosamente, um elemento que insere cor nas imagens é o gato, que pode até ser encarado como uma metáfora a Davis, por sempre viver fugindo, não parecendo pertencer a lugar nenhum, não criando vínculo por onde passa.

Fundamental para o sucesso do filme, Oscar Isaac tem a desenvoltura de um astro experiente ao preencher com vida a figura de Llewyn Davis, num trabalho de encher os olhos e os ouvidos. Sua antipatia é construída de maneira meticulosa, faz com que entendamos as suas atitudes, mesmo que não concordemos com elas, e há tanta verdade ali que fica impossível enxergar a imagem do intérprete por trás do personagem. É simplesmente inacreditável ele ter sido ignorado pelo Oscar de 2014. Outro que também está sensacional é John Goodman, criando uma figura que pode ser colocada como a representação do humor negro dos diretores, com falas impagáveis, e um tempo de comédia digno dos grandes nomes, sendo auxiliado de maneira econômica, mas certeira, por Garrett Hedlund, que se complementam brilhantemente.

Inside Llewyn Davis pode ser considerado um filme sobre o fracasso, sobre não ser bom o bastante, sobre a falta de oportunidade que o mundo das artes proporciona, mas acima de tudo representa um marco de domínio de linguagem cinematográfica dos geniais Ethan e Joel Coen.