Quando analisamos o histórico do Oscar, uma coisa fica logo clara: é muito difícil defender a maioria das escolhas da Academia. Sempre digo a alunos, leitores e interessados, e não custa repetir: Oscar não significa qualidade. Vejam a festa, se divirtam e torçam, mas não esqueçam: vários fatores influenciam na vitória de determinado indicado, não é só o mérito artístico. Vários vencedores acabam caindo no esquecimento. E muitos dos que deixam de ganhar se tornam clássicos do cinema. O verdadeiro juiz de qualidade de uma obra cinematográfica (ora, artística no geral) é o tempo. O tempo é que determina a grandeza de um filme, se ele vai ser ou não lembrado, se vai ou não continuar encantando diferentes gerações.

Dito isso, preferi, para esta edição do Advogado de Defesa, fugir do óbvio e defender a Academia – claro, na medida do possível – com uma listinha de alguns vencedores de Melhor Filme que considero subestimados ou que adquiriram, na minha visão, uma má reputação injusta. O Oscar não torna nenhum filme um clássico instantâneo, mas não deveria despertar ódio e antipatia instantâneos também. Bem, quase nunca… Às vezes, a Academia não premiou “o melhor” – seja lá o que o termo “melhor” signifique dentro de um contexto artístico. Mas isso não significa que tenha necessariamente jogado o Oscar fora.

Como nos casos de…

Gente como a Gente (1980)

O drama familiar dirigido por Robert Redford é frequentemente apontado como um erro da Academia, que o preferiu como Melhor Filme à obra-prima de Martin Scorsese, Touro Indomável – Redford também levou Melhor Diretor sobre Scorsese. E ainda tinha O Homem Elefante, o inesquecível drama de David Lynch, por ali, correndo por fora. É verdade, Gente como a Gente não é nem de longe tão impressionante quanto essas duas obras. Mas é um drama muito sólido, muito bem conduzido e muito bem defendido pelos atores: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore e Timothy Hutton. Por mais que a família da história não seja assim tão “comum” – são classe média-alta dos EUA, afinal – o dilema deles trabalha o luto dentro da narrativa com uma honestidade nem sempre vista no cinemão. E ao contrário de outros Oscarizados que se entregam à pieguice, Gente como a Gente é bem sóbrio e quieto, sem apelação e trata as emoções do espectador com respeito. Não é uma obra-prima, mas é um filme muito bom e merecedor de respeito. Afinal, teve anos em que a Academia não premiou nem isso, hein?

Como Era Verde o Meu Vale (1941)

Este é o que algumas turbas enfurecidas lembram como o “filme que tirou o Oscar do Cidadão Kane!”. Em primeiro lugar, calma aí… Kane só virou clássico com o tempo. Era um filme tão à frente da sua época que foram necessários alguns anos para que fosse assimilado pela crítica, pelo público e por outros cineastas. É o preço que obras pioneiras às vezes pagam. E em segundo lugar… É de um filme do John Ford que estamos falando aqui, não de um zé-ninguém. Em Como Era Verde o Meu Vale, Ford conta a história de uma família numa cidade mineradora no País de Gales com tintas ligeiramente autobiográficas, e cria um filme repleto de belos momentos que acabam resultando num todo muito especial. Poucos diretores tiveram a chance de refilmar uma pequena porção de suas vidas, e Ford faz isso de maneira exemplar aqui. Esqueça o careca dourado e respeite mais este belo trabalho de um mestre do cinema.

Marty (1956)

A Academia muitas vezes deu preferência aos pequenos dramas em relação aos grandes espetáculos. É compreensível, mas também um pouco injusto – na história do Oscar, alguns espetáculos mereceram ganhar. Mas esse é um eterno debate… Enfim, um dos mais modestos, e talvez por isso, mais subestimados vencedores do Oscar, é Marty. Este longa, ao mesmo tempo divertido e triste, é estrelado por Ernest Borgnine como um açougueiro solitário em busca do amor, que se envolve com uma mulher tão sozinha quanto ele. Conduzido pelo roteiro sensível de Paddy Chayefsky, é um filme que ainda fala ao espectador de hoje, ao abordar as aparências e as pressões que mulheres e homens sofrem para se encaixar nos padrões de beleza da sociedade. 1956 não foi um ano de indicados tão expressivos ao Oscar, mas a estatueta de Marty está em boas mãos.

Spotlight: Segredos Revelados (2015)

Sim, existe gente que odeia Spotlight apenas porque venceu num ano bem concorrido, com vários ótimos filmes. Meu favorito era Mad Max: Estrada da Fúria, mas nunca, jamais, a Academia entregaria o maior prêmio da noite para um filme como aquele. Então, fico feliz que a estatueta foi, pelo menos, para o segundo melhor dentre os indicados – de novo, é melhor premiar um filme consistentemente bom do que uma nulidade. Spotlight é um filme bastante consciente do seu tema e da própria importância, mas nunca deixa de ser cinema. É sóbrio, sem frescuras, envolvente, dramático e estrelado por um elenco impecável. É só comparar com Green Book, outro filme que se orgulha de tratar de um tema relevante, para ver como Spotlight está realmente num nível bem acima.

Asas (1927)

O filme do diretor William Wellman hoje é mais lembrado como o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme, mas ele possui qualidades que vão além dessa mera curiosidade. Em plena era muda, Wellman conseguiu filmar cenas de guerra ainda impressionantes – as batalhas aéreas, sem dúvida, foram vistas por Christopher Nolan antes de filmar Dunkirk. Também foi um filme ousado, por mostrar nudez e até um breve beijo entre pessoas do mesmo sexo, coisas que viriam a ser banidas das produções de Hollywood com a entrada do Código Hays, alguns anos depois. Trata-se de um belo exercício de cinema da infância de Hollywood, e uma história que ainda empolga.

Golpe de Mestre (1973)

Numa era do cinema hollywoodiano em que os filmes estavam mais sombrios e críticos da realidade norte-americana, a vitória de Golpe de Mestre no Oscar é ocasionalmente vista como um retrocesso. Mas… cinema é diversão também, não é? E poucos filmes são tão divertidos quanto esta deliciosa farsa dirigida por George Roy Hill e protagonizada pelos vigaristas Paul Newman e Robert Redford. Golpe de Mestre mereceu o Oscar? Não sei, particularmente acho O Exorcista mais filme, e obviamente foi e continua sendo mais impactante. Mas, com certeza, o Oscar ficou mais legal por premiar este biscoito fino. A Academia devia ter reconhecido mais filmes assim ao longo de sua história.

Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940)

Bem, se você for elaborar um top 10 do Alfred Hitchcock, Rebecca provavelmente não entrará. O que é curioso, porque foi o mais perto que o Mestre do Suspense chegou da estatueta dourada – o longa produzido pelo lendário David O. Selznick ganhou como Melhor Filme, mas Hitch não levou o Oscar de Melhor Diretor. Ainda assim, é um melodrama extremamente bem contado, sobre uma figura fantasmagórica, a Rebecca do título, que parece mais real que os personagens vivos que acompanhamos na trama. Grandes atuações de Joan Fontaine, Laurence Olivier e, sobretudo, de Judith Anderson; uma cinematografia e uma direção de arte brilhantes, e a mão do diretor fazem de Rebecca um filme que não merece, de jeito nenhum, ser chamado de “um Hitchcock menor”. O Grande Ditador de Charles Chaplin, seu concorrente naquele ano no Oscar, envelheceu melhor e está mais presente hoje na consciência popular, mas o fantasma de Rebecca ainda tem força.

Bem, é isso. Só não me peçam para defender Crash ou Conduzindo Miss Daisy ou Uma Mente Brilhante ou O Discurso do Rei, porque aí não vai rolar…

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