Pouco depois do fim dos créditos iniciais, a escuridão predomina na tela até o surgimento de uma luz azul. Primeiro minúscula para depois tomar conta de tudo. Não há trilha. Imagens aparecem sem uma definição clara do que seja. Aparece um olho. Letreiro inicial. Próximo dos 10 minutos iniciais surgem o primeiro diálogo, já com trechos regidos por uma trilha de violinos em acordes finos. O toque futurista de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” com a tensão de filme de terror combinada à beleza de Scarlett Johansson causam impacto. O espectador mais atento, entretanto, percebe ao longo de “Sob a Pele” que faz parte de um jogo de ilusão: o visual serve para a distração, já que a história não mais é do que banal.

Não sabemos exatamente quem é ou de onde veio Laura (Scarlett Johansson). A única certeza é não se tratar de um ser da raça humana. Isso fica claro ao vê-la levar um homem ao desaparecimento, fazendo-o sumir em uma espécie de abismo. Essa parece ser a missão da moça na Terra até uma futura vítima fazer com que reflita sobre seus atos.

A premissa de “Sob a Pele” poderia render uma obra psicológica ou filosófica em que um ser externo analisa a nossa raça com as virtudes e desgraças características da espécie. O diretor Jonathan Glazer, infelizmente, pouco acerta nas analogias usadas na história. Na melhor delas, aborda a crise da comunicação interpessoal, regida por gritos e histeria tanto de homens e mulheres em uma balada. Trata-se de um momento raro do roteiro adaptado do romance de Michel Frabrer.

No geral, o que se vê são simbolismos pobres como criticar o consumismo dentro de um shopping ou Laura tropeçar para mostrar como nossa raça é capaz da solidariedade. Para piorar, a escolha de Aaron Pearson, ator com uma rara doença na pele (neurofibromatose) que provoca deformidades no rosto, para mostrar a fragilidade da humanidade e mudar a forma da protagonista nos encarar soa como um artifício de mau gosto e apelativo.

Apesar de ter as tão faladas cenas de nudez frontal de Scarlett Johansson, o que realmente incomoda em “Sob a Pele” reside no conservadorismo relativo ao sexo. Para atrair os homens a uma casa abandonada, Laura insinua oferecer uma noite de desejos sexuais para fisgar suas vítimas. A condenação daqueles sujeitos se dá pela aparente promiscuidade em aceitar manter uma relação com uma mulher que nem conheciam. Para dar uma certa aprovação a isso, os atores escalados criam tipos próximos aos asquerosos, pelo menos, na composição visual, já que quase não há tempo para o desenvolvimento dos personagens. A medida indica certa vontade de Glazer em justificar o destino deles.

A protagonista, entretanto, não chega a cogitar o mesmo mal para o sujeito que a abriga e disposto ao sexo com mais afeto. O papai-mamãe quase consumado dentro de casa traz a síntese de uma visão de mundo em que o prazer deve vir do amor e não apenas pelo tesão. Pode, claro, ser plausível a decisão do diretor como um apelo por mais afeto em nossa sociedade. Por outro lado, soa como eclesiástico demais em ver o prazer pelo prazer como algo maligno.

Como a história não ajuda muito e os diálogos são esporádicos, Glazer resolve jogar todas as fichas para composição visual. Desde a opção por um fotografia escura realçando uma Escócia fria em todos os sentidos aos efeitos especiais para a criação daquele mundo estranho ao nosso no oceano preto até as câmeras posicionadas como se estivessem escondidas dentro do misterioso trailer, o filme traz um universo para causar o estranhamento no público. A equipe de som realça ainda mais esse ambiente ao acrescentar ruídos e abrir espaço para a força do vento e ondas. Esse cenário todo beneficia Scarlett Johansson ao compor uma personagem impossível de ser definida em suas ações, pois, o conflito dela está dentro da mente ou, como o próprio título entrega, sob a pele.

Mesmo criando atmosferas como poucos cineastas da atualidade, Jonathan Glazer perde seus filmes no roteiro. Havia sido assim no suspense sobrenatural em “Reencarnação” e volta à tona com “Sob a Pele”. O diretor parece refém de uma era em que vale mais uma imagem ou um plano mais elaborado do que contar bem a história. Cria-se a ilusão de algo profundo, mas, o que realmente fica, é o vazio.

NOTA:6,0

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