A história da arte é feita de grandes datas, momentos significativos, que ajudam a explicar e situar no tempo obras ilustres, as quais, por sua vez, moldaram o mundo como o conhecemos. 1993, por exemplo. Na história do cinema, esses números se traduzem num nome: Steven Spielberg.

1993 foi o ano em que o diretor americano, já considerado um dos maiores do ramo, nos deixou estatelados com o lançamento de dois clássicos instantâneos – A Lista de Schindler, com suas imagens definitivas do horror nazista, e Jurassic Park: Parque dos Dinossauros, cujo título, bem, fala por si.

Ambos não podiam ser mais diferentes: se Schindler era sério, solene, pesaroso, Jurassic Park revivia a aventura épica, de imagens impactantes, que fez a glória de nomes como John Ford (No Tempo das Diligências), Akira Kurosawa (Os Sete Samurais) e Howard Hawks (Terra dos Farós). Ao mesmo tempo, dava uma nova e aterrorizante cara aos filmes de monstros, um gênero quase tão antigo quanto o próprio cinema, e que teve uma fase áurea na década de 1950, período caro na formação do diretor.

Acrescente a maturidade técnica de Spielberg, mais o texto premonitório do autor Michael Crichton, que explorava, anos antes da ovelha Dolly, o medo ante as possibilidades da manipulação genética, e temos um dos grandes filmes do cinema americano em todos os tempos, emblema máximo do que pode ser um filme de aventura, movimentado, impactante, mas também inteligente, e verdadeiramente provocativo.

A trama é uma das mais conhecidas da Sétima Arte, tendo sido “adaptada”, ou copiada na cara dura, em dezenas de outros filmes menores. Mas, como certamente ainda tem gente à espera de ver a obra pela primeira vez (que inveja!), lá vai: dois paleontólogos, Alan Grant e Ellie Sattler (Sam Neill, estupendo, e a sempre ótima Laura Dern) são convidados a avalizar um novo empreendimento do multimilionário John Hammond (o também diretor Richard Attenborough): um parque de diversões numa ilha caribenha, destinado a ser a nova referência do ramo. Até aí, nada demais, exceto que as atrações do parque, longe dos habituais carrosséis e montanhas-russas, são dinossauros. Extintos há dezenas de milhões de anos, os bichos são recriados através da combinação do pouco material genético existente (preservado em fragmentos de âmbar) com genes de espécies atuais, como sapos. Hammond, porém, não se contenta em ter apenas alguns pacíficos exemplares herbívoros, e resolve ressuscitar também tipos sanguinários, como o antológico Tyrannosaurus Rex, fazendo as coisas saírem do controle.

Além de Neill, Dern e Attenborough, o elenco traz ainda o subestimado Jeff Goldblum (A Mosca, O Grande Hotel Budapeste), Samuel L. Jackson (Django Livre, Os Vingadores) e as crianças Ariana Richards e Joseph Mazzello. Mas o casting, por melhor que seja, não é páreo para os répteis gigantes, ou para o extraordinário senso de suspense do diretor, só superado, talvez, por Alfred Hitchcock. Como esquecer sequências de gelar a espinha, como a primeira aparição do tiranossauro, um daqueles momentos irrepetíveis no cinema? (aquele som profundo, ou a imagem da água vibrando, não vieram à sua mente agora mesmo?) Ou a angustiante perseguição dos velociraptors às crianças, na cozinha? Ou, ainda, a multidão de dinossauros em fuga, correndo em campo aberto?

Certamente, são momentos como esses que gravaram o filme na psique de pelo menos três gerações de espectadores. No encalço da obra-prima de Spielberg, a computação gráfica, apresentada ao mundo com um novo grau de sofisticação, deu um salto, permitindo à indústria criar mais e melhores monstros, a ponto de os modelos mecânicos empregados pelo diretor no filme nos parecerem hoje quase primitivos. Curiosamente, porém, quanto maiores os meios, menos o cinema foi capaz de igualar os sobressaltos causados pelas feras de John Hammond.

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Podemos enxergar tentativas de igualar (ou imitar descaradamente) Jurassic Park em sucessos da época, como o péssimo Congo (1995) e o divertido Godzilla (1998) de Roland Emmerich. O próprio Spielberg, com o decepcionante O Mundo Perdido (1997), sequência direta de Jurassic Park, falhou em reavivar sua terrível musa, assim como outra sequência, Jurassic Park 3, lançada em 2001, que completou uma “trilogia” bem chinfrim.

Mais adiante, os filmes de monstros começam a ganhar nova força, com a fauna fantástica e o renovado sentido épico da trilogia O Senhor dos Anéis (2001-03), do diretor que mais se aproximou de Spielberg nesse período, o neozelandês Peter Jackson, mas também com o revival dos “épicos” toscos, outro gênero antigo da Sétima Arte, em filmes como 10.000 a.C. (2008) ou Fúria de Titãs (2010). Também temos obras que buscaram reprisar os momentos de suspense do clássico, optando por focar mais nas tentativas de sobrevivência dos personagens do que na destruição explícita, como o bom Cloverfield: Monstro (2008) e o (re)repaginado Godzilla (2014) de Gareth Edwards. Uma terceira via tenta combinar o esplendor das criaturas em CGI e cenas de explosões com uma crítica dos limites da ciência, com seu melhor exemplar na nova saga Planeta dos Macacos, que desde 2011 já rendeu dois filmes.

Mas a obra que melhor fez jus à tentativa de combinar o “filme de monstros” tradicional com a experiência ao mesmo tempo épica e emotiva de Jurassic Park talvez seja Círculo de Fogo (2013), do diretor mexicano Guillermo Del Toro. Deixando de lado a ciência e se concentrando na experiência sensorial do espectador, Del Toro fez uma obra certamente menos intrigante, mas quase tão memorável quanto a jornada spielberguiana, e ampliando a escala épica, com seus robôs e kaijus gigantes tendo o oceano e cidades inteiras como campo de batalha. Só Del Toro (e Jackson, mas em filmes que não são, a rigor, “de monstros”, como a trilogia do Anel) compreendeu tão bem o sentido íntimo, que convoca o espectador a partilhar da aflição e medo dos personagens, que torna as imagens de Jurassic Park tão assustadoras.

Um novo Jurassic Park vem aí. Mas continua bem difícil imaginar um filme de monstro mais perfeito que o original.

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