Há uma cena em Círculo de Fogo no qual vemos um pai e sua filha andando na neve com um detector de metais, aparentemente à procura de algum “tesouro” enterrado debaixo do gelo. É aquele entusiasmo infantil, a capacidade de abraçar a fantasia e de acreditar na possibilidade de algo sob o chão, que o cineasta Guillermo Del Toro consegue evocar no espectador com seu filme. Em Circulo, o tesouro embaixo do gelo se materializa na forma de um gigantesco robô que interrompe a brincadeira.

Esse robô gigante é um dos jaegers, máquinas enormes e poderosas criadas para combater os kaijus, monstros igualmente gigantes que estão aterrorizando a Terra. Num futuro próximo, uma fenda interdimensional se abre no fundo do Oceano Pacífico, permitindo que periodicamente alguma criatura enorme de outra dimensão passe para o nosso mundo e comece a causar destruição. Apelidados de kaijus (monstros gigantes em japonês), esses seres provocam mudanças tremendas na sociedade e na economia da Terra. Para destruí-los, os governos do planeta se unem para financiar o projeto jeager (caçador em alemão), e assim a guerra contra os monstros tem início.

O protagonista do filme é Raleigh (Charlie Hunnam), que comandou por anos um dos mais vitoriosos jeagers junto com seu irmão – os robôs precisam de dois pilotos, conectados neurologicamente, para serem controlados. No entanto, o irmão de Raleigh morreu em combate, deixando-o traumatizado. Mesmo assim, o rapaz é recrutado pelo marechal Stacker Pentecost (Idris Elba) para uma investida audaciosa que pode eliminar definitivamente a ameaça dos kaijus. Para isso, Raleigh terá de aprender a se conectar com sua co-piloto, Mako (Rinko Kikuchi).

Percebe-se, por essa sinopse, que não há nada de realmente novo em Círculo de Fogo. De fato, a ideia sempre foi a de realizar uma versão melhor e mais bem produzida dos famosos filmes e seriados japoneses sobre monstros gigantes que destroem Tóquio, e os robôs que os combatiam. Guillermo Del Toro assistiu a muitos desses seriados e filmes quando era criança no México. Não se pode dizer que a história faz sentido do ponto de vista lógico, também (robôs lutadores?). No entanto, esse é um filme para quem aceita a fantasia, onde as coisas nem sempre funcionam na base da lógica. Del Toro consegue, graças ao seu talento de narrador, fazer com que o público volte a se empolgar com essas coisas, como fazia quando era criança.

O talento de narrador inclui a capacidade de contar a história direito. O roteiro de Del Toro e Travis Beacham é bem sucedido em indicar como a vida na Terra seria transformada com a ameaça constante desses seres, e gasta um bom tempo da projeção delimitando psicologicamente os seus personagens, que se tornam interessantes o suficiente para atraírem o publico. Assim, vemos a luta de Mako para superar seu medo, a determinação de Raleigh, e a força do marechal Pentecost, todos interpretados de forma soberba por seus atores – Elba, porém, se destaca e constrói a figura mais interessante e carismática do filme. Até os irmãos cientistas vividos por Charlie Day e Burn Gorman, que poderiam ficar limitados à função de alívio cômico, são bem caracterizados e servem a um propósito na trama. E Del Toro ainda traz de volta seu velho colaborador Ron Pearlman – o eterno Hellboy – para roubar todas as cenas em que aparece com seu hilário Hannibal Chau, traficante de partes de corpos dos kaiju.

Circulo de Fogo é também um espetáculo na parte técnica. O design geral da produção é estupendo, com os jeagers sendo caracterizados de acordo com suas nacionalidades e já se apresentando de forma realista, pesados e desgastados pelo uso. Outros ambientes também são absolutamente espetaculares: o laboratório escondido de Hannibal Chau, a dimensão praticamente lovecraftiana de onde vêm os monstros, e o gigantesco hangar que abriga os robôs (completado, obviamente, com o auxílio de computação gráfica). E a respeito da computação gráfica, vale dizer que Del Toro e sua equipe evitam a abordagem Transformers: as sequências de ação são, além de compreensíveis, também visualmente belas (a batalha em Hong Kong, iluminada em grande parte pelas luzes de neon da cidade, se transforma num excitante espetáculo visual). Os monstros são um show à parte: Del Toro, claramente apaixonado por eles, concebe criaturas cuspidoras de ácido, com caudas bifurcadas, duplas mandíbulas, e características que remetem a tubarões ou dinossauros.

Tudo isso para fazer o espectador esquecer o mundo real e adentrar sem reservas no universo de Guillermo Del Toro. Um lugar onde uma história sobre a guerra entre robôs e monstros abarca um interessante subtexto sobre a necessidade do ser humano de se conectar com outro – afinal, fica evidente no filme que a cooperação e o entendimento, tanto entre as nações quanto entre as pessoas, é essencial para vencer os problemas.

Há no filme outra cena, na qual uma garotinha observa a destruição da sua cidade, provocada por um dos monstros gigantes. Em vão, ela chama sua mãe enquanto a criatura chega cada vez mais perto. É outro momento-chave da experiência de Círculo de Fogo – por um momento, todos nós somos aquela criança, vendo com assombro algo que não deveria existir, mas aceitando esse fato impossível sem questionar. Esse é o verdadeiro efeito especial do longa. Círculo de Fogo é um raro blockbuster guiado por uma visão artística, a de um cineasta pertencente ao do seleto grupo de artistas do cinema capazes de levar o público de volta à infância.

 Nota: 9,0

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