A primeira vez que ouvi falar de O Doador de Memórias foi numa comparação com a saga Jogos Vorazes. Ouvi que ambos eram dramas adolescentes que se levavam a sério, exigindo mais do público, com momentos nem sempre agradáveis, que não se curvavam ao público menos exigente.

Depois de assistir a este recente filme, até posso concordar com certos pontos dessa comparação, pois Doador é louvável na maneira que se diferencia dos clichês dos filmes adolescentes “mais bobinhos”, e opta por contar uma história com menos fugas. Mas não chega nem perto do impacto da saga de Katniss e Peeta, que é muito mais contundente e amarga.

Mas apesar de não ter a mesma força, O Doador é um filme interessante, e tem no seu elenco a sua arma mais forte para conquistar o público.

O filme nos apresentar a um lugar, uma espécie de cidade, comunidade, em que todos vivem em condições de igualdade, em que individualidades não são permitidas para que o bem estar de todos não seja ameaçado, e todos vivam em harmonia, o que faz com que o lugar não tenha brigas, nem doenças, guerras, etc.. Este grupo é liderado pela Anciã-chefe (Meryl Streep), que todo ano realiza uma cerimônia para os jovens, que estão prestes a entrar na vida adulta, para definir o que cada um deles fará no futuro, visto que é um conselho quem determina o que cada jovem irá fazer dali em diante. Jonas (Brenton Thwaites) é escolhido para ser um recebedor de memórias, que irá receber as lembranças d’O Doador (Jeff Bridges), uma função que tem acesso a informações escondidas de toda a sociedade, que faz com que ele perceba que a realidade que vive é falsa, que todos são manipulados a terem seus sentimentos reprimidos, em busca da paz e de um suposto melhor estilo de vida.

O ponto de vista escolhido por Phillip Noyce é semelhante a filmes como A Ilha (2005), e o mais recente Oblivion (2013), em que pessoas de dentro de uma suposta harmonia numa espécie de mundo pós-apocalíptico começam a descobrir que a realidade que vivem não é verdadeira, que tudo aquilo é um universo criado por pessoas de fora, e que viveram uma mentira durante muito tempo, coisa e tal. Talvez por conta disso, a trama vai se desenrolando e nunca tem a capacidade de nos surpreender, ou envolver de maneira mais entusiasmada, pois mesmo que tudo o que esteja sendo desenvolvido seja coerente, nós já vimos antes, e é muito fácil saber pra onde tudo aquilo vai dar.

É claro que há de ressaltar, e louvar, a escolha de Noyce em não suavizar a sua trama, não caindo na armadilha de inserir romances fáceis, com diálogos doces e trilha sonora de violinos, inserindo de vez em quando momentos de aventuras radicais, nem em mudar a natureza de seus personagens, que soam sempre verdadeiros, mostrando assim que quer trazer ao público uma outra história, sem o apelo fácil tão apreciado por crepusculetes, marveletes, e afins.

Mas não há como não dizer que o filme se torna banal depois de certo tempo, fica previsível, quase desinteressante, o que faz com que a sua seriedade se confunda com cintura dura, com uma falta de elementos mais interessantes, e por isso prefere se manter numa zona mais segura, embalado pela pouco inspirada fotografia de Ross Emery, que mesmo que queira inserir os seus elementos narrativamente, o faz de maneira bastante previsível.

Ao mesmo tempo, quando Noyce quer enveredar por momentos de A Árvore da Vida (2011), ao ilustrar os momentos de “vida real”, acaba arranhando a superfície do que quer dizer, parecendo que escolheu imagens que beiram a aleatoriedade de tão gratuitas, esquecendo que fazer algo do tipo requer melhor preparação, requer lirismo, elementos que não são fáceis de serem conseguidos, e que aqui são colocados de maneira subestimada.

Mas engraçado, talvez nem saiba explicar de maneira lógica, mas de alguma forma o elenco consegue segurar o filme, o conduzindo com bastante dignidade, fazendo com que a experiência de assistir ao trabalho não se tornasse negativa.

O peso dos nomes de Jeff Bridges e Meryl Streep tem vida própria, agrega uma sofisticação automática ao trabalho, e mesmo que suas atuações não sejam tão inspiradas, elas possuem capacidade suficiente para conduzir bem o filme. Assim como faz a jovem e linda Odeya Rush, que com o seu carisma transforma Fiona em um personagem ambíguo, dividido entre o que sempre acreditou com o interesse numa suposta paixão.

O maior destaque fica com Brenton Thwaites, que surgiu de maneira apagadíssima este ano em Malévola (2014), mas aqui conduz a trama com naturalidade e segurança, fazendo com que nos importemos com as inseguranças de Jonas, dando toda a legitimidade necessária ao papel, que é mais difícil de ser interpretado do que possa parecer. Atuação contundente, de um jovem que vale a pena ficar de olho no futuro.

O bom final do filme foi emblemático, e fez com que eu ficasse ainda mais seguro da ideia de que O Doador de Memórias é um filme válido, digno de elogios, mas bem que ele poderia ter sido melhor do que foi.

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