De tempos em tempos, Robin Hood volta para salvar Nottingham, principalmente nos cinemas. O personagem mora no imaginário popular por seu famoso mantra: roubar dos ricos para dar aos pobres. Infelizmente, como em sua última versão estrelada por Russel Crowe e dirigida por Ridley Scott, o personagem arquétipo tem uma aventura aquém do potencial.

Robin Loxley (Taron Egerton) é um rapaz apaixonado e tem tudo que poderia querer: é rico e noivo da bela Marian (Eve Hewson). Entretanto, o rapaz teve que adiar seus planos de casamento ao ser convocado pelo impiedoso Xerife (Ben Mendelsohn) para viajar e servir a pátria nas Cruzadas. Ao retornar à terra natal, descobre que fora dado como morto, teve suas posses tomadas e a noiva está com um novo interesse amoroso (Jamie Dornan). Com a ajuda de John (Jamie Foxx), um antigo inimigo e com posse de um arco, Robin adota um codinome e resolve golpear o sistema e, de quebra, se vingar, fazer justiça e lutar para recuperar o grande amor.

Com um roteiro escrito a quatro mãos, esse Robin Hood – A Origem é uma mistura de clichês, frases de efeito, diálogos tenebrosos e viradas dignas de novela ruim. O filme é uma prova de que um bom elenco não faz milagre com material tão fraco.

Após uma introdução com uma narração pavorosa – o texto promete que o filme não será “história de ninar” – cinismos à parte somos jogados em uma cena que até apresenta um conceito que chama atenção. Aqui, a dinâmica lembra muito uma tropa de soldados contemporânea invadindo uma fortaleza, mas, em vez de metralhadoras e fuzis, os oficiais utilizam arcos, flechas e espadas. Um momento em que, pelo menos, se estabelece a relação de Robin Hood com a arma.

Apesar da cena de ação interessante, as coisas começam a desandar quando o longa não convence que o herói está agindo por motivo nobre, e não por ideias egoístas – o personagem poderia ganhar uma nova camada, se abraçasse um pouco do sentimento, mas não fica claro. Taron Egerton tem carisma, mas seu Robin Hood sofre mais com dor de cotovelo do que com empatia.

 

O mantra do porquê roubar dos ricos e dar aos pobres é discutido de fato apenas uma vez, claramente para pincelar e justifica-lo no filme. Ao não se aprofundar no discurso, “Robin Hood – A Origem” poderia se sobressair por boas cenas de ação e por um roteiro, pelo menos, criativo, mas acredite as reviravoltas aqui são tão previsíveis que você acaba duvidando se é isso mesmo que vai acontecer por tamanha cara de pau.

Os nobres são todos unidimensionais, preocupados apenas em aumentar sua fortuna, fazer orgias e explorar os pobres. Poderiam ter apresentado pautas políticas mais abrangentes e atuais (como disputa de classes), mas o filme desperdiça qualquer chance de ambição e entrega que, no fim, se resume a um triângulo amoroso mal feito.

Aqui, falo do personagem de Jamie Dornan (o Christian Grey do famigerado “Cinquenta de Tons de Cinza”): Will Scarlett poderia ser mais. Como uma espécie de líder sindical dos metalúrgicos da Idade Média, o personagem poderia indicar um contraponto a atitude enérgica de Hood – ambos do mesmo lado, porém com modos de agir diferentes – mas tudo se resuma apenas no ciúme e possessão que o ator já está habituado. Marian (Eve Hewson) não faz o tipo donzela em perigo, mas também não consegue evitar ser motivo de disputa.

Sobre o restante do elenco. Jamie Foxx fica com o personagem mais bem construído do filme. John tem motivação o suficiente para agir da forma como lhe é cabido – início, meio e fim dignos – porém não adianta muito, dado a tragédia. Já Ben Mendelsohn precisa tomar cuidado, pois, vem repetindo o mesmo tipo de papel desde “Rogue One”. Não levem a mal, o ator sabe interpretar um vilão e abraça a persona do Xerife com vontade – lembrando até mesmo o Christopher Waltz (“Bastardos Inglórios”) durante algum tempo fazendo o mesmo tipo. Mas suas linhas de diálogo, frases de efeito e surtos não conseguem fugir do caricato habitual e a participação no último ato por ter um encerramento tão abrupto é anticlimática e apenas nos alegra por saber que o filme já vai acabar.

Por fim, a construção de época. Ao se passar no período das Cruzadas, “Robin Hood – A Origem” parece ficar perdido ao tentar mesclar com uma atmosfera mais pop. O design de produção não se preocupa muito com o contexto histórico e a fidelidade ao período foi para o espaço. Basta observar, por exemplo, as roupas e a cena do protesto com direito a coquetéis molotov: poderia ter rolado até um #foraxerife. Se fosse para ousar e criar um novo contexto, poderiam ter apresentado, pelo menos, um universo steam punk.

No fim, o que me deixa mais perplexo é que o filme do irrelevante Otto Bathurst ainda apresente um gancho para uma vindoura continuação. Espero que ela se perca na floresta de Sherwood junto aos novos fora-da-lei.

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