Kurt Russell sempre foi um ator meio subestimado. Ele nunca foi daqueles que ganha muitos prêmios nem nunca foi indicado ao Oscar. Esteve em filmes bons, médios e ruins. Mas desafio você, leitor, a apontar uma má atuação dele. Desde o início da sua carreira, quando era garoto fazendo filmes para a Disney e seriados; até chegar à idade adulta interpretando personagens durões e cínicos na sua icônica parceria com o diretor John Carpenter, o príncipe das trevas de Hollywood; até seus papeis em westerns e, mais recentemente, como coadjuvante em grandes produções como a franquia Velozes e Furiosos ou no Universo Marvel do cinema, ele sempre atuou com competência, às vezes com um brilhantismo que não chama a atenção para si mesmo. É um verdadeiro ator de cinema, viveu em frente a uma câmera, domina seu ofício e faz atuar parecer fácil. E divertido.

Essa faceta divertida é a que ele exercita em Crônicas de Natal, produção da Netflix que curiosamente é lançada um pouco antes da época natalina, no final de novembro – tentar entender os motivos da Netflix é um exercício que já abandonei. Enfim… O título do longa remete a filmes mágicos como As Crônicas de Nárnia (2005) ou outros que nos fazem mergulhar em universos mágicos, e de magia o produtor Chris Columbus deveria entender, afinal ele comandou os dois primeiros capítulos da saga Harry Potter. Columbus também já dirigiu um dos Natais mais inesquecíveis do cinema com Esqueceram de Mim (1990).  Já o diretor de Crônicas de Natal é Clay Kaytis, que recentemente comandou a animação Angry Birds: O Filme (2016).

Mas o título, no fim das contas, se mostra inapropriado porque o filme não é tão mágico assim. Ele conta a história dos irmãos Teddy (Judah Lewis), um adolescente para quem o Natal já não significa nada, e Kate (Darby Camp), uma menininha esperta que está sempre gravando ocasiões especiais da família, Natais incluídos, com a sua câmera – o que dá oportunidade a Kaytis de fazer referência a Toy Story 3 (2010) na abertura do filme. Depois que uma tragédia se abate sobre a família, Teddy e Kate estão sem muito ânimo para passarem a noite de Natal juntos, mas acabam se metendo numa verdadeira aventura ao encontrarem o próprio Papai Noel (Russell) e partirem junto com ele para entregar os presentes da data.

O roteiro de Crônicas de Natal é bem rotineiro: as crianças se envolvem com o Papai Noel, embarcam nuca confusão atrás da outra, precisam resgatar objetos e correr contra o tempo, e ao longo da jornada aprendem lições sobre a importância do Natal e acreditar em si mesmo. Além disso, os jovens Lewis e Camp são inexpressivos e não conseguem realmente cativar. O filme é bem produzido, mas os efeitos em computação gráfica são meio irregulares – a cena do voo no trenó é bem feita e apresenta um ótimo e potente trabalho sonoro, mas em algumas cenas com as renas o chroma key não convence e os elfos do Papai Noel parecem figuras de desenho animado, em nenhum momento convencendo o espectador de que estão mesmo coexistindo dentro do cenário com os atores de carne e osso.

O astro do filme acaba sendo mesmo Russell, que demonstra estar se divertindo e por conseguinte, diverte o espectador. O timing do ator é impecável nas diversas tiradas do Papai Noel – o comentário dele “fake news” é o momento mais hilário do longa – e numa cena ele até canta num número musical rock’n’roll com a participação do Steven Van Zandt, famoso pelo seu papel no seriado Família Soprano e por tocar na banda do Bruce Springsteen. Nessa cena, o divertido Russell até aproveita para incluir na sua atuação pequenas lembranças do Elvis, o qual ele também interpretou num velho telefilme sob a direção do seu amigo Carpenter.

Nem mesmo Kurt Russell é capaz de fazer com que Crônicas de Natal segure seu ritmo até o final. Porém, até lá ele conseguiu fazer o espectador dar umas risadas e trouxe um pouco de vida a uma produção que, sem ele, seria definitivamente sem inspiração. Até uma divertida aparição surpresa no final do filme só é possível por causa de Russell. Se duvidar, até a barba do Papai Noel é a dele mesmo, dadas as vezes em que o ator apareceu com pelugens faciais extravagantes em filmes recentes… Devido à presença do ator e astro, Crônicas de Natal acaba sendo um pouquinho, pouquinho maior que os filmes natalinos que todo ano aparecem nas nossas TVs. Termina sendo mais uma comprovação do talento e dedicação de um dos grandes operários de Hollywood.

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