Às vezes, quando partem para fazer continuações de filmes de sucesso, muitos cineastas não resistem à tentação de aumentar a dose dos elementos mais populares dos longas originais, e acabam exagerando. Você gostou de Jack Sparrow em Piratas do Caribe? Então, nas sequências você vai ter uma overdose dele. Gostou do Tony Stark em Homem de Ferro (2008)? Essa é a desculpa para os envolvidos com as continuações encherem os filmes de cenas meio improvisadas com o elenco e deixarem o Robert Downey Jr. completamente sem limites. Porque, em Hollywood, o nome do jogo é “quanto mais de uma coisa boa, melhor”.

Ou pelo menos é isso que eles pensam. Nós, os espectadores, sabemos que é possível enjoar de uma coisa boa, quando ela vem em demasia. Por isso mesmo, a façanha do diretor/roteirista James Gunn em Guardiões da Galáxia: Vol. 2 merece ser reconhecida: Gunn amplifica os mesmos elementos que vimos no primeiro longa de 2014 – a ênfase nos personagens, o clima de aventura maluca, o humor – porém realiza um filme solto, despreocupado e abobalhado. O que não significa ruim, pelo contrário. O resultado é, no mínimo, tão bom e divertido quanto o primeiro.

É um filme cujos créditos de abertura aparecem ao longo de um plano-sequência em computação gráfica com o Baby Groot dançando enquanto seus amigos Senhor das Estrelas (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista) e Rocky (o guaxinim invocado com a voz de Bradley Cooper) enfrentam um monstro espacial cheio de tentáculos. Groot é adorável, mesmo com a voz do mal-encarado Vin Diesel (modificada eletronicamente para soar infantil), e o momento estabelece o tom: Vai ser um filme de muitos efeitos visuais – e todos bons, sendo o mais incrível deles o rejuvenescimento digital do ator Kurt Russell, visto num pequeno prólogo ambientado na Terra – com humor e aventura, e ênfase nos personagens.

Ainda bem que os personagens são legais e divertidos porque, sinceramente, a trama é bem bobinha: o pai do Senhor das Estrelas – o personagem de Russell – reaparece depois de muitos anos e tenta se reaproximar do filho. O problema é que ele, chamado Ego, é uma entidade superpoderosa do universo e dono do seu próprio planeta, cujas paisagens parecem pinturas. Além disso, os Guardiões estão sendo perseguidos por um pessoal, o grupo se separa, Yondu (Michael Rooker) reaparece, todos se encontram…

Em Vol. 2, Gunn apresenta uma atitude bem relaxada ao lidar com a “trama” do filme. Ela é contada quase aos trancos, pois entre os momentos mais relevantes o longa gasta alguns minutos com o Baby Groot procurando um objeto importante – até os vilões o acham fofo demais – ou com Drax se relacionando com a interessante Mantis (Pom Klementieff). Aliás, Bautista se mostra um autêntico ladrão de cenas… Vol. 2 é o tipo de filme no qual os vilões tentam destruir a nave dos heróis através de consoles de videogame, com direito a efeitos sonoros meio anos 1980, e no qual em dado momento os heróis precisam destruir um cérebro gigante… Com uma bomba. E Howard o Pato, David Hasselhoff, Sylvester Stallone e o Pac-Man (!) fazem participações especiais.

Nesta continuação, Gunn amplifica o tom de “nonsense” da narrativa, em relação ao primeiro, tornando-a menos convencional. Havia mais elementos típicos de trama no longa de 2014 – a joia do infinito era um típico “MacGuffin” para movimentar os acontecimentos, e a batalha final era clichê, apesar de bacana. Já no Vol. 2, a sensação é de que o diretor do filme quer que passemos mais um tempo com aqueles personagens, e que essa experiência seja tão divertida para nós quanto é para ele. Ao fazer isso, o diretor mostra ter uma verdadeira compreensão do porque retornamos para ver sequências: não é pelas tramas, mas sim porque queremos acompanhar os personagens de que gostamos da primeira vez.

A sensação de “nonsense” se reflete no visual do longa. O planeta de Ego é praticamente um sonho hippie, que contrasta com o visual sujo à la Star Wars do resto do filme. Há pessoas douradas, azuladas, e a paleta de cores do filme faz uso de praticamente todo o espectro cromático. Gunn e sua equipe de efeitos visuais até lançam mão de elementos que lembram desenhos animados, como mostrar os esqueletos das pessoas quando elas levam choques. Há até uma paródia do momento heroico de Os Vingadores (2012), quando a câmera circulava os personagens. E, claro, aquele humor meio “12 anos” do primeiro Guardiões é intensificado. Afinal, no fundo, é um longa sobre crianças se confrontando com seus pais – e familiares, no caso da sombria Nebulosa (Karen Gillan), em relação à irmã Gamora.

Ao abordar os temas de família e de relações entre os personagens, o filme resvala na pieguice – Chris Pratt chega a dizer em voz alta a moral da história, como se nós não tivéssemos entendido. Mas, surpreendentemente, Vol. 2 exala sinceridade: Gunn e seu elenco, apesar de todo o clima maluco e bem humorado, acreditam, sim, no que seus personagens sentem. É até engraçado constatar isso, mas a agora franquia dos Guardiões da Galáxia é o Velozes e Furiosos da Marvel: são filmes sobre a importância da família, vilões de outrora mudam de lado e são incluídos  no núcleo familiar e, bem, tem Vin Diesel e Kurt Russell nas duas franquias. Guardiões da Galáxia: Vol. 2 é meio besta, mas sincero e muito divertido, e termina até com um gosto de “quero mais”. Fato cada vez mais raro, é uma continuação que não torna enjoativa a coisa boa que experimentamos da primeira vez.

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