A certa altura de Velozes e Furiosos 8, a vilã da história interpretada por Charlize Theron, um daqueles super-hackers capazes de fazer tudo com um computador e que só existem nos filmes de Hollywood, consegue controlar com seus poderes divinos centenas de carros, vários sem motorista, pelas ruas de Nova York. O caos é impressionante: as batidas se acumulam, carros caem do alto de edifícios-garagens… E o fato de todos os pedestres serem bastante ágeis, e não serem atropelados ou esmagados – pelo menos o filme não mostra isso – deve ser o mais absurdo de todos. Porém, para quem se acostumou com a franquia, este é apenas mais um dia, e mais um filme, no mundo veloz e furioso da família de Dominic Torreto. Trata-se de uma franquia de cinema que só sobreviveu por abraçar o absurdo – sempre vale lembrar que o terceiro filme dela escapou por pouco de ser lançado direto para o DVD em 2006. De quantas loucuras cinematográficas teríamos sido privados caso isso tivesse acontecido?

Ainda assim, este oitavo longa é provavelmente o mais absurdo de todos. O roteirista Chris Morgan, principal autor da franquia desde o já referido terceiro capítulo, e o diretor F. Gary Gray, que recentemente comandou o interessantíssimo Straight Outta Compton (2015), têm um orçamento na casa dos duzentos milhões de dólares para brincar, e uma computação gráfica ilimitada, claro. Assim, o filme tem a já referida cena dos “carrinhos por controle remoto”, um duelo de carros contra um submarino, muitos momentos com os pedestres mais espertos do mundo, e um tiroteio com a presença de um bebê que só vendo para crer – Nele, Gray homenageia o clássico da ação Fervura Máxima (1992), de John Woo, no qual também havia uma situação semelhante. Mesmo para uma franquia que já mostrou personagens aparentemente mortos que voltaram (com amnésia!), o mais estranho português já ouvido num filme ambientado no Brasil (o quinto), e carros saltando entre prédios (no sétimo), entre outras coisas, este oitavo parece um bocadinho mais exagerado.

A personagem de Theron, a hacker Cipher, é quem desencadeia a trama, e os seus absurdos. Ela interrompe as férias de Dominic (Vin Diesel) e Letty (Michelle Rodriguez) e consegue o que parecia impossível: fazer Dom trair sua família e colaborar com ela em roubos de armas de destruição em massa que podem deflagrar a Terceira Guerra Mundial – sim, isso mesmo, leitor. Para impedi-los, a família se reúne novamente sob a orientação do Senhor Ninguém (Kurt Russell), incluindo o agente Hobbs (Dwayne Johnson, que figuraça!) e o ex-inimigo transformado em aliado Deckard Shaw (Jason Statham). Ou seja, para substituir um careca, os heróis recrutam dois…

A essa altura do campeonato, a franquia Velozes e Furiosos já é um animal cinematográfico com características próprias. Ora, não adianta reclamar de um tigre por não ser uma girafa – essas características da franquia ou são aceitas pelo público que vai ao cinema, ou não. Quem vai assistir a ele já sabe o que esperar: muita ação com carros, uma cena de corrida com direito a muitos closes nas bundas de moças com shortinhos e minissaias – um resquício do início da saga, quando ela costumava envolver corridas de automóvel – e momentos de humor ressaltados pela química entre os atores, que realmente se tornaram uma espécie de família com o passar dos anos. E a família ganha novos integrantes a cada filme: neste, até os vilões de capítulos anteriores viram “mocinhos” em algum momento.

Ou seja, existe uma “fórmula” de Velozes e Furiosos, definida por Morgan e pelo diretor Justin Lin, que reinventaram os filmes a partir do terceiro capítulo. Gray, no oitavo longa, não mexe na fórmula, apenas reforça o capricho nos aspectos técnicos. Os efeitos em computação gráfica são realistas e a fotografia de Stephen F. Windom ressalta as cores, tanto das paisagens – no segmento da trama passado em Cuba, especialmente – quanto dos carros – o laranja de um Lamborghini se destaca em meio à neve do final.

Mas não pergunte o que esse carro está fazendo nessa paisagem em especial. Ou por que precisa haver uma grande cena de rebelião na prisão onde Hobbs e Deckard estão presos. Ou qual, afinal, é o objetivo da Cipher… Velozes e Furiosos se tornou grandiosa demais para seu próprio bem, sempre pecou pelo excesso. Até o tempo de duração é excessivo: precisava mesmo se estender por duas horas e quinze minutos?

É o típico filme concebido por garotos que brincavam muito com seus carrinhos quando crianças, e agora conseguem colocar a divertida destruição imaginária dessas brincadeiras na tela de cinema. É o tipo de filme no qual dois caras fortões, Johnson e Statham, disparam insultos em sucessão um para o outro, mas depois estão rindo. É o tipo de filme onde uma atriz do porte de Helen Mirren surge para fazer uma ponta como a mãe de dois personagens, e arranca risos. É o tipo de filme com uma enorme bola de demolição destruindo vários carros (quantos policiais não morreram aí por causa dos heróis?), um momento que lembra cenas de desenhos animados. E tudo se encaminha, de novo, para a valorização da unidade familiar. Este é o “pulo do gato” da franquia: Os responsáveis por ela têm plena consciência do que estão fazendo e do tipo de filme no qual trabalham. Eles abraçam o absurdo e riem com a gente, felizmente não de nós. Há uma honestidade nos filmes Velozes e Furiosos que às vezes não se percebe em produções oscarizadas e/ou aclamadas por aí. Talvez seja essa honestidade que possibilitou a ela sobreviver por tantos anos. E não se engane, vai haver um nono filme. Talvez ele se passe no espaço sideral. No mundo de Velozes e Furiosos, o céu não é o limite. Talvez nem haja limite.

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