A cineasta gaúcha Tizuka Yamazaki já retratou no cinema protagonistas que saíam do interior para a “cidade grande” para realizar sonhos e também já levou para as telas a vida de uma pajé na Ilha de Marajó. Essas histórias resultaram em “Lua de Cristal” e “Encantados”, filmes tão distintos quanto as épocas em que foram produzidos, mas, que, de certa forma, sintetizam a trajetória da diretora, campeã de bilheteria no cinema nacional e representante de uma geração de realizadoras que abriram caminhos, como Ana Carolina e Suzana Amaral. 

No entanto, talvez nenhuma dessas produções seja tão simbólica para a carreira de Tizuka quanto “Gaijin: Caminhos da Liberdade”, filme de 1980 que fala sobre o início da imigração japonesa no Brasil. A herança nipônica, que rendeu à diretora uma produção que foi o início de uma carreira de sucesso, foi revisitada em uma continuação lançada em 2005, “Gaijin: Ama-me Como Sou”. A sequência teve uma exibição especial em Manaus nesta semana, como parte da programação do Festival de Cinema Japonês, que celebra os 90 anos da imigração dos japoneses no Amazonas. 

Antes da sessão, o Cine Set teve a oportunidade de participar de uma coletiva de imprensa com a diretora, que falou sobre os cortes na Agência Nacional de Cinema (Ancine) pelo governo Bolsonaro, a vinda de refugiados para o Brasil, os desafios das mulheres que fazem cinema e televisão no país, e, claro, “Lua de Cristal”, o clássico que arrastou multidões para o cinema no início dos anos 1990.

Acompanhe a entrevista abaixo: 

Cine Set – Quando você começou, outras diretoras também surgiam no cinema. Como era a situação da mulher cineasta naquela época e como é hoje em dia?

Tizuka Yamazaki – Aumentou muito. Hoje tem mulheres em tudo que é lugar. Naquela época, mais do que no cinema, porque o cinema já tinha uma tradição de mulheres diretoras desde os anos 1930, Carmen Santos, que foi produtora, e Gilda de Abreu. Nessa época, nos anos 1970, 1980, 1990, já tinha muitas mulheres diretoras no cinema. O que não tinha era na televisão. Eu fui fazer [a minissérie] “O Pagador de Promessas” em 1987 e só tinha a Denise Saraceni, que não era diretora geral. Eu fui a primeira diretora geral na televisão, o que causou um certo impacto, porque era difícil para aqueles trogloditas da equipe técnica aceitarem o comando de uma mulher, ainda mais uma que veio do cinema, e ainda mais japonesa (risos). Essas coisas todas foram situações que eu acabei vencendo, mas que aconteceram em um momento que as mulheres estavam se empoderando.

Cine Set – Um dos seus filmes mais famosos é o “Lua de Cristal”, com a Xuxa (as duas trabalhariam juntas ainda em ‘Xuxa Requebra’ e ‘Xuxa Popstar’). Como era dirigi-la? 

Tizuka Yamazaki – Super simples. Ela é muito acessível generosa, afetiva. Não era difícil.

Cine Set – Você dirigiu Xuxa, Renato Aragão…

Tizuka Yamazaki – Sérgio Mallandro (risos)

Cine Set – Quais são os seus atores preferidos de se trabalhar?

Tizuka Yamazaki – Depende muito do projeto. Eu tive relações muito diferentes um do outro. Ator é como filho. O que você precisa, como diretora, é perceber com quem você está lidando para saber qual a tática que você vai usar.

O José Mayer, em “O Pagador de Promessas, durante o processo todinho da realização, eu não elogiei nada, porque ele estava fazendo o papel de uma pessoa extremamente humilde. Ele olhava para mim, perguntando o que eu tinha achado, e eu virava a cara. Ele carregava uma cruz que eu pedi que fosse não de uma madeira pesada, mas que fosse madeira de lei não oca. Três contrarregras carregavam aquela coisa. Quando botavam no ombro dele, tinha uma almofadinha, tudo isso, mas ele não reclamava e fazia a caminhada dele. No último dia, eu pedi para os contrarregras trazerem a cruz e eu experimentei. Era pesada para burro.  Se eu fosse experimentar antes, se eu fosse ficar com pena dele, ele não ia fazer legal.

O ator geralmente entra com muita insegurança no set. O diretor é a referência dele. Ele quer saber se o diretor gostou ou não. No caso do personagem do Zé, era porque era um personagem muito humilde, então, ele não podia demonstrar nenhuma vaidade em nenhum momento. Ele foi brilhante.

Cine Set – Você costuma revisitar os seus trabalhos?

Tizuka Yamazaki – Eu, na verdade, não gosto. Tenho uma relação com os filmes de amor e ódio. Agora, é muito agradável você ver [um filme] muitos anos depois. Por exemplo, “Lua de Cristal” teve uma sessão recentemente no Festival do Rio. Eu me perguntei: “Quem vai ver o filme?”. Achei que ia ter meia dúzia de pessoas. Aquela sala grande lá do Estação Botafogo ficou lotada. Os caras urravam, pulavam em cima da poltrona… Eu achava que eles iam arrebentar o cinema. Foi fantástico. Eu não estava nem vendo o filme. Fiquei observando a plateia. Foi a melhor sessão do “Lua de Cristal” que eu vi.

Cine Set – Falando em revisitar trabalhos, o “Gaijin” é recorrente, já que houve o primeiro e o segundo. O que levou você a retomar esse tema?

Tizuka Yamazaki – Quando fui fazer o filme, eu já queria fazer uma trilogia, que era a chegada, a Segunda Guerra e o Brasil contemporâneo. Mas, depois que eu fiz o primeiro filme, eu não tive coragem de entrar na trilogia, porque [eu pensei] que seria reconhecida como “a diretora de assuntos japoneses”, com essa cara japonesa e esse nome japonês… Eu ia ficar estigmatizada. Tive que partir para umas outras temáticas para neutralizar isso, senão eu iria virar uma diretora de um tipo de filme só.

Anos depois, me chamaram para ir ao Japão para conhecer um fenômeno que estava acontecendo lá, que era o fenômeno decassegui (brasileiros que iam trabalhar em terras nipônicas). Fiquei impactada. Voltei e pensei: “tenho que fazer um filme sobre isso”.

Mas, em vez de fazer um filme só sobre esse momento dos anos 1990, eu fui sentindo que faltavam coisas para serem contadas, como a Segunda Guerra Mundial, e aí o projeto foi tomando corpo e se ampliando em termos de temática. Quando eu fui ver, estava fazendo 100 anos da história da imigração.

Cine Set – Você também já abordou a questão indígena, e já disse em entrevistas que se sente próxima desse tema. Como é essa identificação, para você? Aproveitando a pergunta, como vê os fluxos recentes de imigração no país (haitianos, venezuelanos, sírios), tendo em vista que esse é um tema importante na sua obra?

Tizuka Yamazaki – Todo japonês é um pouco índio. A gente tem um DNA ali de muitos anos atrás, muitos séculos atrás. Toda vez que eu visitei uma tribo indígena, sempre me senti muito identificada. A primeira vez que o [cacique] Raoni me viu, no 13º ano da Embrafilme lá no Rio de Janeiro, eu saí do elevador e dei de cara com ele, e ele ficou numa felicidade. Ele me carregou! Me botou no colo e saiu pulando comigo!

Essa identidade eu acho que existe. Não sei onde está a explicação. não sei se era o Estreito de Bering, [por onde] os asiáticos podiam atravessar, não sei se foram os chineses da Era Ming que invadiram a América Latina… Eu só sei que a gente tem uma afinidade. Sempre fui atraída por essas temáticas.

Eu preparei uma vez uma novela pra TV Manchete sobre a Amazônia, depois vim aqui fazer um episódios de “As Brasileiras”… Foi o único episódio da série que foi filmado em locação. Eu enchi o saco do Daniel [Filho, diretor]: “Não tem como você fazer a Amazônia no Rio de Janeiro. Tem que ir para Manaus”. Ele demorou para autorizar, mas, no meio do caminho, as meninas da produção fizeram um trabalho muito legal, começaram a ligar para conseguir apoio.

Recentemente, fiz o “Encantados”, que se passa na Ilha de Marajó [Pará]. Foi uma história incrível porque eu tive que entrar muito nesse universo para entender o que era isso, porque o Brasil sabe alguma coisa do espiritismo, da religião africana, mas não sabe nada sobre a cultura indígena. Foi difícil para mim, mas, ao mesmo tempo, muito instigante e gratificante poder conhecer isso.

Dito isso, quando eu vejo essa imigração, eu acho que somos todos descendentes de imigrantes no Brasil. Nós não podemos julgar e nem fazer qualquer tipo de negativa pra essa gente que vem buscar um apoio [porque] não pode viver mais na sua terra. [O imigrante] sabe que vai ser uma ruptura muito grande na vida dele e que ele vai sofrer muito com isso, mas ele não tem outra alternativa. Quando os caras da Venezuela passam pela fronteira e chegam ao Brasil, eles vêm por espírito de sobrevivência, e todos vem com a ideia de que um dia vão voltar para a sua terra natal.

O Brasil, que tem esse histórico de imigração, tem que repensar. Não pode dizer “não quero”. Tem que achar uma solução, porque os imigrantes construíram esse país, então a gente tem essa obrigação de abrir o coração e os braços para essa gente toda.

Cine Set – A tua história se confunde com a do cinema do Brasileiro. Sabemos que fundamental existir leis de incentivo para que o cinema aconteça. Como você enxerga a Ancine nesse momento, uma vez que temos diversas mudanças drásticas?

Tizuka Yamazaki – Olha, eu quero pensar que a gente vai sobreviver novamente. A gente passou pela Ditadura Militar, pelo Collor, que destruiu a Embrafilme, e eu quero pensar que, [mesmo com] qualquer coisa que façam para extinguir a Ancine, o audiovisual sobreviverá.

Por que?

Porque o audiovisual é a identidade do povo brasileiro. É a identidade de qualquer país. Não tem como você apagar essa identidade. Você pode apagar os incentivos fiscais, mas hoje você tem celular, você faz um filme com um celular, com o que você tiver. É mais fácil fazer cinema hoje que quando eu comecei. Eu só quero pensar nisso. Ainda que quem manda nesse país queira destruir o audiovisual, ele não será extinto.

Cine Set – Você sente que o pessoal do cinema quer dar uma resposta às mudanças que estão sendo feitas na Ancine? 

Tizuka Yamazaki – Parece que o trabalho que está dando mais resultado é o de bastidores, porque convencer a equipe do governo de quantos empregos a gente fornece, o que sustenta [o cinema], qual o resultado dessa indústria audiovisual. Os dados econômicos da atividade é que sempre assombram muito o poder, quem tá determinando o fechamento, por exemplo. Fechar [a Ancine], por exemplo, é de uma grande ignorância e prejuízo financeiro. Por que o Rio de Janeiro é conhecido no mundo inteiro? Por causa do cinema.

Então, a força da imagem para você vender determinado lugar, vender a cultura desse lugar, não tem preço. Os Estados Unidos fazem isso muito bem. Você vende moda, música, costumes, tudo, através do cinema. O cinema sempre teve um poder muito grande, agora os caras aqui não estão entendendo. O processo [de produção] é demorado, então os filmes que estão sendo lançados já vêm de um processo de dois, cinco, às vezes, 10 anos. Ninguém tinha ideia do que ia acontecer com o país. Eu tenho certeza que os produtores de filmes que possam ter algum problema com a ideologia desse governo estão procurando meios para que os filmes sejam vistos. 

Cine Set – Houve a decisão do governo Bolsonaro de não apoiar a produção de filmes e séries com temática LGBTQ+…

Tizuka Yamazaki – Eu acho muito doido querer atravancar, por exemplo, uma liberdade já conquistada. 

Cine Set – Falando um pouco da sua herança asiática, esse é um cinema que tem chamado muito a atenção nos últimos anos, com os filmes japoneses, coreanos… Você acompanha essa indústria?

Tizuka Yamazaki – Mais ou menos. A gente não tem muito acesso. Hoje em dia você pode ver alguma coisinha em um Netflix da vida, mas é muito difícil. Qualquer cinematografia é muito interessante. Eu vejo filme estrangeiro porque eu sou curiosa pela cultura local, e a gente aprende muito e sempre é alguma coisa que é um benefício para a sua formação. O que faz uma cultura ser diferente da outra é justamente esse olhar diferente que tem do mundo, e é enriquecedor.

Gostaria que a gente pudesse mais chance de ver cinema estrangeiro, mas, hoje em dia, os cinemas foram feitos pra mostrar os grandes lançamentos principalmente norte-americanos, então não há espaço para o cinema brasileiro, não há espaço para o cinema de arte porque não tem esse poder comercial. A única chance que a gente tem de ver [esses filmes] é pelo streaming. Quanto mais formas de exibição tiver, melhor. A gente faz o filme para ser visto. 

Cine Set – Sobre essa questão da janela de exibição. Ainda há muito complexo de vira-lata, pessoas que dizem que o cinema brasileiro é ruim…

Tizuka Yamazaki – O cara vê um filme ou alguém fala para ele de um filme, e ele acha que todo o cinema brasileiro é assim [ruim], Ele não considera a riqueza cultural desse país multifacetado, multicultural, multiétnico. A gente faz filmes de tudo quanto é tipo. Quando o cara pega um filme e diz que cinema brasileiro é aquilo, ele é um ignorante. Então não dá nem para discutir. 

Cine Set – Você assistiu “Bacurau”? Que filmes recentes do cinema brasileiro assistiu e gostou?

Tizuka Yamazaki –  Eu não vi o “Bacurau” [ainda], mas eu tenho certeza que você pode não gostar do filme, mas ele é importante na filmografia brasileira, não apenas pelos prêmios, mas pelo enfoque que ele deu a um tema. Tem um filme que eu gostei tanto que foi o “Boi Neon”. Acho que o cinema pernambucano está numa efervescência e em uma qualidade muito grandes.

Cine Set – Voltando à Xuxa, ela disse recentemente que quer voltar a fazer cinema. Você trabalharia com ela novamente? 

Tizuka Yamazaki – Eu sempre fui convidada para fazer filme pra ela. Ela já tinha o projeto e me chamava para dirigir. Depende do produtor que vai participar. Com a Xuxa eu não tenho [projeto, no momento]. Tenho outros projetos, sempre tem, mas não é bom falar [antes] porque atrapalha.

 

*O Cine Set participou da coletiva de imprensa com a diretora Tizuka Yamazaki a convite da assessoria do Manauara Shopping.

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