Na história do Festival de Cannes, surpresas e controvérsias não são exatamente nenhuma novidade, seja as polêmicas que acontecem no dia-a-dia do tapete vermelho do evento, seja na entrega dos prêmios no último dia. Na 69ª edição do festival, que chegou ao fim neste domingo (22), não podia ser diferente, e dá-lhe divergências entre os longas premiados pelo júri e aqueles aclamados pela crítica. Para quem não acompanhou todas as tretas, o Cine Set traz agora um “resumão” de quem venceu, quem perdeu e quem deu o que falar em Cannes em 2016, para o bem ou para o mal. Confira:

EM ALTA

“Zebras” premiadas: I, Daniel Blake e Juste la Fin du Monde

Até ontem, os filmes melhor avaliados pela imprensa internacional, como o alemão Toni Erdmann, o americano Paterson, de Jim Jarmusch, ou o próprio Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, eram as apostas mais seguras para disputar o prêmio principal, a Palma de Ouro. O resultado, porém, foi bem diferente: a Palma acabou nas mãos de I, Daniel Blake, de Ken Loach (ganhando assim sua segunda estatueta e entrando num rol seleto de diretores) e o Grande Prêmio do Júri, uma espécie de “segundo lugar”, para Juste la Fin du Monde, do enfant terrible Xavier Dolan. Se Daniel Blake foi recepcionado como um filme apenas “correto” por público e crítica, ilustrando mais uma vez o cinema burocrático do diretor, o mesmo não se pode dizer do longa de Dolan, que ganhou uma das piores recepções da imprensa internacional – e aqui fica inclusive a pergunta: que pacto o “menino-prodígio” fez para continuamente receber tanta atenção na Croisette?

O descompasso entre crítica e júri este ano foi tão grande que pegou todo mundo de surpresa – e não uma boa. Sobrou até vaias para os membros do júri, presidido por George Miller (Mad Max), e com a presença de nomes como Donald Sutherland, Mads Mikkelsen, Kirsten Dunst e Vanessa Paradis. Nem mesmo outsiders nos mesmos moldes de Miller, como Paul Verhoeven e Park Chan-wook, foram lembrados pelo júri. Se, no ano passado, a principal controvérsia era Dheepan ter levado o prêmio máximo, aqui as outras categorias premiadas também foram recebidas com estranheza, como a estatueta de Melhor Atriz para a filipina Jaclyn Jose, de Ma Rosa, considerada a mais fraca da disputa, e a de Melhor Diretor para Cristian Mungiu, por Graduation, empatado com Olivier Assayas, que teve seu Personal Shopper vaiado dias antes. Seja lá o que aconteceu nos bastidores, o júri de Miller parece ter divergido bastante entre si para chegar a esses nomes, como o próprio Mads declarou em entrevistas, e acabou não agradando.

Campeão da crítica: Toni Erdmann

O filme dirigido por Maren Ade pode ter saído de mãos vazias do festival, mas foi recepcionado com ares de campeão moral. A grande sensação da mostra, Toni Erdmann encantou o público com uma comédia dramática sobre a relação entre um pai e sua filha; abocanhou boas críticas, atingindo um novo recorde nas medidas do Screen International, que agrega as notas de vários jornalistas que cobrem o festival; e ainda conseguiu um contrato para ser distribuído nos EUA, quem sabe já vislumbrando ser um potencial candidato alemão ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Brasil: sem Palma, mas com prestígio

Não foi dessa vez – de novo. O filme de Kleber Mendonça Filho não levou nem a Palma nem o Grand Prix, e Sônia Braga, embora tenha brilhado muito no tapete vermelho e no longa, também não levou o prêmio de Melhor Atriz. Assim, a Palma de Ouro para uma produção tupiniquim continua nas mãos apenas de O Pagador de Promessas, de 1962.

Porém, a falta de prêmios na competição principal não significa que o Brasil passou em branco pelo evento. Aquarius deixou seu nome marcado tanto pela boa recepção de público e crítica na mostra quanto pelo protesto da equipe de produção contra o impeachment no país, encarado com simpatia a nível internacional e motivo de boicote por parte do público brasileiro. Para Sônia Braga, em especial, os veículos especializados ainda falam em possível indicação ao Oscar.

Enquanto isso, outros dois títulos nacionais se destacaram em Cannes: o curta-metragem A Moça que Dançou com o Diabo, de João Paulo Miranda, ganhou uma menção honrosa do júri, e o documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha (filho de Glauber), venceu o L’Oeil d’Or, premiação paralela do festival que consagra o melhor documentário. Para quem não emplacava um filme na competição principal desde 2008, o saldo parece ter sido mais do que positivo.

O ano das mulheres, da Amazon, do “Jodo” e do Studio Ghibli

Filmes dirigidos por mulheres e histórias sobre elas marcaram Cannes este ano. Na mostra competitiva, Mare Ande apresentou seu já mencionado Toni Erdmann, enquanto a francesa Nicole Garcia trouxe Marion Cotillard à frente de Mal de Pierres e a britânica Andrea Arnold apresentou o road movie American Honey.

Além das mulheres, a Amazon também deu as caras e fincou seus pés no mercado do cinema, ainda que não tenha levado nenhum prêmio. Foi por meio da gigante online, que tem buscado crescer na produção de conteúdo e ameaçar a soberania da Netflix, que chegaram a Cannes os longas The Neon Demon, The Handmaiden, Paterson, Gimme Danger e Café Society (o único deles fora de competição). Um ganho a mais de credibilidade para a companhia.

Enquanto isso, na Quinzena dos Realizadores, Alejandro Jodorowsky foi aplaudido de pé com seu autobiográfico Poesia Sem Fim, financiado por meio de crowdfunding, consagrando assim também novas formas de financiamento, e, na competição paralela Un Certain Regard, o Studio Ghibli emplacou um dos grandes hits do festival, com a animação The Red Turtle, de Michaël Dudok de Wit, agraciada com o Prêmio Especial do Júri.

EM BAIXA

Os vaiados e os ignorados

O que é pior? Ser vaiado e obviamente ter uma má recepção, ou simplesmente passar tão batido que parece que nem teve seu filme exibido? Um dos filmes mais divisivos do festival, Personal Shopper, de Olivier Assayas, foi um dos vaiados nas sessões para a imprensa, enquanto foi abraçado com aplausos na exibição para convidados. De qualquer forma, a história de fantasmas com Kristen Stewart não teve a mesma aclamação que o longa anterior do diretor, Acima das Nuvens. Tão divisivo quanto foi The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn, com reações que foram de gente saindo no meio da sessão a críticas de cinco estrelas.

Também sobraram vaias para o drama de Sean Penn, The Last Face, provavelmente tido como o pior filme do festival, acusado de se aproveitar do tema da guerra civil na África. No ranking de críticas do Screen International, o filme aparece com uma média de apenas 0.2, contando inclusive com oito críticas que deram simplesmente zero estrelas para o longa. Steven Spielberg é outro que não teve um ano fácil: Um Bom Gigante Amigo foi recepcionado com frieza, o que levanta outra questão: por que Hollywood ainda insiste tanto em lançar filmes em Cannes que claramente não estão no foco do festival? Só para fazer uma exibição burocrática?

Já na lista daqueles que simplesmente passaram batido, agradando a um e outro, está Julieta, o novo de Pedro Almodóvar. Se, para alguns, o filme foi visto como o melhor do cineasta em anos, para a maioria o longa foi encarado como mais um trabalho menor e até decepcionante. Os irmãos Dardenne também não deixaram impressões marcantes na Croisette, com seu drama A Garota Desconhecida.

Um mau ano para Woody Allen

Definitivamente, 2016 não foi o ano para Woody Allen. O diretor abriu o festival com Café Society, fora de competição, e apesar de alguns comentários positivos quanto à atuação de Kristen Stewart, a recepção do longa, que teria um de seus roteiros mais fracos, também foi fria.

Os holofotes, porém, se acenderam para outra questão: uma piada sobre estupro envolvendo Allen e Polanski foi a notícia do dia, com um timing perfeito envolvendo um artigo escrito por seu filho, Ronan Farrow, trazendo à tona mais uma vez as acusações de que o cineasta teria abusado da filha Dylan. A atriz Susan Sarandon também acendeu a lenha na fogueira, afirmando que não tinha nada de bom pra falar do diretor por conta do caso. Seja ele culpado ou não (o que é uma questão à parte), a invisibilidade do assunto e a necessidade de falar sobre isso foram os tópicos que se sobressaíram no festival – e quando isso rende mais pauta do que seu filme em Cannes, temos um problema.

» Leia também: Precisamos falar sobre as acusações de estupro contra Woody Allen

Cadê os hits independentes?

É nas mostras paralelas do Festival de Cannes que geralmente aparecem aqueles filmes independentes destinados a se tornarem sucessos entre a crítica e até mesmo o público e, a partir daí, alçarem voos mais altos. Exemplos mais recentes incluem, por exemplo, Corrente do Mal (2015) e O Abrigo (2011). Em 2016, nenhum filme pareceu atingir esse nível de hype. Entre os que chegaram mais perto, estão talvez Neruda, de Pablo Larraín, ou One Week and a Day, de Asaph Polonsky. Resta ver como fica a repercussão a longo prazo.

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