Quando assisti “Fora de Série”, me chamou atenção o quanto a diretora Olivia Wilde sintetizou no projeto a adolescência da última década. Se ela fez isso de maneira leve e descontraída, essa não foi a mesma pretensão de Sam Levinson em “Euphoria”. Responsável pela primeira produção para o público adolescente da HBO, o showrunner entregou um retrato sensível, porém cru e explícito da juventude contemporânea, encontrando ecos na própria trajetória do criador.

“Euphoria” se dedica a contar diferentes situações experimentadas por um grupo de adolescentes no ensino médio ao longo de oito episódios. Sem identificação de onde pertencem esses estudantes – não é informado a cidade nem o nome da escola – o que vemos é o quadro real do que é ser adolescente hoje em dia com seus traumas, vícios, depressão e amor.

SEM IDEALIZAÇÕES DOS TRAUMAS

A série é construída a partir da perspectiva de Rue (Zendaya, na melhor performance de sua carreira), que narra os acontecimentos e a trajetória dos outros personagens apresentados. Cada episódio recapitula a infância e o passado de um deles, realizando um estudo profundo de por que a geração contemporânea se sente afundada em traumas e tão perdida a ponto de buscar válvulas de escape em opções que prejudicam sua saúde física, mental ou emocional.

Curiosamente, o roteiro assinado por Levinson discute consideravelmente a influência da infância e as relações familiares na construção da persona e dos distúrbios dos adolescentes. Todos que lidam com algum dilema em “Euphoria” possuem histórico problemático na primeira infância seja por abandono, perda de um dos pais, doenças ou traumas. E isso é o que diferencia a série de outras produções voltadas ao mesmo público: há uma busca constante de equilíbrio ao discutir as temáticas densas da produção.

De certa maneira, a abordagem e seu conteúdo podem despertar eventuais gatilhos, porém, existe o cuidado em não gerar “o choque pelo choque”, mas desenvolver autoconsciência e responsabilidade. “Euphoria” toma para si estas duas qualidades ao escancarar momentos tão delicados, como uma overdose ou estupro, sem idealizá-los de nenhuma forma.

ESTÉTICA DELICADA

O equilíbrio buscado pelo roteiro também pode ser sentido na estética de “Euphoria”, um de seus grandes trunfos. A fotografia predominantemente saturada recorre há um constantemente contraponto entre cores: geralmente azul em contraste com o rosa e o verde com o laranja. Enquanto isso, a iluminação utilizada favorece o jogo de luz e sombra que destaca o brilho presente nos glitters utilizados na maquiagem, nos paetês e nas luzes de neon, especialmente nos episódios 04 e 07.

Além disso, o trabalho da direção de fotografia merece um destaque adicional. Em muitos momentos há o uso de duas câmeras no set – algo não muito corriqueiro nas gravações de produções seriadas – tudo projetado para abarcar a variedade de planos e angulações inusitadas que oferecem ao público de “Euphoria” uma imersão dinâmica e impressionante. A fotografia consegue acompanhar as viagens de Rue como se nós estivéssemos presos a sua mente, o que fica explícito na sequência do corredor giratório, ainda no episódio piloto.

A trilha sonora e a montagem também se destacam. No primeiro, ter Drake como um dos produtores executivos se torna um indicativo do amadurecimento sonoro do projeto e até mesmo dos títulos dos episódios, que recordam músicas de rap. Quanto ao segundo elemento técnico, a competência de Julio Perez (“O Mistério de Silver Lake”, “Feito na América”) dá o tom a dinamicidade da produção por meio dos cortes secos, o jogo rápido de projeção e a quebra de linearidade. Esta última funciona especialmente com o casamento entre montagem, direção e trilha sonora. Os episódios 4 e 8 se destacam nesse sentido ao estabelecerem um clima sufocante e claustrofóbico, em que dificilmente saberemos quais eventos se desencadeiam primeiro – o que não faz diferença alguma na coroação dos episódios.

RETRATO DA JUVENTUDE

A última peça para o eficiente funcionamento de “Euphoria” são as atuações. Com poucos atores do núcleo adolescentes conhecidos do grande público, a escalação de Zendaya como protagonista é eficaz. Ela parece confortável no papel e, finalmente, se distancia da vibe Disney que a lançou. A atriz se entrega ao papel de forma catártica, atestando seu talento e versatilidade, além de oferecer ao espectador sensibilidade e veracidade ao projeto. Ao seu lado, Hunter Schafer mostra possuir o carisma da produção. Em seu primeiro trabalho, ela demonstra uma desenvoltura leve e natural que se confunde com sua própria trajetória. A química entre ela e Zendaya é forte e convincente, oferecendo mais um ponto positivo à produção.

Quem também merece destaque é Barbie Ferreira, muito segura no papel de Kat, um dos mais interessantes e representativos da narrativa. A personagem, com certeza, se junta ao hall de personagens gordos que vale a pena se inspirar, como Rae de “My Mad Fat Diary”. Essa é uma ótima oportunidade para você conferir como as produções seriadas enxergam a adolescente gorda. Se junta a ela, Sydney Sweeney e Jacob Elordi, que parece se encaixar perfeitamente na figura do “chernoboy”.

“Euphoria” consegue retratar a juventude contemporânea, evidenciando como essa geração tornou-se adoecida devido às relações basilares e os efeitos das redes sociais. Os comportamentos e discussões explorados por Levinson são um estudo do que é viver no século XXI com todas as cobranças e acabam por oferecer aos mais velhos uma visão verossímil de quem são os adolescentes e as temáticas que os envolvem. Um prato cheio para que eles possam compreender a conduta da juventude e um passo importante para aceitação do adolescente contemporâneo. Vale a pena acompanhar.

‘Ragnarok’: Thor encontra história de ‘Malhação’ em série sofrível

Neil Gaiman com o seu fantástico “Deuses Americanos” inseriu como os deuses antigos viveriam nos tempos atuais. A série norueguesa “Ragnarok” apresenta proposta semelhante, mas, diferente da road Ttip do consagrado escritor, introduz os seres mitológicos nórdicos no...

Os Candidatos do Oscar 2020 no Mundo das Séries

Da favorita Laura Dern até Adam Driver, Pâmela Eurídice e Rebeca Almeida recordam os candidatos ao Oscar 2020 com passagem pelo mundo das séries. https://www.youtube.com/watch?v=QoiYQ1UmSOc

De ‘Lost’ a ‘Watchmen’: as marcas de Damon Lindelof no mundo das séries

Pâmela Eurídice e Rebeca Almeida abordam as características da carreira de Damon Lindelof, showrunner de séries como "Lost", "The Leftovers" e "Watchmen". https://www.youtube.com/watch?v=W3TmRjhnokM

‘The Witcher’: Vale a Pena ou Não? (COM SPOILERS)

Pâmela Eurídice e Rebeca Almeida recebem Erick Oliveira para um bate-papo sobre "The Witcher". A série da Netflix, de fato, merece todo o hype ou é superestimada? Também vamos tratar sobre as teorias do que podemos ver na segunda temporada. ALERTA DE SPOILERS: MÁXIMO!...

‘Drácula’: adaptação da Netflix para deixar Bram Stoker envergonhado

Criado por Bram Stoker, Drácula já ganhou diversas versões com o passar do século, seja no cinema, animações, gibis, games e séries de televisão. Nesta versão em formato de minissérie, feita pela BBC com a Netflix, temos uma nova adaptação, uma (não tão) nova...

‘Titãs – Segunda Temporada’: roteiros péssimos derrubam série da DC

Atenção: Esse texto contém spoilers  -- Como fã de quadrinhos sempre procurei adaptações com classificação indicativa para maiores de 18 por gostar dos temas densos e cenas de luta mais trabalhadas e até mesmo violentas. Por isso, ‘Titãs’ logo se mostrou como uma...

TOP 5: Grandes Diretores Atuais de Cinema no Comando de Séries

De David Fincher a Ava DuVernay, Pâmela Eurídice e Rebeca Almeida trazem cinco diretores de cinema com passagens por importantes séries de televisão. https://www.youtube.com/watch?v=wy44YCXD46I

O Segredo do Sucesso de ‘Law and Order SVU’

Atendendo a pedidos sobre séries policiais, Pâmela Eurídice e Rebeca Almeida mostram os motivos que tornam 'Law and Order: Special Victims Unit' um grande sucesso. https://youtu.be/OKNZy9UBlsg

Cinco Séries Para Ficar de Olho em 2020

Pâmela Eurídice e Rebeca Almeida abrem 2020 com cinco dicas de séries que devem ser destaques neste novo ano. https://youtu.be/2cMkDdWU6MA

‘The Witcher’: tentativa de ‘Game of Thrones’ da Netflix não empolga

Na corrida para criar a próxima ‘Game of Thrones’, a Netflix realizou uma escolha bem ousada ao anunciar a adaptação de ‘The Witcher’, franquia literária de Andrzej Sapkowski. Falo isto pois, além dos livros, a trama tornou-se famosa por sua presença no mundo dos...