AVISO: qualquer coisa dita sobre “Vingadores: Ultimato” tem spoilers.

Por isso, esta crítica TEM SPOILERS.

Se já viu o filme ou não se importa, vamos nessa!

Pode até parecer, mas, “Vingadores: Ultimato” não tem como ponto central a reversão do estalar de dedos de Thanos e a derrota do vilão interpretado por Josh Brolin. Afinal, não havia a menor novidade que Homem-Aranha, Pantera Negra, Doutor Estranho e cia iriam retornar em uma grande batalha no final do filme na única possibilidade em 14 milhões. O foco verdadeiro da superprodução, lançada de maneira predatória em 80% dos cinemas brasileiros nesta semana, reside na ligação afetiva dos heróis, seja em seus elos familiares e entre eles próprios, e uma celebração de tudo conquistado até aqui.

Nada mais coerente do que foi este Universo Marvel criado ao longo dos últimos 11 anos: o que sempre importou foram os heróis, enquanto os vilões estavam ali apenas para justificar as cenas de ação – exceção ao ótimo Killmonger, de “Pantera Negra” e, em menor escala, a Thanos em “Guerra Infinita“. Não à toa que “Soldado Invernal” (Capitão e Bucky), “Guerra Civil” (Capitão e Homem de Ferro) e “Guardiões da Galáxia“, justamente produções que tinham o seu forte nas relações entre os protagonistas, sejam alguns dos melhores desta jornada. “Vingadores: Ultimato” segue a cartilha e, mesmo sem atingir brilhantismo nestas conexões como deveria, consegue realizá-los de maneira satisfatória.

Chama a atenção que a primeira hora seja dedicada a estes conflitos internos. Exceção feita à rápida caçada a Thanos, o que impera são a fragilidade de Tony (Robert Downey Jr), a impotência de Viúva Negra (Scarlett Johansson), a melancolia do Capitão América (Chris Evans) e a raiva do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Todos demonstram as marcas causadas pela perda de pessoas que amavam. A Nova York gelada, vazia, silenciosa ressoa na solidão de uma sala grande com os personagens tão pequenos discutindo sobre como seguir em frente. 

Lidar com o fracasso coloca em perspectiva os fantasmas que cada um daqueles heróis possui sobre suas próprias vidas, sendo a viagem no tempo não apenas uma forma de solucionar o problema causado por Thanos, mas, também uma forma de reencontrar a essência de cada um deles. Por isso, tão singelo se torna ver Tony com o pai, Thor com a mãe e Steve observando a amada, afinal, é também uma forma de lembrarmos porque gostamos tantos daqueles caras.

Igual os personagens, a Marvel aproveita esta oportunidade para fazer um retorno as suas origens, em uma auto-celebração do que a tornou este fenômeno de bilheteria. Com isso, “Ultimato” passeia por momentos clássicos da franquia com destaque maior, claro, para a icônica cena da câmera girando ao redor dos heróis no primeiro “Vingadores”.

Não poderia faltar também as grandes estrelas que um dia passaram pelos filmes do estúdio e deram prestígio ao universo de HQs nos cinemas como Tilda Swinton, Robert Redford, Michael Douglas, John Slattery e Rene Russo (não conto Natalie Portman pelo simples fato de ser uma aparição ridícula de alguém que parece ter sido obrigada a gravar para não pagar multa contratual).

Para completar a alegria dos fãs, há ainda Stan Lee, Tom Hiddleston de volta como Loki e a inteligente referência ao polêmico  ‘Hail Hydra’ do Capitão América visto nos quadrinhos, agora, com uma nova perspectiva. Verdadeira fan service misturada com festa da firma.

NEM TUDO SÃO FLORES

“Vingadores: Ultimato” conta com um público cativo, fiel e apaixonado, o que garante uma zona de segurança para lá de confortável. Talvez, por isso, o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely (ambos de “Guerra Infinita”) abuse da boa vontade do espectador e seja tão pobre. Somente no início do filme, dois ‘Deus Ex Machina’ – Capitã Marvel salvando o Homem de Ferro no último dia de oxigênio na nave e a saída do Homem-Formiga do Reino Quântico. Aliás, a justificativa da distância da personagem de Brie Larson em meio ao caos com Thanos em Wakanda não convence ninguém e, por isso, acaba sendo deixada de lado rapidamente para evitar constrangimentos.

O humor presente na primeira parte do filme não encaixa com o estado emocional dos personagens e tira o peso dramático que vemos em cena. Pode até funcionar com Thor (Chris Hemsworth) pela desconstrução da imagem do Deus do Trovão, mas, por outro lado, transforma Hulk (Mark Ruffalo) em um bobão sem grande importância. Impressiona também como Markus e McFeely são esquemáticos por diversas vezes, especialmente, com o Capitão América, quase um narrador da história em diversos momentos. O uso é tão excessivo que há uma espécie de mea-culpa dos roteiristas na hora em que o personagem de Chris Evans é sacaneado pela forma como se expressa.

Apesar de permitir divertidos momentos de ressignificação do que fora visto em filmes anteriores, a proposta da viagem no tempo é jogada sem grande criatividade, sendo explicada até com certa preguiça ao fazer referência a outros longas de sci-fi com o intuito de uma gracinha a mais. Fechando a parte do roteiro, é uma pena ver Thanos cair na clássica armadilha dos vilões de destruir a humanidade.

Chega a ser uma sabotagem ao ótimo plano construído por ele em “Guerra Infinita” e até mesmo a habilidade para antecipar a estratégia dos heróis em “Ultimato”, culminando no ato final. Transforma-se em um antagonista trivial e que, no fim das contas, revela-se até inofensivo por não causar diretamente a morte de ninguém de peso como era esperado.

Decepciona também a pobreza de Anthony e Joe Russo na criação das cenas de ação: não que elas não sejam competentes e bem feitas, mas, espera-se mais para um filme tão aguardado. A batalha final recorda “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” com aquelas panorâmicas aéreas e na altura dos personagens com o por do sol ao fundo e até “Aquaman” quando vemos trocentos seres de todos os tipos indo um de encontro ao outro, além de chegar ao ponto de se restringir a um manja-pega da Manopla do Infinito. Exceção ao ótimo plano-sequência do Gavião Arqueiro no Japão, o resto apenas é transformar o impacto de uma porrada em algo sobre-humano através de uma boa mixagem de som e montagem eficiente. Nada que não tenhamos visto em produções do gênero recentemente.

Aliás, como a montagem de “Vingadores: Ultimato” decepciona.

Jeffrey Ford e Matthew Schmidt parecem perdidos com tantas linhas narrativas, não conseguindo dar o dinamismo necessário entre cada trecho. A tensão se dá mais pelo conhecimento prévio que temos da história, dos significados das ações e do nosso carinho pelos personagens do que por uma organização coesa do que está sendo exibido. Nada mais sintomático do que a morte da Viúva Negra ocorrer sem o peso merecido.

‘EU SOU O HOMEM DE FERRO’

Se não é possível passar a borracha e esquecer estes problemas, “Vingadores: Ultimato”, pelo menos, presta uma justa homenagem ao pilar fundamental destes 11 anos: Robert Downey Jr. Mesmo com tanta gente em cena, efeitos especiais incríveis e gracinhas a todo momento, nada é mais importante e forte do que o Homem de Ferro em cena.

E Tony nunca esteve tão frágil: magro e sem forças, ele sintetiza a tragédia ao lamentar ter previsto o que viria em “A Era de Ultron” e não conseguir impedir. Logo ele, tão egocêntrico e dono do mundo. Para piorar, o fantasma da morte em seus braços do pupilo Peter Parker, ainda o assombra. O roteiro amplia o drama do personagem ao trazê-lo com a filha e Pepper (Gwyneth Paltrow) cinco anos após o estalo de dedo e diante da possibilidade de reverter tudo o que ocorreu, tendo uma difícil, mas, previsível decisão a ser feita.

O trágico desfecho com a morte do Homem de Ferro após salvar o mundo pode até ser um choque e deixe um saldo final de tristeza para o público de “Vingadores: Ultimato”, mas, representa uma essencial passagem de bastão para uma nova fase tanto da Marvel nos cinemas quanto do próprio ator. A liderança alcançada por Downey Jr dentro da franquia era tão gigantesca que jogava sombra em relação a tudo o que o rodeava – Homem-Aranha que o diga.

Além disso, pode significar também uma necessária saída da zona de conforto do astro, o qual já incorporou a persona de Tony Stark tanto em outros trabalhos quanto nas aparições públicas. Igual fizera Johnny Depp com Jack Sparrow. Apesar de um “Sherlock 3” já estar anunciado, por que não vê-lo em outras produções que exijam mais do claro talento dele?

O caminho aberto, a partir de agora, permite o surgimento real de novos ícones que representem o estúdio daqui por diante. Sucessores não faltam e a Marvel faz questão de deixar isso muito claro, especialmente, ao levar em conta a representatividade feminina e negra. Estratégias de marketing à parte, a cena com todas as heroínas ao redor da Capitã Marvel pode não trazer nada de concreto para a solução do conflito com Thanos, mas, possui uma relevância de conquista de um espaço sem volta e o fim de uma sub-representacão que tanto prejudicou Scarlett Johansson. O mesmo serve para a entrada triunfal do Pantera Negra.

Dizer isso não significa esquecer Robert Downey Jr.: o astro representa para Marvel nos cinemas o que Stan Lee é para os quadrinhos. A lembrança dele estará viva em cada fã do Universo Marvel e nada mais simbólico do que a última frase de Stark em vida tenha sido o ponto de partida de tudo: ‘Eu sou o Homem de Ferro’.