‘Galera, é o seguinte: estou pensando em fazer um filme todo gravado em um transatlântico. Vocês topam?’. 

Se receber um convite destes seria tentador por si só, imagine vindo de Steven Soderbergh, diretor ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1989 por “Sexo, Mentiras e Videotape” e do Oscar da categoria em 2001 por “Traffic”. Para um cineasta que transita entre o mainstream (a trilogia “Onze Homens e um Segredo”) e o experimental (de obras de baixíssimo orçamento como “Full Frontal” a “Unsane” , gravado todo com iPhone), não chega a ser revolucionária uma ideia tão incomum para os padrões hollywoodianos como “Let Them All Talk”. 

A proposta fica ainda mais interessante ao trazer Meryl Streep como Alice, uma famosa escritora buscando finalizar o manuscrito do próximo livro durante uma viagem rumo à Inglaterra onde será homenageada. Ao lado dela estão o inseguro sobrinho (Lucas Hedges) e duas amigas de longa data, Susan e Roberta (Dianne Wiest e Candice Bergen, respectivamente), mas, que não se encontram há 30 anos após a publicação do livro mais célebre da protagonista. Evidente que os desacertos do passado vão vir à tona a bordo do Queen Mary 2. 

Evidente que uma produção ambientada em um transatlântico conhecido mundo afora não escaparia do ‘belo merchan’. Com isso, “Let Them All Talk” apresenta todas as dependências do navio, incluindo, o cassino, a boate, as diversas piscinas, os restaurantes, as luxuosas cabines (temos uma de dois andares!) e até um planetário – de fazer o “Titanic” corar.  O oceano, aliás, vira detalhe e mal chegamos a vê-lo. O diretor de fotografia Peter Andrews (pseudônimo do próprio Soderbergh) deixa esse caráter de tom publicitário claro ao optar pelos planos abertos sempre que possível, dando a dimensão do tamanho e do luxo do Queen Mary 2, sempre com tudo bastante iluminado. 

SURPRESAS DESLOCADAS 

Chama a atenção ver Soderbergh fora do terreno dos filmes de temáticas atuais e com grau elevado de urgência (“A Lavanderia”, “High Flying Bird”, “Contágio”, “Terapia de Risco”, “Che”, “Traffic”) ou aquelas aventuras com tons cômicos (“Onze Homens”, “O Desinformante”, “Logan Lucky”). Em “Let Them All Talk”, temos um diretor mais intimista em que os dilemas internos dos personagens dominam a ação da história e a comunicação atravessada pelas mágoas entre eles marca o roteiro da estreante Deborah Eisenberg. 

Justamente aqui “Let Them All Talk” mostra suas inconsistências com histórias e personagens mais bem desenvolvidas que outras. O desespero de Roberta, vendedora em uma loja de lingeries, por dinheiro a qualquer custo, especialmente, ao se comparar com o sucesso das amigas contribui para a tensão crescente com Alice, culminando na cena em que Candice Bergen rouba o filme de Meryl Streep.  

Por outro lado, chega a ser triste ver Dianne Wiest tão desperdiçada com Susan simplesmente perdida no confronto entre as amigas. Para piorar, a duas vezes ganhadora do Oscar acaba ainda sendo protagonista do pior momento do filme em monólogo sobre estrelas e Elon Musk. Já Lucas Hedges e Gemma Chan até possuem química, são muito bonitos e carismáticos, porém, dão a impressão de que estão em um outro filme que até poderia ter sido interessante, mas, não aqui. 

Acima de tudo, falta a “Let Them All Talk” a complexidade existencialista bergmaniana para dar consistência ao drama ou o cinismo e as tiradas de Woody Allen para gerar uma comédia mais ácida. No meio deste caminho, Soderbergh tenta até manter a sua tradicional engenhosidade em criar narrativas com um certo mistério e surpresas, mas, apenas soam deslocadas pela maneira completamente inesperada que surge. Pode não ser um filme ruim, mas, fica muito longe do talento envolvido. Pelo menos, a viagem foi boa. 

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