Steven Soderbergh é um operário do cinema. Desde a sua estreia na direção de longas, há quase 30 anos (com ‘Sexo, Mentiras e Videotape’), o cineasta tem passeado por diversas vertentes da sétima arte, seja o filme policial (o ótimo ‘Irresistível Paixão’), o remake de filme de roubo (a trilogia ‘Onze Homens e Um Segredo’), a cinebiografia (‘Che’, ‘Erin Brockovich’), ou o noir estilizado (‘O Segredo de Berlim’). Em quase todas as suas investidas cinematográficas, há sempre a vontade de inovar e de fazer do cinemão mais tradicional algo de encher os olhos. Logo, não foi exatamente um choque quando o diretor revelou que “Unsane” (seu projeto mais recente) havia sido filmado em apenas dois dias e exclusivamente com a câmera de um iPhone 7.

Não que isso seja novidade. Há três anos, Sean Baker pôs o pé na porta de Hollywood com o sensível “Tangerine”, filmado com um iPhone 5c (até então, um dos lançamentos mais recentes da Apple). Mas o que o filme estrelado por Mia Taylor e Kiki Rodriguez tinha de sensível e espontâneo, o trabalho de Soderbergh tem de cru. Essencialmente experimental, ele ganha aqui o trato do diretor que também levou às telas filmes como “Full Frontal” e “The Girlfriend Experience”: ou seja, um cinema de sensações, mas não totalmente inacessível.

“Unsane” se refere à jornada de loucura de Sawyer Valentini (Claire Foy), uma mulher que é internada em uma clínica após relatar episódios de pânico ao fugir de um stalker.

A claustrofobia de Sawyer, presa àquela condição, é o playground no qual o trabalho de Soderbergh brinca. Com quadros fechados, ele faz os personagens encararem o espectador, com uma falsa quebra de quarta parede que desconcerta quem assiste ao filme. Um exemplo disso é a cena em que Sawyer conta à psicóloga sobre o stalker e assina o documento que lhe coloca internada: também responsável pela montagem e fotografia de “Unsane”, o diretor não apresenta as personagens frente a frente, mas sim encarando quem está do outro lado da tela, e essa escolha se faz presente em vários momentos do filme.

Aliado a isso, tem-se uma fotografia que abusa de tons neutros, mas sempre pende para o azul (que tem um papel importante no filme, já exposto nos primeiros segundos de projeção) e o amarelo. As duas cores não são por acaso: enquanto o azul tem uma qualidade triste ou até mesmo de pouca conexão emocional, o amarelo pode ser entendido como um sinal constante de alerta.

Apesar de interessante do ponto de vista técnico, o filme não consegue cativar com o que devia ser a chave de seu sucesso, que são os personagens. A despeito do trabalho primoroso de Claire Foy (tão diferente da sisuda Elizabeth de ‘The Crown’), o drama de Sawyer só é mais instigante pela tensão que o filme proporciona. Juno Temple não diz muito a que veio, enquanto Amy Irving consegue alguns poucos bons momentos como a mãe de Sawyer.

Mas, ainda que muitos atribuam isso à produção apressada do filme, é justo dizer que é esse trabalho meio capenga (um capenga gourmet, vá lá) é a cereja do bolo de “Unsane”. Fosse realizado da forma convencional, o drama não seria nada mais que uma nota de rodapé na carreira de Soderbergh, a exemplo do insosso “Terapia de Risco”, tentativa anterior do cineasta de fazer um thriller psicológico. A inquietude impressa em “Unsane” pode não ser o suficiente para colocar o filme entre os melhores do diretor, mas é certo que ela aponta uma nova direção na carreira de alguém que não cansa de criar.

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