Se há algo que sempre foi fascinante nos contos dos irmãos Grimm é a enorme capacidade que eles tinham de integrarem um conjunto de ideias que sempre mexeram com o imaginário infantil. No fundo, os seus contos são fortes na essência por apresentaram uma linguagem universal, sempre adaptável a novos contextos ou paradigmas da sociedade da época em que foram inseridos. O conto clássico da literatura, escrito pelos irmãos, João e Maria é o melhor exemplo destas mudanças. A fonte original da história é repleta de elementos sombrios e um tanto diferente do que conhecemos atualmente – tratado como um lindo conto de fadas que retrata a aventura fantástica de duas crianças. 

Com o horror ganhando um caráter artístico a partir do sucesso gerado por A Bruxa e Hereditário e que ajudou a resgatar o fascínio do público por elementos icônicos do ocultismo a partir do realismo histórico, era de se esperar que alguém em Hollywood sentisse que o conto dos Grimm merecia uma nova oportunidade (e releitura). E aqui entra sua nova versão batizada Maria e João: O Conto das Bruxas: uma reinvenção bem ousada visualmente, mas que jamais esquece os conceitos fantasiosos e surrealistas da história dos Grimm. Entre dialogar com novas temáticas e respeitar as antigas, a impressão é que esta nova versão não deixa de ser um ponto de intersecção interessante.

O próprio título do longa-metragem já revela a sua principal mudança: a perspectiva da história, agora focada em Maria (Sophia Lilis, a Beverly de IT – A Coisa) que guia o irmão João por um caminho sombrio (uma floresta maligna) já que ambos partem de casa em busca de comida e sobrevivência em virtude da escassez de alimentos na vila onde moram. No meio da viagem, encontram Holda (Alice Krige, eterna vilã de filmes hollywodianos), uma senhora que vive isolada em casa sinistra e que oferece abrigo aos irmãos, apresentando intenções estranhas em relação a eles.

POR QUE VALE A PENA?

Há, pelo menos, três motivos para ir ao cinema ver o filme. O primeiro é o exercício de construção de horror e mistério criados através da pura atmosfera de suspense. O trabalho de Oz Perkins (filho do lendário Anthony Perkins, o Norman Bates de Psicose) é visualmente bonito, com destaque para passagens que flertam com homenagens acachapantes a simbologia profana de A Montanha Mágica, de Jodorowsky, além de temáticas inspiradas em  O Bebê de Rosemary e ao citado A Bruxa. Do filme de Polanski, Perkins cultua as semelhanças físicas (os cabelos curtos) e paranoicas entre as personagens de Lilis e Mia Farrow; da obra de Eggers, a jornada de amadurecimento e descobertas de Maria pelo místico é idêntica à de Thomasin.

As escolhas por belas imagens permite que Perkins busque uma linguagem cinematográfica que fuja dos recursos batidos do horror comercial para investir em um senso estético intimista que valoriza os sentimentos de Maria, por meio de ângulos de câmera inusitados e subjetivos, distanciamento da narrativa através de elipses e uma montagem estranha. São estes elementos que ajudam na forte construção de climas dentro do filme. Aqui vale destacar o talento do diretor de aproximar certas cenas dos filmes de terror clássicos, a partir do aspecto sonho e pesadelo com o uso de uma iluminação neon vermelha nas sequências noturnas na floresta e também no uso da trilha sonora que mistura sintetizadores e violinos para evocar sons góticos tenebrosos, deixando as imagens imersas em um horror contemplativo psicológico.

O segundo motivo é o casamento perfeito que Perkins faz entre a direção de arte e a fotografia de filtros escuros de Galo Olivares para criar rimas visuais (sombras e triângulos) que acentuam a narrativa claustrofóbica, além de permitir que Perkins faça uso de enquadramentos centralizados e quadrados – por meio da câmera grande angular e planos subjetivos –  na primeira metade do filme e à medida que Maria vai descobrindo seus “poderes”, a sobreposição do Widescreen ao antigo formato, permite o espectador compreender que o ambiente, antes restritivo, passa a ser confrontado pelo crescimento emocional da personagem.

Neste aspecto, Maria e João revitaliza o conto dos Grimm ao trazer uma questão feminista forte, associada ao protagonismo da mulher e a questão das bruxas e os medos que elas provocam nos homens, onde a emancipação feminina é encarada pela sociedade como reflexo da bruxaria. É interessante o quanto a obra deixa de lado a inocência da obra original – não temos as migalhas de pão e nem a casa de doce – para investir na jornada pela descoberta pessoal de teor subversivo que fala abertamente sobre elementos fantásticos como bruxaria, folclore e ocultismo, ainda que produza situações reais de nossa sociedade atual ao mostrar Maria como uma garota normal, que tem medo de assédio e tem conflitos com a mãe, na qual exige dela, responsabilidades precoces e extremamente incômodas.

Por fim, o terceiro motivo são as atuações de Sophia Lilis e Alice Krige. A jovem intérprete, cada vez mais vem se mostrando uma grande atriz, mesmo em um espaço pequeno de tempo desde que chamou a atenção em A Coisa. A composição de sua Maria cheia de facetas entre a frustração e a coragem é muito bem apresentada pela atriz quando fica inconformada com a misoginia e assédio de um senhor que sugere empregá-la em sua casa em troca de favores sexuais. Krige, cria uma vilã deliciosa e carismática, que sabe explorar o lado ambíguo (entre o amável e o tóxico) de uma figura materna. A atriz já mostrou esse talento no clássico trash de Stephen King dos anos 90 Sonâmbulos e em Terror em Silent Hill.

PEQUENAS FALHAS NO CAMINHO

É uma pena que apesar da mensagem relevante e a sua força visual, o filme não atinja resultados expressivos. O texto é um tanto confuso no modo como coloca a trama no início e fica claro o quanto ele é superficial em tentar explorar a complexidade da abordagem da sua temática ou de personagens – João apesar de ser uma criança fofa e simpática, destoa bastante do embate niilista travado por Helda e Maria. No fundo, falta novidades ou maneiras mais claras e criativas em explorar os caminhos da trama, o que acaba refletindo no ato final convencional, deixando o filme extremamente arrastado nas suas explicações.

Mesmo assim, Maria e João: O Conto das Bruxas ainda é um sopro de eficiência frente as outras adaptações mais recentes como Branca de Neve e o Caçador e João & Maria: Caçadores de Bruxas. Na verdade, comparado com as outras adaptações do conto dos Grimm esta nova versão, por ter um visual esteticamente bem feito, não deixa de ser o verdadeiro rei caolho em terra de cego. Se Oz Perkins não atinge a mesma equação de horror do ótimo A Enviada do Mal (disponível no Netflix), ele, pelo menos, mostra bastante respeito naquilo que os irmãos tornaram popular na literatura clássica.

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