Nos últimos anos, o cinema de horror passou por profundas transformações que permitiram, torná-lo cada vez mais amplo. O próprio conceito do que é horror têm passado por uma espécie de “mutação”, proporcionado novas experiências ao espectador, graças a mistura de diversos subgêneros – filmes que não se encaixam apenas em uma temática, um gender fluid cinematográfico -, deixando seus limites não apenas mais tênues como abrangentes. É fácil notar que há uma leva maior de filmes de terror que fogem dos clichês esperados, ousados pela tomada de caminhos diferentes das convenções e rótulos, como os recentes A Bruxa, Corrente do Mal, O Convite, The Blackcoat´s Daughter, mãe!, Ao Cair da Noite e Corra!.

Na verdade, o chamado “Pós-horror” não passa de uma nomenclatura de mercado, afinal o que se vê na safra recente de filmes, é apenas o bom e velho terror naquilo que ele tem de melhor: um leque de imagens assustadoras, com suas alegorias sobre o medo que quando dialogam, com nosso contexto atual, de certa forma, ampliam a subversão de suas ideias para oferecer algo além do susto barato. E se há um filme que melhor sintetiza este olhar revisionista sobre o horror no cinema independente americano que presenciamos atualmente, é Hereditário do estreante Ariel Aster.

Produzido pela A24, produtora de A Bruxa e A Ghost Story, que vem se revelando uma concorrente interessante da BlumHouse no segmento de terror, Hereditário é um típico trabalho engenhoso, higienizado e calculado para agradar tanto o fã tradicional de terror ávido pelo desejo de ter seu medo saciado pelos clichês de gênero, através de momentos assustadores – a técnica do jump scare – dignos de um Invocação do Mal, como também acalentar o fã raiz que espera uma obra que desafie o horror tradicional e o conecte ao atmosférico, da força das imagens, que impacta na proposta por meio das suas alegorias simbólicas e que dispõe a se arriscar narrativamente.

Aster no seu debut cinematográfico, parte de um pressuposto básico narrativo: Annie Graham (Toni Collette) é uma artista que projeta modelos de miniaturas, casada com o pacato e compreensivo Steven (Gabriel Byrne) e mãe de Peter (Alex Wolff), um típico adolescente, e da estranha Charlie (a revelação Milly Shapiro), garota com passatempos estranhos de um Hannibal Lecter. Os Grahams, depois de perder sua matriarca, a avó materna reclusa e cheia de segredos, entra em um processo de degradação mental e fatos estranhos passam a rodar a casa da família.

Vamos estabelecer uma das verdades sobre Hereditário: na sua essência narrativa, é um filme sobre o medo, sobre o estado de inquietação e paranoia frente a disfuncionalidade familiar em lidar com a perda. Como o seu próprio título indica, o roteiro de Aster envereda pelo horror simbólico, de evocar a nossa herança familiar de emoções trágicas, onde a angústia da maternidade e das relações familiares turbulentas funcionam como DNA maldito, da qual, o horror externo estimula a genética de força maligna que existe dentro de nós, como a loucura e o medo.

Por isso, está profundidade das explorações das emoções humanas, incomoda pelo estado nebuloso do seu terror psicológico, que de tão sufocante, transforma suas imagens em um absoluto pesadelo. Da primeira imagem, da janela de uma casa da árvore, que se direciona para uma maquete que ganha vida, Aster habilmente deixa claro que seu filme é uma tentativa de controlar o universo a sua volta – as maquetes e miniaturas de Annie temporizam estas ações – ainda que insuficiente, afinal não há como escapar do mal, infiltrado entre as gerações de mulheres da família Graham, um toque predominante feminino ao filme principalmente porque Steven e Peter, os homens da família, são meros fantoches, frente a disputa de poder entre avó, mãe e filha.

Hereditário ecoa nos seus 120 minutos de duração, uma complexidade interessante, por ir do cinema clássico – da década de 70 é o mais perceptível – ao contemporâneo com desenvoltura, ainda que esta situação, de apresentar diversas abordagens, também signifique as virtudes e problemáticas do longa. A qualidade reside na direção segura e elegante de Aster, que estabelece um ritmo inquietamente estranho ao público, uma montanha-russa de sensações, que impulsiona o longa-metragem para o bizarro e o cômico.

É claro que nada deste horror minimalista não teria sua força, sem atuação magistral de Toni Collette, que reflete as angústias e incômodos de sua Annie, uma interpretação semelhante a de Mia Farrow no clássico O Bebê de Rosemary, porém, com uma diferença: Toni tem uma personagem mais ingrata em mãos, uma mãe instável, nada agradável e que confessa não ter desejado um dos filhos durante a gestão. Só que a atriz dribla uma possível antipatia que o espectador possa ter com ela, por meio de uma dramaticidade fortemente crível que opera muito bem no limite do sofrimento e do histriônico. O duelo entre ela e o filho, um excelente Alex Wolff, na cena do jantar, revela o seu talento de como utilizar o drama para criar tensão e perturbação. A grande pergunta é: Collette também será esnobada pela Academia de Hollywood como aconteceu com James McAvoy, ano passado em Fragmentado?

Vale ressaltar, que por mais que goste de como Ariel Aster, constrói a dramaticidade e psicologia dos seus personagens, no primeiro ato do filme, semelhante aos trabalhos do genial Jacques Tourneur na década de 40 e 50, a mudança de tom, em um segundo momento, calado no toque mais sobrenatural, causa uma sensação de estranhamento, deixando o filme, um pouco problemático.

Se por um lado, o flerte do seu autor com o ocultismo e o fantástico se revela ótimo, sua execução de querer “ser muito mais que um filme de horror” se perde em algumas prepotências e exibicionismos do texto em querer transcender o gênero. Falta o equilíbrio na narrativa, de consolidar e explorar melhor, o limite entre o arco dramático do primeiro ato com o protótipo do terror mais convencional que ele assume no segundo momento.

Essa falta de harmonia não impede, que visualmente, na sua reta final, Hereditário funcione como um filme que assombra, através das suas imagens, trilha sonora e no uso inventivo de profundidade de campo nas suas composições de cenas – aquela que Peter está deitado e o espectador percebe que há alguma coisa na penumbra ao lado da sua cama, é de gelar a espinha – como um aterrorizante e perturbador filme, que sufoca o público. As comparações de ser o novo O Exorcista ou O Bebê de Rosemary parecem calhar mais pelo impacto que o filme provoca pelas suas imagens do que pelas semelhanças entres eles.

No caso, o filme de Ari Aster é muito mais próximo do clássico cult de Nicholas Roeg, Inverno de Sangue em Veneza pela temática de famílias destruídas pelo luto e a dor e que precisam lidar com situações demoníacas que fogem da realidade física. Hereditário é a prova fílmica que o cinema de terror pode agradar diferentes tribos, apresentando um horror que sintetiza o momento inspirado que o gênero atravessa no cinema, principalmente por incrustar imagens e sentimentos aterrorizantes em nossas mentes.

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