No final de abril de 2015, o Cine Set confirmou a chegada de um projeto permanente de cinema alternativo, de arte, na cidade. A rede Cinépolis, que deu o pontapé no projeto partindo inicialmente da Região Nordeste, encontrou na capital amazonense uma grande lacuna, uma vez que a cidade, que conta exclusivamente com cinemas em shopping centers, não possui há décadas nada que lembre um cinema do tipo, fora os cineclubes.

O projeto Cinema de Arte começou como uma espécie de “mostra-piloto” em Manaus. Filmes como o brasileiro “Permanência”, de Leonardo Lacca, o argentino Relatos Selvagens, de Damián Szifron, ou o premiado polonês “Ida”, de Pawel Pawlinoski, tiveram sua chance de exibição, espremidos entre os blockbusters, nos horários de 15h30 e 19h30.

Logo depois da mostra, o Festival Varilux de Cinema Francês ocupou as salas do Cinépolis. Com a parceria com a Aliança Francesa e a presença massiva dos alunos da instituição, o Varilux não necessariamente apoiou o cinema de arte, equilibrando as obras selecionadas dentre comédias leves e populares e outros filmes de pretensão mais “cabeça”, tais como “O Diário de uma Camareira“, de Benoît Jacquot, ou “De Cabeça Erguida“, de Emmanuelle Bercot. O ponto mais forte foi o fato de se ver novamente uma variedade maior de filmes e (pasmem!) o fato de que eles não eram dublados. Ao final do festival, pode-se novamente ver com saldo positivo a iniciativa ao flertar com a formação de público e uma preocupação que sim, é mercadológica, mas que não excluiu de todo o fator cultural da questão.

De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

“De Cabeça Erguida” foi um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês esse ano em Manaus.

O Cinema de Arte daqui pra frente em Manaus

O filme polonês “Ida” é o próximo filme na programação do projeto Cinema de Arte em Manaus de maneira definitiva nesta quinta-feira (25). Bom? Sem dúvida. Mas estranho, uma vez que o filme já havia sido exibido na mostra-piloto duas vezes e ter estreado no Brasil em 27 de dezembro de 2014. Vale lembrar que a proposta inicial do projeto previa que, a cada semana, um filme novo seria exibido nesse horário especial, de maneira que o projeto já começa em certo desacordo, uma vez que o documentário “Cássia”, de Paulo Henrique Fontenelle, também já foi reprisado.

Apesar de serem filmes importantes, o retorno de “Ida” e “Cássia” deixa sem espaço importantes produções alternativas lançadas nas últimas semanas no circuito nacional. Obras atuais significativas como o turco ganhador da Palma de Ouro de 2014 “Sono de Inverno“, de Nuri Bilge Ceylan, os brasileiros “Sangue Azul“, de Lírio Ferreira, e “A Estrada 47“, de Vicente Ferraz (que chegou a passar em maio em Belém, aqui ao lado), e a co-produção Argentina-Brasil-França “Jauja”, de Lisandro Alonso, ainda não viram a luz do dia na cidade. Para citar só mais um, “Adeus à Linguagem”, de Jean-Luc Godard, estreia dia 30 de julho no Brasil.

A Estrada 47

O vencedor do Kikito de Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival de Cinema de Gramado 2014, “A Estrada 47”, foi exibido em Belém (PA) em maio.

Se a trajetória histórica da cidade aponta na direção de uma possível repetição e depois sumiço desses filmes (afinal, por que já estão repetindo assim, logo no começo de tudo?), não é isso que afirma Pedro Martins Freire. O jornalista e crítico de cinema foi um dos curadores responsáveis pela mostra que antecedeu o projeto, além de ser o curador do Cinema de Arte no Nordeste do país. “‘Ida’ foi o filme mais premiado em 2014 e 2015, com mais de 60 prêmios. O filme fez parte da mostra que lançou o Cinema de Arte aí em Manaus e retorna para ser melhor apreciado”, explicou.

Além disso, ele informou que a programação do Cinema de Arte para Manaus está sendo detalhada, com alguns filmes já certos para aportarem na cidade. Já é certeza que o francês “Um Amor em Paris”, de Marc Fitoussi, seguirá “Ida” nessa programação. “As estreias estão dependendo da aceitação dos filmes pelos cinéfilos daí. Cássia Eller, por exemplo, pensávamos que ficaria cerca de umas 3 semanas e só ficou uma porque a frequência foi aquém do esperado. Em Natal e João Pessoa, por exemplo, ficaram 3 semanas”, afirmou Freire, apontando para um item de essencial necessidade para que o projeto não morra na praia: o público. Mas novamente, vem a questão: o projeto não era para passar filmes de arte diferentes a cada semana?

O Conto da Princesa Kaguya

A animação japonesa “O Conto da Princesa Kaguya” é o destaque da programação vindoura do Projeto Cinema de Arte em Manaus.

Além dos filmes já citados, os franceses “Meu Verão na Provença”, de Rose Bosch, “Em um Pátio em Paris”, de Pierre Salvadori, e “3 Corações”, de Benoît Jacquot, além do japonês “O Conto da Princesa Kaguya”, de Isao Takahata, estão entre os confirmados, ainda que sem data já estabelecida.

Alternativas para sobrevivência

Através de parcerias com a Aliança Francesa local e com a agência de comunicação manauara Calm, o Cinema de Arte busca hoje formas de garantir sua permanência na cidade. Além destas, parcerias com escolas, universidades e faculdades podem potencializar a ida dos estudantes aos filmes em sessões com preços diferenciados, além da organização de debates dos filmes após as sessões dos sábados. Esse tipo de atividade já é vislumbrado por Pedro Martins Freire também em Manaus. “Essas parcerias já são feitas em Fortaleza desde 1994 e são um sucesso, pois também promovem outro efeito: abrem espaço para que os historiadores, psicólogos, historiadores, professores etc. possam conversar com o público e os estudantes. Essas ações devem vigorar a partir do segundo semestre em Manaus”, explicou Freire.

Outra alternativa para tentar fidelizar o público é não permitir que ele se perca na programação diferenciada do Cinema de Arte, cujos filmes não ficam em cartaz com a mesma periodicidade dos demais. Para isso, Freire também informou que, a partir de julho, o projeto contará com uma newsletter especial para os frequentadores que ingressarem no site www.cinemadearte.com.br e registrarem ali seus e-mails. “A programação semanal e os filmes a seguir já estão postados, com todas as informações, incluindo os respectivos trailers”.

Voltar ao passado, mas não repetir seus erros

Passado esse primeiro sopro, com a Mostra Cinema de Arte e o Festival Varilux, o momento atual é decisivo para consolidar a mudança de mentalidade das redes de cinema para com o público manauara. Detalhemos o motivo: primeiro, voltando um pouco no tempo, é importante recordar que não houve uma edição do Festival Varilux em 2014 em Manaus. Em parte, a formação de público na cidade se deformou para o direcionamento quase que exclusivo às comédias brasileiras ou blockbusters dublados, minando o interesse em trazer a mostra para essas bandas.

Em segundo lugar, a deformação citada também se mostrou de forma explícita com a extinção do projeto Cine Cult, da rede de cinema Cinemark, anos atrás. O projeto, que no resto do Brasil completa em sete anos em 2015, foi colocado em Manaus em horários quase impraticáveis para seu público-alvo, resultando em sessões com “alguns gatos pingados” e, posteriormente, com o seu sumiço da programação da rede, que passou então a privilegiar (adivinha?) filmes dublados e filmes americanos em geral.

Cine Guarany, em Manaus

O Guarany é um dos “finados” cinemas de rua de Manaus.

Em terceiro lugar, ao ampliarmos ainda mais esse quadro numa linha temporal, o sumiço do cinema de arte volta no tempo até os anos 1980. Antes disso, os cinemas de rua abrigavam tanto os grandes lançamentos da época como filmes europeus obscuros, conforme Márcio Souza relembrou em entrevista ao Cine Set.

Porém, com a chegada dos anos 1980, os prédios que abrigavam os cinemas de rua foram demolidos ou viraram lojas e outros empreendimentos, num processo de total apagamento histórico e cultural, algo, aliás, muito típico de Manaus como um todo. Assim partiram dessa pra melhor cinemas como o Odeon, Politeama, Avenida e Guarany. Para quem quiser se aprofundar nessa história, obras como “Hoje Tem Guarany!”, dos professores Selda Vale da Costa e Narciso Lobo, e “Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60”, de José Vicente Aguiar, podem ser interessantes, dentre outras.

E por que falar de tudo isso e voltar tanto no tempo? Para apresentar a fundamentação para o fato de que, em termos de cinema enquanto estabelecimento cultural, Manaus vem desandando desde muito tempo. Tivemos iniciativas interessantes, que desapareceram por imposição de um mercado e, posteriormente e em menor escala, também pela omissão daqueles que poderiam fortalecê-las. É por isso que precisamos ficar de olhos bem abertos para as mudanças que atualmente se mostram a favor da cinefilia na cidade.

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