“Desde o lançamento de ‘O Resgate do Soldado Ryan’, passando por Interestelar e agora ‘Perdido em Marte’, os Estados Unidos gastaram uma quantia absurda de dinheiro tentando recuperar Matt Damon”, postou um internauta quando da estreia do novo filme de Ridley Scott. O post viralizou, chegou a quem vos escreve e, apesar do tom obviamente cômico, ele não está muito longe da verdade: com uma indústria cinematográfica respirando pela boca há algum tempo e a falta de superastros bancáveis, Matt Damon será salvo sempre que quiser. O americano é bom ator, bonito, tem carisma de sobra, uma aura sóbria e excelentes relações tanto com o mundo mainstream (Christopher Nolan) quando o independente (Steven Soderbergh).

É ele quem domina as duas horas e vinte de projeção de “Perdido em Marte”, mas provavelmente não da maneira como você imagina: vendido como uma mistura de “Apollo 13” com “Náufrago”, o filme não é uma coisa nem outra. Sim, o astro passa boa parte desse tempo sozinho, mas nunca o suficiente para acreditarmos que esse longa pertence a um indivíduo só.

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Pelo contrário, ao mesmo tempo em que acompanhamos a história de Mark Watney (Damon), presumido morto e abandonado em Marte, em sua busca de voltar para a Terra, as ações da Nasa e da equipe de astronautas lidando com o seu resgate ganham um fortuito destaque, contando com um elenco de apoio invejável (Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels e Chiwetel Ejiofor, para citar alguns). Já que estamos falando dele: pontos para o casting variado que, em tempos de falta de diversidade em Hollywood, apresenta um grupo de cientistas das mais variadas etnias e nacionalidades.

No meio desse talento, o maior feito de Damon, bem como do roteirista Drew Goddard, foi achar o humor numa situação tão adversa quanto ficar preso num planeta hostil. Mark, no final das contas, é um otimista e um homem que tem uma fé inabalável na ciência, rindo de cenários desesperadores e, assim, nos envolvendo cada vez mais na trama. O filme está lotado de frases de efeito genuinamente engraçadas que, combinadas com a edição de Pietro Scalia, tornam-no o filme com as piadas mais inusitadas do cinema mainstream desde “O Lobo de Wall Street” (sem o humor negro, claro).

O tom, a edição, os cenários, enfim, tudo parece mirar direto na criança interior da plateia – a mesma criança que amou “Guardiões da Galáxia”, por exemplo – e, apesar de não ter um climão de filme B oitentista em nenhum momento, “Perdido” é uma baita aventura espacial que, como “Guerra nas Estrelas” antes dele, abre mão da exploração psicológica da viagem no espaço por uma boa dose de adrenalina (pense numa versão cafeinada e desprovida de “ennui” de “Lunar”).

Boa parte desse encanto vem de Goddard, roteirista que tem background extenso no mundo nerd/fantástico, tendo dirigido a grande homenagem ao “cinema podrão” “O Segredo da Cabana”, desenvolvido a série baseada no herói Demolidor para o Netflix e escrito episódios para séries como “Buffy, a Caça-Vampiros” e “Lost”. Suas conexões com Joss Whedon e J. J. Abrams não são à toa, já que Goddard é o mais novo na escola de diretores e roteiristas que trazem frescor à cultura nerd e a levam para o mainstream sem diluir sua essência.

O resto do trabalho fica nas mãos do veterano Ridley Scott, que entrega aqui seu filme mais satisfatório desde “Os Vigaristas” (2003). Com seu domínio de ficção científica, Scott abusa de grandes tomadas aéreas (que ficam incríveis em 3D) e faz excelente uso da câmera na mão energética que o protagonista carrega consigo em vários momentos do filme.

Ridley Scott: arte + comércio

Ainda que este autor não odeie tanto “Prometheus” (2012) e “O Conselheiro do Crime” (2013) como a maioria das pessoas, é impossível dizer que não eram filmes falhos, cheios de ressalvas e, no fundo, oportunidades perdidas. Scott compensa de sobra com o ritmo de “Perdido em Marte”, nos dando o prazer de ver um diretor retornar a um território conhecido com tanta maestria e conhecimento de causa. Se qualquer percentagem do empenho do diretor aqui resvalar em suas já infames sequências de “Prometheus”, teremos o potencial de clássicos. É esperar pra ver.