Só uma coisa surpreende em A Garota no Trem, suspense com tintas fortíssimas de melodrama que chegou aos cinemas de Manaus nesta semana: que Emily Blunt tenha investido tamanho esforço e inspiração no papel da protagonista Rachel Watson, numa obra que claramente não os merecia.

Baseado no romance de estreia de Paula Hawkins, lançado em 2015 e sucesso instantâneo nas livrarias, A Garota no Trem se beneficia da fenda aberta no mesmo ano por Garota Exemplar, o corrosivo filme de David Fincher sobre o papel (ou as imposturas) da mulher na sociedade atual. Porém, onde as ações da sociopata Amy Dunne (Rosamund Pike) traziam questionamentos incisivos sobre patriarcalidade, subjugação feminina e modelos pré-estabelecidos – além de pintar com cores sombrias as relações conjugais –, o filme de Tate Taylor (Histórias Cruzadas) traz pouco mais que histrionismo, estereótipos e uma monótona previsibilidade.

A premissa, vá lá, é intrigante: Rachel é uma mulher (e cabe questionar, aqui, o fato dela se referir a si própria como garota, uma palavra que denota imaturidade e falta de autonomia) cuja rotina está invariavelmente ligada ao trem que ela pega todos os dias, a caminho do trabalho: no trajeto ficam não apenas o ex-marido, Tom (Justin Theroux, de Cidade dos Sonhos), que tem uma pacata vida doméstica ao lado da nova esposa, Anna (Rebecca Ferguson, de Missão Impossível: Nação Secreta) e a filha – bem diferentes da que ela própria viveu, por sofrer com o alcoolismo e não conseguir engravidar –, como também um casal (Megan, vivida pela promissora Haley Bennett, e Scott [Luke Evans, de O Hobbit]), a quem ela observa todos os dias, e que lhe parecem ser a encarnação do seu ideal romântico: jovens, vivazes, apaixonados e sexualmente bastante ativos. Um dia, porém, algo muda na relação entre Megan e Scott e, na indignação de Rachel, um ato terrível pode ter sido cometido contra a jovem. Sua busca por entender o desaparecimento da mulher, e por descobrir a sua própria participação nele, em meio à névoa do álcool, será o mote do restante da história.

Emily Blunt em A Garota do Trem

Eis o que o filme pode oferecer de interessante: a engenhosa construção do conflito, alternando entre os pontos de vista das três protagonistas (Anna também tem um papel importante na trama) e a atuação espantosa, pela convicção e empenho (e também pela dedicação a um material tão… novelesco) de Emily Blunt. Antes relegada a papéis de mulherão, a atriz inglesa tem hoje uma das carreiras mais interessantes do cinema mainstream, alternando entre superproduções como O Caçador e a Rainha do Gelo (2016) e trabalhos desafiadores como Sicario: Terra de Ninguém (2015). Sua construção de Rachel como uma pessoa simultaneamente frágil e decidida, e tão ou mais ambivalente em seus relacionamentos, além do retrato denso e corajoso do alcoolismo, elevam a obra acima do padrão “Tela Quente” que o roteiro e a direção teimam em tangenciar.

Não se pode dizer o mesmo do restante do elenco: Bennett aproveita as maiores oportunidades de seu papel e ganha destaque ao lado de Blunt; Rebecca não tem o mesmo espaço, mas defende o que lhe cabe com sobriedade e convicção; já Theroux está fraquíssimo, caricato e careteiro como Tom, sobretudo no clímax do filme; e o psicólogo Kamal (Édgar Ramírez, de Caçadores de Emoção: Além do Limite) é uma presença apagada, com o irritante adicional de ser uma espécie de “autoridade” masculina, a quem as mulheres do filme recorrem por aprovação.

Mais do que a irregularidade do elenco, o tom de televisão ruim da direção de Taylor, ou o uso exagerado de flashbacks didáticos, o que marca A Garota no Trem como uma decepção é o suposto – e algo falso – viés feminista que o filme assume. Pode-se elogiar o fato da produção ser sobre mulheres, e adaptada do romance de uma autora – ambas escolhas louváveis, num meio e veículo ainda tão contaminados pelo patriarcalismo.

Mas, diferentemente de Garota Exemplar, da série Jogos Vorazes (2012-15), de O Lobo Atrás da Porta (2013), de Jovens Adultos (2011) e até mesmo de Frozen: Uma Aventura Congelante (2013), entre outros filmes recentes com grandes protagonistas femininas – para não falar no próprio Sicario, de Blunt, e vários outros exemplos animadores recentes –, A Garota no Trem cai em todas as armadilhas sobre as quais a cartunista Alison Bechdel nos alertou em seu famoso teste: as tramas todas giram, no fim das contas, em torno dos homens com quem as protagonistas estão romanticamente envolvidas; Rachel demonstra interesse por um homem grosseiro e potencialmente abusivo; a Rachel de Blunt é uma mulher desequilibrada, que “ama demais”; a Anna de Ferguson é uma esposa e mãe obediente e sempre à disposição para quando o tesão de Tom bater; e a Megan de Bennett é a manic pixie dream girl tornada manipuladora e desleal, como a Summer de Zooey Deschanel em 500 Dias com Ela (2009); entre outros tristes estereótipos de misoginia internalizada. Os homens são igualmente rasos – à fraca exceção do psicólogo vivido por Ramírez, os personagens masculinos de relevo na história são abusivos, manipuladores e violentos, sem lugar para meios-tons.

Emily Blunt em A Garota do Trem

Um triste saldo, afinal, para o que parecia ser o início promissor de uma linhagem de suspenses que colocam os padrões impostos às mulheres e o seu questionamento como o tema principal. Não, não se trata de um novo Garota Exemplar – você será muito mais feliz indo direto à fonte.

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