“Nick Dunne matou a esposa?”. Se a história de Garota Exemplar realmente acontecesse no nosso mundo e fôssemos espectadores assistindo ao desenrolar dos seus acontecimentos através da mídia, essa seria a pergunta mais presente em nossas mentes. E a maioria de nós tenderia a responder a essa pergunta com um sim. Quando o filme começa, Nick (Ben Affleck) sai de casa, vai ao bar administrado pela sua irmã Go (Carrie Coon) e os dois conversam um pouco e fazem piadas sobre o quinto aniversário do casamento de Nick com sua esposa Amy (Rosamund Pike).

Mais tarde, ele volta para casa e Amy ainda não voltou. Há móveis quebrados na sala e pequenas manchas de sangue. Nick chama a polícia. Ao ser questionado, ele afirma não saber o que a esposa faz o dia inteiro nem se ela tem amigos. Ele nem sabe o tipo sanguíneo dela. Mais tarde, quando ele e seus sogros chamam a imprensa para comunicar o desaparecimento de Amy, Nick sorri – a pedido dos fotógrafos – ao lado do enorme cartaz de “Procura-se” com a foto da mulher. O ponto é que ele não parece muito preocupado…

O que aconteceu com ela? Parece um mistério igual àqueles que já nos acostumamos a esperar do diretor David Fincher, criador de Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), Zodíaco (2007) e Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011). Porém, a exemplo destes filmes, Garota Exemplar também surpreenderá o espectador, levando-a a caminhos não imaginados pela simples visão do trailer ou por uma sinopse. Baseado no livro de Gillian Flynn, também autora do roteiro, este é um filme sobre aparências e como elas não são confiáveis. Só podemos confiar no diretor e sua visão tradicionalmente fria e analítica das situações que ele põe na tela. Fincher disseca o casamento dos dois da mesma forma que os assassinatos de Seven e a investigação de Zodíaco.

Pela primeira metade do filme temos acesso a trechos do diário da desaparecida. Amy Elliott Dunne conheceu Nick numa festa e de cara formaram o “casal perfeito”. Ela era linda, filha única e nova-iorquina, e talvez por isso mesmo seja vista com antipatia (merecida?) por muitos. Era também autora de uma popular série de livros infantis com a personagem “Amy Exemplar”. Nos livros, claro, vê-se uma versão idealizada da infância de Amy.

Porém, sempre há um pano de fundo sombrio na história. Mesmo a cena do primeiro beijo entre Amy e Nick, com ela sendo borrifada pelo açúcar de uma confeitaria próxima, já parece soturna na visão de Fincher e do seu sombrio diretor de fotografia Jeff Cronenweth – coberta pelo pó branco, Amy já parece morta naquele momento…

Então vem a convivência, com o casal se mudando para o Missouri e o romantismo do começo sendo destruído pouco a pouco. “Casamento é trabalho duro e depois mais trabalho”, diz a garota exemplar no seu diário, e quando ela desaparece ficamos com a sensação de que a bomba-relógio da relação entre os dois finalmente explodiu.

Fincher, como sempre, quer provocar e perturbar a plateia. Por isso lança mão da já mencionada fotografia de Cronenweth ou da trilha sonora eletrônica de Trent Reznor e Atticus Ross, seus colaboradores desde A Rede Social (2010) – o estranho pano de fundo musical adiciona à tensão da história. No entanto, é na sua visão sobre a mídia e seu apetite por sensacionalismo e histórias picantes que Fincher concentra o seu foco.

É de praxe: somos rápidos para julgar e condenar, ainda mais agora na era da informação. Assim, enquanto Nick se vê cada vez mais alvo de suspeitas da polícia e, à medida que a história atinge repercussão nacional, vemos a sua vida ser pega pelo furacão da mídia. Bastam algumas distrações, como o sorriso de Nick ao lado da foto de Amy, ou a impensada foto que ele tira com uma “fã”, para torna-lo vilão aos olhos do grande público. Porém, o personagem guarda algumas cartas na manga e ao longo do filme, percebe que essa batalha será travada junto à própria mídia – e Affleck, cada vez melhor como ator, conquista a empatia do publico e ao mesmo tempo preserva alguma suspeita indefinível na sua interpretação, para manter esse mesmo publico na dúvida.

Embora todos os atores no filme estejam excepcionais – da irascível Coon como Go, à detetive sem papas na língua de Kim Dickens, até à inteligente performance de Tyler Perry como o advogado Tanner Bolt e ao ultra-esquisito Neil Patrick Harris – a mais incrível interpretação em Garota Exemplar é Rosamund Pike. Ela, como a própria narrativa de Fincher, surpreende o espectador. Viver Amy foi um desafio sem dúvida físico – a atriz ora aparece mais magra, ora mais cheia durante a história – mas ela impressiona por aproveitar ao máximo os vários estados emocionais que Amy lhe oferece. No papel, Pike consegue ser bonita, feia, terna, assustadora, fria… E é graças a ela que o filme se transforma de um suspense para uma quase sátira, quase uma comédia de humor negro retratando uma visão mordaz do casamento.

Ao final, temos o quadro completo ao vermos a visão de Nick e a de Amy para o seu relacionamento. A detetive vivida por Dickens diz que “nunca acreditou no clichê de que a resposta mais simples sempre é a correta”, e essa noção é perdida quando emitimos julgamentos rápidos sem análise, quando confundimos suspeita com comprovação. Aqueles do lado de fora nunca sabem com certeza o que se passa entre um casal – às vezes nem eles mesmo sabem. O aspecto mais fascinante de Garota Exemplar é a forma como aquela pergunta inicial – “Nick matou a mulher?” – se transforma em algo mais perturbador e profundo. Ao final, o espectador se pega compreendendo uma nova e mais assustadora pergunta na mente de Nick: “Quem realmente é esta pessoa com quem me casei?”. E no tocante à pessoa com quem escolhemos dividir nossas vidas, quantos de nós conseguem responder de verdade a essa pergunta?