O público mais jovem não deve se lembrar da aventura-policial Caçadores de Emoção, protagonizada por Keanu Reeves e Patrick Swayze na década de 90. A produção não apenas consolidou o gênero do cinema macho alfa da brodagem (similar a Top Gun) como mostrou uma história simples de gato e rato, na qual o conflito moral entre herói e bandido era o ponto principal da trama. Curiosamente este filme de “homens” foi dirigido com talento e ousadia por uma mulher, Kathryn Bigelow hoje famosa por ser a única do sexo feminino, a faturar o Oscar de melhor direção por Guerra ao Terror em 2010.

Mesmo longe de ser um sucesso de bilheteria, o filme tornou-se cult com o passar do tempo servindo de inspiração para outras produções, uma delas a multimilionária franquia Velozes & Furiosos, uma cópia não assumida do original, principalmente na estrutura narrativa com personagens, tramas, reviravoltas e conflitos semelhantes, mudando apenas o esporte radical para os rachas de carro.

Por isso, era mais do que esperado que Hollywood mantivesse a velha tradição de lucrar em cima do filme original por meio de um remake. Eis que vinte e cinco anos depois, surge a nova versão de Caçadores de Emoção com o subtítulo Além do Limite, totalmente turbinada e repaginada, feita nos moldes de um programa de esporte radicais, mas que comete um erro capital: Não consegue captar a emoção do espírito aventuresco e delicioso do original. Sem querer ser saudosista ou achar que apenas os filmes realizados na década de 80 e 90 prestavam, seguem dois pontos de comparação que ilustram as desvantagens desta nova versão perante ao filme original:

As Imagens versus a História

É inegável que um dos pontos positivos de Além do Limite, são as imagens acachapantes filmadas pelo estreante Ericson Core (diretor de fotografia do primeiro Velozes & Furiosos). Ele obtém resultados interessantes por meio de tomadas áreas e na forma em que filma as sequências dos esportes radicais. Neste quesito técnico o uso do 3D e da ótima fotografia ganha um tratamento impecável, deixando de lado a computação gráfica para valorizar a estética mais documental, próxima das Câmeras GoPro, ainda que o uso delas não tenha ocorrido nas filmagens.

Há dois momentos visualmente interessantes: o primeiro na cena da escalada na montanha que utiliza o 3D com eficiência para gerar a sensação de vertigem. A outra é um mergulho noturno, quase um balé submerso de filtros azulados que aproxima muito o remake da estética cafona-brega da década de 80. É uma pena que o visual requintado é o único destaque do filme, até porque o roteiro de Kurt Wimmer (responsável pelo ordinário Ultravioleta) enfraquece a qualidade da produção em razão da superficialidade para construir os conflitos morais e arcos dramáticos do filme, quase nulo em desenvolver a relação entre os personagens ou até mesmo em criar um elo emocional deles com o expectador. A dupla de atores, Luke Brancey e Edgar Ramirez até se esforçam, mas com personagens sem carisma é complicado.

Um Remake hiperbólico

O original é o produto da época de 90, que remodelou a old school dos filmes policiais clássicos dentro de uma embalagem moderna e radical, um respiro saudável ao gênero. No novo Caçadores de Emoção a premissa é quase a mesma: O ex-atleta Johnny Utah (Luke Bracey) é um jovem agente do FBI que tenta resolver uma série de crimes realizados por um grupo especialista em esportes radicais, comandado por Bodhi (Edgar Ramirez). A pretensão em hiperbolizar a trama já é evidente na própria essência do filme, onde temos a cada intervalo de dez minutos, sequências de ação que convergem para um ritmo frenético, mas que apenas escancaram as suas fragilidades na forma de contar a história.

Neste sentido, o original tinha a praticidade de saber nos envolver na premissa simples, aprofundando a trama policial repleta de dilemas morais – altamente identificáveis junto ao público – oferecendo a ação de modo equilibrado nos momentos cruciais do filme como a ótima perseguição entre Swayze e Reeves entre casas e becos de Los Angeles. Estes elementos em nenhum momento são reproduzidos com a mesma qualidade nas cenas deste remake. Até o contexto subversivo e policial do original (a gangue de Bodhi utilizava máscaras de ex-presidentes americanos) perde-se no novo, ganhando um caráter ecológico-espiritual sem carisma que tira toda justificativa do Carpe Diem da adrenalina que movia os personagens originais.

Por isso, se a produção de 90 acertava por oferecer um novo escopo ao cinema policial de ação, a nova versão infelizmente escolhe um caminho contrário: coloca as imagens e a ação como protagonistas, deixando a emoção dos conflitos, dilemas morais e personagens em segundo plano. Estranhamente imita a fórmula genérica de Velozes & Furiosos que por sua vez é uma cópia do filme original, o que mostra a importância dele para o gênero.

Em outras palavras, sobra neste remake belas imagens, mas falta a conexão emocional de envolver o público com a história contada. É apenas uma reatualização empalidecida filmada em formato de documentário sobre esportes radicais, mas que reflete num produto emocionalmente artificial de um filme cultuado. Conselho de amigo? Vá assistir ao original como forma de prestar uma bela homenagem póstuma ao finado Patrick Swayze.

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