Qual é o fascínio dos assassinos em série (serial killers, na famosa expressão em inglês)? Em uma cena do seriado Mindhunter, da Netflix, vemos dois agentes do FBI conversando com um assassino em série encarcerado, num clima descontraído, os três dividindo uma pizza. A cena adquire tons sinistros justamente por essa proximidade, pelas revelações que o sujeito expõe aos agentes sobre seu método, suas atividades e a sua própria visão de mundo. A impressão que se tem que é os agentes – e nós também, os espectadores – poderíamos passar horas ouvindo-o.

A série – do criador Joe Penhall, baseada no livro de John Douglas e Mark Olshaker, e que tem entre sues produtores o cineasta David Fincher – se aproveita desse nosso fascínio, mas também não se esquece de questioná-lo. Fincher é, em si, responsável em grande parte por esse fascínio, graças às suas obras-primas Se7en (1995) e Zodíaco (2007). Mas se Zodíaco já trazia em seu cerne o desejo de questionar essa fascinação, em Mindhunter – da qual Fincher dirige quatro episódios desta temporada, os dois primeiros e os dois últimos – essa noção é até amplificada. O assassino do Zodíaco virou lenda, algo maior que a vida, e o longa de Fincher não deixava de ser uma exploração do porque isso aconteceu. Já em Mindhunter, os crimes são mais comezinhos, banais, e os assassinos falam sobre si mesmos, o que os expõe.

É uma série policial, sim, mas essencialmente sobre comunicação. Na cena inicial vemos o jovem agente do FBI Holden Ford (vivido pelo ótimo Jonathan Groff, da série Looking e do telefilme The Normal Heart) tentando negociar numa situação de reféns. Ford e o criminoso que tem uma mulher sob a mira de uma arma estão longe um do outro, e a câmera de Fincher estabelece a distância. A comunicação é impossível, a não se que eles se aproximem, é como se o seriado já quisesse nos dizer.

Ford tem umas ideias estranhas: por que não conversar com assassinos e maníacos, para saber como a mente deles funciona, ao invés de apenas trancá-los e jogar a chave fora? Esse pensamento, óbvio hoje, foi recebido com descrença e resistência no contexto em que a série se passa, o final dos anos 1970, quando a Unidade de Ciência Comportamental do FBI ainda nem havia sido montada. Ford tanto insiste que acabam criando essa unidade, colocando-o para trabalhar junto ao policial durão Bill Tench [Holt McCallany, um daqueles character actors de rosto forte que sempre vemos por aí, e figura frequente em projetos de Fincher, um dos poucos elementos que o diretor aproveitou da sua experiência de Alien 3 (1992)] e da psicóloga Wendy Carr (Anna Torv, hipnótica e de presença forte). A unidade é colocada no porão do FBI, tal e qual os Arquivos X da série dos anos 1990 – afinal, o que esses agentes vão investigar é tão misterioso quanto os ETs e monstros dos casos de Mulder e Scully.

E o trabalho deles é… conversar. É uma série tagarela mesmo e, na qual, os momentos mais intensos ocorrem quando os personagens falam uns com os outros. Mas Penhall e Fincher concebem essas conversas com tanta inteligência, e a atmosfera do seriado é tão bem construída, com seu clima frio e sombrio na fotografia e cuidado na reconstituição da época, que a falta de ação ou de momentos mais “típicos” de seriados policiais não chega a incomodar.

Quanto à questão da época, é inegável uma influência de Mad Men, no sentido de que algumas atitudes dos personagens parecem quase incompreensíveis vistas no contexto de hoje. A forte resistência da comunidade policial às ideias dos personagens e o próprio ambiente de trabalho, modificado pelo novo paradigma, exemplificam isso, como a “lista de palavrões” que podiam ou não ser usados pelos agentes…

Além disso, Ford arranja uma namorada (Hannah Gross) quase hippie, e o egocentrismo do personagem e a maneira como ele a encara se modificam após o mergulho no mundo dos assassinos “sequenciais”, como ele os batiza. Um mundo eminentemente masculino, claro, e onde as mulheres são apenas as vítimas, na vasta maioria dos casos.

Claro, a série não escapa de alguns clichês, sendo o mais óbvio a relação antagônica entre os dois parceiros policiais, um jovem e empolgado e outro calejado e incapaz de aceitar algumas das ideias do parceiro. Mas os roteiros são sutis, e logo substituem essas obviedades empregando algumas metáforas visuais – por exemplo, o “gato” que a doutora Carr começa a alimentar, ou as mudanças no figurino e no comportamento do protagonista – para nos mostrar o processo psicológico pelos quais Ford e Tench passam.

Em dado momento, os personagens se questionam sobre as tendências sociopatas dos presidentes americanos. A doutora Carr então questiona: “Eles poderiam ser presidentes se não fossem sociopatas?”. O processo de aproximação, das pessoas ditas “normais” daquelas com desvios psicológicos, tem consequências e é exemplificado visualmente por David Fincher no primeiro episódio, com a distância entre Ford e o criminoso; e no segundo, quando Ford se aproxima do assassino Ed Kemper (Cameron Britton, uma das revelações do elenco com seu desempenho assustador). É muito corajosa a decisão da série de tornar seu protagonista numa figura antipática ao longo dos episódios, e explorando realmente o porquê de ele estar tão interessado no que os assassinos sequenciais têm a dizer. E como isso se reflete na maneira como ele trata a sua namorada e seus colegas. E em meio a isso, ainda vemos algumas cenas, meio dispersas, indicando a atividade de mais um novo assassino dentro do país…

Mindhunter coloca seus personagens para falar do fascínio dos serial killers, sob um microfone, lembrando-nos de que comunicação é uma via de mão dupla. É possível se aprender muito os ouvindo, mas quando alguém se aproxima para ouvi-los, as palavras e ideias deles também começam a chegar cada vez mais perto.

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