Terapia de casal: essa é a tônica de boa parte da terceira e nova temporada de Ozark, a série de suspense da Netflix sobre uma família criminosa forçada a se virar ao ser cooptada por um cartel mexicano do narcotráfico.  Durante boa parte dos episódios, vemos Marty e Wendy Byrde, vividos pelos impecáveis Jason Bateman e Laura Linney, “discutindo a relação” em frente à terapeuta e discordando do curso das atividades criminosas. Coisas típicas de casal.

Esta terceira temporada se passa seis meses depois da segunda – isso é perceptível até pela espichada do jovem ator Skylar Gaertner, que faz o filho dos Byrdes. Desde que os Byrdes conseguiram instaurar o seu cassino à beira do rio nas regiões montanhosas das Ozarks, a tensão se intensificou ao invés de diminuir. O desconfiado Marty quer manter a operação de lavagem de dinheiro como está, sem chamar a atenção. Já Wendy tem um plano meio arriscado para legitimizar o negócio e salvar a família do rolo em que se meteram. Uma guerra entre os cartéis, uma agente do FBI incorruptível e a chegada do irmão de Wendy, Ben (Tom Pelphrey, de Punho de Ferro) fazem com que o cerco se feche ao redor dos Byrdes e levam a relação do casal ao limite durante a maior parte destes novos episódios.

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Bem, podem-se falar várias coisas sobre a série, mas não se pode dizer que os produtores e roteiristas de Ozark não têm confiança no que estão fazendo. O estilo da série permanece o mesmo: aquele clima frio e visual azulado na cinematografia; episódios longos, às vezes até mais do que precisavam ser; sem espaço para humor. A essa altura, a série já se encontra consolidada, visual e tematicamente. Os atores também: de novo, por mais que Bateman e Linney sejam os astros e chamarizes para o público, quem rouba a cena é a jovem Julia Garner como Ruth – vencedora do Emmy pelo papel. Cínica, durona e xingando mais do que o Samuel L. Jackson num filme de Tarantino, a jovem atriz comanda todas as suas cenas e aumenta a tensão, intensificando o temperamento e, de vez em quando, a imprevisibilidade da sua personagem.

O que não significa que os roteiristas não possam lançar surpresas para o espectador. Por exemplo, depois da segunda temporada pareceria que a personagem Darlene (Lisa Emery) não teria mais função na série. Pois nesta temporada, os roteiros encontram um lugar para ela, bem imprevisível, e que se adequa tematicamente a uma noção presente nestes episódios: as mulheres – Ruth, Darlene, Wendy e a sombria Helen, a “advogada” do cartel vivida por Janet McTeer – é que dão as cartas, e apesar dos homens, se mostram mais frias e calculistas, melhores criminosas do que eles.

Dentre os personagens masculinos, o destaque mesmo acaba sendo Pelphrey, que cria um retrato sensível de uma pessoa com transtorno bipolar. A atuação dele é boa o bastante para nos fazer ignorar o fato desse irmão da Wendy não ter sido mencionado antes – um velho truque da TV, o parente desconhecido que aparece do nada.

LONGE DE SER A GRANDE SÉRIE QUE PODERIA

Por causa dessas qualidades, é uma pena que vez ou outra os roteiristas deem umas derrapadas. Por exemplo, a certa altura da temporada, Marty é sequestrado pelo cartel e torturado de um modo “existencialista”: o chefão do narcotráfico só pergunta “o que ele quer”. E o trauma dessa experiência é esquecido já no episódio seguinte… A terapeuta do casal, vivida pela ótima Marylouise Burke, é um achado… Até que os roteiristas decidem, para mover a trama, fazer com que ela aja de forma irresponsável e comece a atrair atenção para si mesma. E o Ben… entendemos a bipolaridade, mas o nono episódio o personagem força um pouco a barra para gerar tensão e drama para a Wendy.

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A essa altura, quando uma série chega à sua terceira temporada, suas qualidades, assim como seus defeitos, já estão enraizados. Pelo talento reunido, Ozark poderia – e deveria – ser uma grande série. A essa altura, já podemos perceber que nunca será. Mas é uma boa série, ocasionalmente chega a ser ótima, com um elenco fenomenal e personagens interessantes o suficiente para nos manter assistindo. Os protagonistas Wendy e Marty são dois seres humanos terríveis, e continuam a espalhar sua influência como um vírus, mas sentimos empatia porque no universo ao seu redor, existem piores. E às vezes, até nos pegamos torcendo pelos coadjuvantes mais do que pelos principais.

A resolução definitiva da situação do casal e da família fica para a próxima temporada, que promete um domínio ainda maior das personagens femininas e mais tensão e intriga. De minha parte, estou curioso para continuar assistindo, e isso não deixa de ser uma marca da nossa “era de ouro” atual da TV norte-americana: Ozark pertence à “série B” dos seriados, mas isso não significa que não entretenha ou não envolva. Muito pelo contrário.

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