Como se alivia uma dor? Nas palavras de Bárbara Paz, é “contando uma história”. No caso dela, a história a ser contada realmente envolveu muita dor. Em “Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, a atriz e diretora celebra a história de Hector Babenco, com quem dividiu a vida até 2016, ano em que o diretor morreu. Agora, a expectativa é levar essa homenagem a um pódio ao qual Hector quase alcançou: o do Oscar.  

Na semana passada, foi confirmada a escolha do documentário dirigido por Bárbara (e já reconhecido no Festival de Veneza, em 2019) para tentar uma vaga na categoria de filme internacional na premiação, que acontece em abril do ano que vem. Em meio a tudo isso, a diretora conversou com o Cine Set em uma espécie de mesa redonda virtual. Confira abaixo: 

No bate-papo, Bárbara falou sobre suas referências para a produção de “Babenco”, da trilha sonora com canções que, segundo ela, “fazem parte da composição de quem ele era”, à fotografia, com inspiração em Béla Tarr e em outros cineastas que usam o preto e branco, além da própria memória afetiva tanto dela quanto do marido.  

“O Hector dizia que a memória dele era (em) preto e branco. Quando ele pensava em cinema, era em preto e branco. Quando eu era criança, na minha casa, eu só tive televisão em preto e branco, porque a cor chegou mais tarde lá em casa. Família mais simples, a gente não trocou a televisão tão rapidamente. Eu acho que eu devo ter também uma memória fotográfica do P&B. Eu queria uma coisa só, uma unidade, e, para isso, eu acho que o preto e branco me ajudou a costurar, a formar essa unidade. A vida e a obra dele não estavam separadas. Então ficou uma coisa só. Um poema visual”, afirma, para, mais tarde, sintetizar: “Minha referência maior foi o meu olhar de amor”. 

A BELEZA DA INTIMIDADE 

A atriz comentou, ainda, que foi convencida pela co-roteirista Maria Camargo e pelo montador Cao Guimarães a colocar no filme alguns dos momentos mais intimistas, como as cenas dela com Babenco no hospital.  

“Eles achavam muito bonito esses que, para mim, eram ‘restos de imagem’. Eles falaram assim: ‘Bárbara, mas essa história de vocês dois tem que entrar!’, (eu dizia) ‘Eu vou me expor demais!’, (e eles respondiam) ‘mas isso que é a beleza!’. Eu também achava uma beleza porque a gente era muito verdadeiro e muito pessoal, mas eu tinha um receio de me colocar demais no filme, eu já sou atriz. Esse filme é dele! Esse filme é sobre ele! Aí a Maria falou muito: ‘não, esse filme é sobre vocês também!’”, conta. 

No documentário, Hector diz que a história de vida dele renderia um filme de quatro horas e meia e, segundo Bárbara, havia material para isso – inclusive desses momentos a dois que ela chegou a ter receio de colocar no corte final.  

“Fui tirando, fui escolhendo, e escolhi as que ficaram. Porque tinham outras. Tinha uma maravilhosa em um hotel em Buenos Aires que ele mandava eu o seguir com a câmera: ‘me segue! Me segue!’. Eu entro no elevador, ele continua me dirigindo – ‘Não! Não!’, e começa a falar Mas era enorme a cena, eu não parava, não desliguei a câmera”, recorda.  

BABENCO DE VOLTA AO OSCAR 

Bárbara resume a história dos dois como algo “moldado por aprendizados”. “A gente se encontrava ali no cinema”, ela diz. E como fica o coração, pensando, que essa conexão eternizada nas telas poderá marcar o retorno do Brasil ao Oscar?  

“Que bonito se a gente conseguir chegar lá perto, levar ele de volta pra Academia. Ele merecia isso. Ele levou o cinema brasileiro pro mundo inteiro, juntou os atores brasileiros e os americanos, fez essa mistura de produção. Todo o cinema brasileiro trabalhou no ‘Brincando Nos Campos do Senhor’, por exemplo. Ele foi um homem que mesclou isso. Ele deu de presente muita coisa pro Brasil. Pensando assim, eu acho muito justo, sabe”, reconhece, com um sorriso no rosto. 

Heitor Dhalia: ““Anna” foi um filme desafiado pelo seu tempo”

Um nome importante do meio artístico utilizando seu prestígio para promover um ambiente tóxico de trabalho ao promover abusos morais e até sexuais a seus subordinados. Não, ainda não se trata da cinebiografia de Harvey Weinstein e sim do mote principal de “Anna”, novo...

Lucas Salles: “filmes como ‘Missão Cupido’ trazem a esperança de um final feliz”

Vindo de uma geração marcada pela transformação tecnológica, Lucas Salles é um bom exemplo de artista multiplataforma. Já foi repórter do 'CQC' e do 'Pânico na Band', realiza stand-up comedy no teatro, foi apresentador da "A Fazenda Online" e também investe na...

Lírio Ferreira: “‘Acqua Movie’ é uma extensão espiritual de ‘Árido Movie’”

A Retomada do Cinema Brasileiro viu surgir uma nova geração de diretores pernambucanos com impacto de influenciar e referenciar a produção nacional fora do eixo Rio-São Paulo. Lírio Ferreira abriu as portas em 1997 com o já clássico “Baile Perfumado”. Ao som do mangue...

Ricardo Calil: ‘Cine Marrocos’ simboliza os desencontros do Brasil com a cultura e os sem-tetos’

Ricardo Calil ficou conhecido como documentarista de grandes filmes sobre a música e a cultura brasileira. São dele produções como “Uma Noite em 67” sobre o célebre Festival da Record com estrelas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Os Mutantes e Gilberto Gil; “Eu Sou...

Gustavo Pizzi: “‘Gilda’ representa a luta contra a imposição externa sobre a própria vida”

No Brasil 2021 de Jair Bolsonaro, uma mulher livre, dona do próprio corpo e contrária a opressão masculina incomoda muita gente. “Os Últimos Dias de Gilda”, série disponível na Globoplay, mostra muito bem isso.  A produção exibida na Berlinale Series neste ano estreou...

Júlia Rezende: “’Depois a Louca Sou Eu’” pode ser uma ponte de diálogo sobre a ansiedade’

“Meu Passado me Condena 1 e 2”, “Ponte Aérea” e “Uma Namorado para a Minha Mulher”. Todos os estes filmes são sucessos recentes da comédia romântica brasileira dirigidas pela Júlia Rezende. E ela está chegando nos cinemas com “Depois a Louca Sou Eu” com a Débora...

Arnaldo Barreto: a experiência de um longa gravado na Fordlândia

Comemorando 30 anos de carreira na cultura amazonense, Arnaldo Barreto se lançou em um de seus maiores desafios nesta trajetória: dirigir o longa-metragem “Entre Nós”. O drama de época foi lançado no fim de 2020 em uma sessão especial em Manaus e deve seguir o caminho...

Giona A. Nazzaro: ‘A Cinemateca Brasileira pode contar com todo o apoio do Festival de Locarno’

2021 ainda é um ano cheio de mistérios para os eventos cinematográficos, muitos dos quais foram cancelados, reduzidos ou virtualizados este ano por conta da pandemia do coronavírus. O Festival de Locarno, um dos maiores do mundo, vai encarar esse desafio sob nova...

Maya Da-Rin: ‘’A Febre’ não teria sido possível sem os artistas do Amazonas’

Manaus volta a ganhar as telas dos cinemas brasileiros com a chegada de “A Febre”. Em cartaz desde o dia 12 de novembro, a produção, falada em tukano e português, traz a região metropolitana entre a imposição do modelo capitalista advindo da Zona Franca de Manaus e...

Zé Ricardo: ‘O Nosso Foco Será na Cultura Popular’

O Cine Set prossegue com as entrevistas dos candidatos à Prefeitura de Manaus nas eleições 2020 com Zé Ricardo.  O candidato do PT tenta chegar pela primeira vez à Prefeitura de Manaus após concorrer em 2016 e ficar em quarto lugar. José Ricardo foi eleito em 2008...