‘Brasil 2020, Pouco Antes da Pandemia’. 

Não é à toa este letreiro ser a primeira informação a surgir na tela no início de “Inabitável”: durante seus 20 minutos, o curta pernambucano apresenta o retrato de um país marcado pela violência e intolerância religiosa alimentando o preconceito social e sexual. O excelente drama dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias (“Caranguejo Rei”) se torna de imediato como um candidato forte para os Kikitos da mostra competitiva de curtas-metragens nacionais no Festival de Gramado 2020. 

“Inabitável” se passa em Recife e acompanha a procura de Marilene (Luciana Souza, brilhante) pela filha trans e preta, desaparecida após pegar um Uber ao sair de uma festa tarde da noite. Com a ajuda de uma vizinha e da amiga, ela inicia este processo enquanto descobre um estranho objeto luminoso guardado nas coisas da filha.  

A caminhada de Marilene carrega um ar trágico, afinal, por mais que o desejo seja o extremo oposto, há uma sensação de que o final desta jornada tem poucas chances de ser feliz. Não é para menos: em 2019, o Brasil registrou uma morte de uma pessoa LGBT+ a cada 26 horas, isso, claro, dentro dos registros oficiais.   

Com muita elegância, Enock Carvalho e Matheus Farias denunciam esta violência rotineira em uma ida de Marilene ao IML ao mesmo tempo em que mostram as raízes dela. O discurso de ódio embutido na intolerância religiosa durante a pregação de um religioso dentro do metrô em que Marilene utiliza no início de “Inabitável” e o descaso histórico do Estado em relação a corpos pretos e trans, o que a desestimula a procurar a polícia para pedir ajuda, ilustram este cenário de intolerância completa a pessoas LGBT+ com raízes profundas dentro das fundações da sociedade brasileira.

Diante deste cenário desolador e infernal, “Inabitável”, porém, assim como Marilene, não se entrega e resiste. Tal resistência chega através daquilo que a arte e o cinema podem oferecer: o exercício de imaginação, o livre pensar, onde as estruturas podres de nossa sociedade não podem alcançar mesmo que tentem com todo o seu autoritarismo e repressão.

O final do curta passa longe de ser uma fuga pura e simples, mas, um tapa na cara de um Brasil em que o fantástico seja necessário e urgente para dar dignidade aos seus cidadãos tão marginalizados por tanto ódio vindo do pragmatismo da realidade. Filmaço!

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