Se Carlos Saldanha é brasileiro, eu sou paraguaio.

Acho realmente estranho ver o ufanismo em torno de Rio. Não se trata de um filme brasileiro, mas uma animação feita por norte-americanos, com o olhar norte-americano para americanos verem.

Rio 2 segue o mesmo padrão do primeiro, só que desta vez não mais na cidade maravilhosa, e sim na Amazônia, com todas suas lendas e botos cor-de-rosa.  Ou seja, um prato cheio para que o Brasil seja visto mais uma vez com fetichismo e com um belo olhar para negócios, visto que mostrar os pássaros e demais espécies selvagens que habitam por aqui, com plumas coloridas e coreografias milimetricamente ensaiadas, é excelente para vender o país para o resto do mundo.

Desta vez, Blu e Jade vivem felizes e sorridentes no ensolarado Rio de Janeiro com seus três filhinhos, que vivem se metendo em altas confusões. Enquanto isso, Túlio e Linda estão na Amazônia, quando encontram evidências para supor que existem outras araras azuis. Sabendo da notícia, a família de Blu, acompanhada dos sempre divertidos Nico e Pedro, também vai para a Amazônia, para conhecer outros de sua espécie. Mas eles não contavam com a presença do terrível Nigel, que quer se vingar de Blu a qualquer preço.

As qualidades de Rio 2, que são várias, mascaram um filme que ou é aproveitador ou ingênuo do pior tipo. As imagens são fantásticas, determinados planos de dentro da floresta amazônica eu faria um quadro e emolduraria na minha sala, de tão belos, bem como a contagiante trilha sonora, que tem um swing muito agradável de ouvir.

Porém, que me desculpem os fãs do filme, mas e daí?

Os pássaros brasileiros falam inglês, são lindamente domesticados e coloridos, mesmo os mais roots da floresta. A mata amazônica lembra um parque aquático, com tobogãs naturais e completamente previsível e inofensiva. A escolha pelo belo plastificado, pela proposital falta de densidade do ambiente, dá ao filme um ar fútil, como um cosmético falsificado que diz que tem origem da casca do taperebá. É uma animação para socialites e empresários recém-formados que tem gosto pelo “exótico” e que se sentem bem ao tomar um suco natural de maracujá do mato.

É claro que é bacana ver Manaus da forma como o filme mostra, mas mesmo assim tudo reluz demais. Perto do Teatro Amazonas há um rio límpido e convidativo, bem como as bancas do porto que aparecem extremamente limpas, cheias de produtos coloridos, animais bem cuidados, vendedores e transeuntes sorridentes e frutas fresquíssimas.

Observar isso não se trata de ser chato. Esse é um dos muitos exemplos que o termo “Ah, é filme para criança” entra em cena para justificar o injustificável. Se eu queria que mostrasse os problemas que rondam a Amazônia? Sim, por que não, é proibido? A criança vai ficar chocada ao saber que Papai Noel não existe?

Mostrar a realidade de um local como ele é sempre vai ser melhor do que adotar um olhar infantiloide, fetichista e aproveitador, como é o caso deste trabalho.

Se não bastassem todas essas escolhas para inglês/americano ver, a trama é absurdamente monótona e desinteressante. A suposta ruptura entre Blu e Jade é muito artificial e clichê. A inserção dos madeireiros tem um fundo panfletário digno de aula de alfabetização, com obviedades sendo repetidas sem parar. O vilão, que não é vilão, surge do nada, não ameaça ninguém e termina no mesmo limbo do qual surgiu. E os números musicais são… bem coreografados demais.

Até consigo ver Rio 2 concorrendo a alguns prêmios e ele certamente vai ser um grande sucesso de bilheteria, o que diz muito sobre como as animações, mesmo depois de provarem que podem ser tão complexas quanto qualquer outro filme, são vistas pelas pessoas, pois estou certo de que se um filme em live action apresentasse os mesmos problemas que esse mostrou, ele seria taxado de infantiloide e chato.

A diferença, porém, é que não há diferença.

NOTA: 4,5

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