Após sucessivos atrasos, “Marighella”, estreia de Wagner Moura na direção, finalmente chegou aos cinemas. O filme sobre a história do militante comunista Carlos Marighella durante a ditadura militar brasileira traz Seu Jorge no papel do protagonista e como principal força. Sua atuação é o que mais se destaca durante as 2h35 de projeção, principalmente na dramaticidade colocada pelo ator buscando sensibilizar um personagem que, do início ao fim da obra, está sempre em perigo, correndo contra o tempo e, por mais que esteja sempre rodeado por amigos e companheiros políticos, parece solitário.

Ainda nesse sentido, a atuação de Seu Jorge também se destaca por balancear uma direção mais frenética pela parte de Moura. A câmera na mão, que passeia livremente pelos cenários, não respira. O diretor tenta impor um Marighela mítico a partir de suas ações em cena, desde a aparição inicial assaltando um trem que levava armamento militar como na cena em que o político sofre um atentado e, mesmo baleado, luta contra vários policiais enquanto esbraveja pela democracia.

SUPER-HERÓIS E NÃO SERES HUMANOS

Embora o processo do longa busque associar esses dois pontos, em alguns momentos, parecemos observar filmes diferentes e não um único com diferentes tons. A relação de Marighella com seus companheiros é construída a partir de uma misticidade que não nos é tão bem apresentada. O roteiro opta por focar na carreira do militante já durante a ditadura, logo, temos um Marighella mais velho que, a partir das próprias experiências, decide pela luta armada como a melhor opção para enfrentar os militares, tendo como aliados principais jovens que o tem como líder.

O filme tenta partir de um conhecimento prévio sobre a vida e a obra do protagonista, porém, se ressente de uma contextualização maior até mesmo para aqueles que o conhecem. A admiração dos jovens por Marighella existe como fato predecessor: ele é inspirador porque é; suas ações e do grupo são filmadas com o intuito de deixá-las grandiosas e funcionam enquanto obra de ação, mas não se sustentam conforme a obra avança e nos sentimos distantes daqueles personagens. Suas interações parecem protocolares, a relação com familiares soa como uma lembrança distante de que ali estavam pessoas lutando por uma causa com efeitos práticos na vida do povo.

Tudo parece distante de uma realidade concreta, indo na contramão da própria história de vida de Marighella. A cada grito dos personagens de “sou cidadão brasileiro”, “sou um brasileiro foda”, encarnava em tela a sensação de estarmos vendo super-heróis e não militantes políticos, estudantes, trabalhadores, pais e filhos. Discurso presente nas entrelinhas, nos diálogos, mas sempre deixado de lado.

Dentro desta proposta focada na ação, a dualidade construída entre o líder comunista e seu algoz, o delegado Lúcio (Bruno Gagliasso) acaba sendo a escolha mais acertada de direção e roteiro. O vilão é apresentado de maneira bem unidimensional, exalando maldade a cada respiração. É um antagonista clássico, encarnando toda uma estrutura fascista presente no então governo, sem mais explicações, sem pestanejar frente a alguma situação, combinando mais com o tom adotado durante o filme.

MANO BROWN ENSINA

Ao se encaminhar para o término e a já conhecida morte do protagonista, a produção abre mais espaço para que Seu Jorge que, em nenhum momento decepciona como o “herói” Marighella, possa se sobressair ainda mais como o “homem” Marighella.

O ator empresta ao personagem um olhar de descontentamento, distante, que luta por convicção mesmo quando se sente acuado, e comove quando interage com seu filho, com o melhor amigo e com a mulher que ama. É apenas nesses momentos que o personagem se engrandece em cena sem parecer forçado, inclusive, na última aparição, acuado após ser pego em uma emboscada, mantendo a serenidade enquanto encara a solidão que precede o fim.

Mais uma vez, direção e roteiro parecem não satisfeitos com a sensibilidade desses momentos e colocam logo após a cena da emboscada uma inexplicável cena onde os demais integrantes do grupo cantam aos berros o hino nacional, enquanto choram e se abraçam, parecendo um vídeo bolsonarista bem produzido.

O estranhamento com a cena do hino nacional se torna maior quando sobem os créditos e podemos ouvir a canção do grupo Racionais MCs, “Mil faces de um homem leal”, em homenagem ao protagonista, lançada em 2012, e disparadamente uma melhor obra sobre o deputado, poeta e militante Carlos Marighella.

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