E lá se vão vinte anos de Velozes e Furiosos no cinema… A metamorfose pela qual passou essa cinessérie, desde o primeiro – e visto hoje, até humilde – filme de 2001, é uma das mais curiosas trajetórias de sucesso da Hollywood moderna. O que começou com rachas, carros tunados e tramas sobre crime nos primeiros exemplares evoluiu para alta espionagem, heróis precisando salvar o mundo e cenas de ação e melodrama exagerados em iguais proporções. E o sucesso nas bilheterias globais aumentou de acordo com essa evolução. Mas nenhum carro anda macio para sempre, todo veículo tem sua vida útil, e a julgar por este Velozes e Furiosos 9, parece que a gasolina no tanque da franquia está finalmente começando a acabar.

Velozes e Furiosos 9, apesar de toda a agitação, é pura rotina. A trama é a mesma de sempre ou, pelo menos, a mesma dos capítulos mais recentes: tudo está em paz com Dom Toretto (Vin Diesel) e sua família até aparecer do nada um novo vilão com uma tecnologia super ultra mega power que pode acabar com o mundo. Eles, então, voltam à ação e aos veículos para enfrentá-lo.

De novo temos o tema da família revisitado à exaustão – o vilão é o irmão de Dom, Jakob (John Cena), alguém que nunca tinha sido mencionado antes, claro. De novo temos participações especiais de atores dos filmes anteriores que se tornaram parte da trupe: Helen Mirren! Lucas Black, astro do terceiro filme! – quem? Olha lá a Charlize Theron ganhando uma grana para aparecer por alguns minutos e ficar olhando para uma tela!

Até as surpresas que este nono filme traz são requentadas: o Han (Sung Kang) morreu, mas passa bem. O filme arranja uma desculpa fajuta para o seu retorno. Tenho certeza que se a Gal Gadot passasse um e-mail para o Vin Diesel, sua antiga personagem também seria ressuscitada. Outro que volta é o diretor Justin Lin, o cineasta que foi o responsável pela virada na franquia. Neste Velozes e Furiosos 9, Lin colabora no roteiro, pois o roteirista arquiteto da saga até aqui, Chris Morgan, optou por não participar desta vez. E nota-se: talvez por isso o filme tenha esse jeito de um trabalho feito na zona de conforto. Dwayne Johnson também ficou de fora desta vez – não há lugar para ele, pelo visto, na família de Vin Diesel…

AO INFINITO E ALÉM

Enfim, esse nono capítulo parece representar a encruzilhada de Velozes e Furiosos. Além do tema da família, o outro aspecto que sustentou a cinessérie até hoje foi o apego ao absurdo e ao exagero, tanto no drama novelesco quanto na ação bombástica. No passado, a franquia de James Bond, por exemplo, ensinou que é possível se sustentar no absurdo e no exagero, mas isso cobra um preço. Por mais criatividade que se tenha, há um limite para eles.

Neste Velozes e Furiosos 9, o ápice do absurdo é a viagem de Tej (Ludacris) e Roman (Tyrese Gibson) ao espaço num carro com foguetes. Porém, até isso parece uma ideia preguiçosa, tirada de memes e piadas de internet. Ora, mesmo os filmes de Bond da era Roger Moore eventualmente tiveram de recolocar, ao menos, um dos pés no chão.

Se a trama não importa – e nunca importou – como é a ação, pelo menos? Bem, neste quesito Lin não decepciona como sempre. Embora desta vez alguns momentos em computação gráfica pareçam mais falsos que o usual, Velozes e Furiosos 9 até diverte um pouquinho quando as coisas estão explodindo e os carros acelerando.

Claro, nada significa nada: nunca temos a sensação de que qualquer um dos heróis está em perigo e, quando Dom usa um cabo de aço para fazer seu carro atravessar um abismo igual um Tarzan em quatro rodas, percebemos que nada ali terá qualquer consequência e os protagonistas já viraram praticamente super-heróis. Essas cenas, ao menos, são bem melhores do que aquelas em que os personagens param e começam a conversar, fingindo que estão contando uma história.

 REPRESENTATIVADE EM ALTA

Um ponto positivo da ação neste nono filme é a maior participação das mulheres do elenco. Jordana Brewster, neste, enfim participa mais da ação e se sai bem – enquanto que nos anteriores sua personagem era relegada a namoradinha/esposa do herói de Paul Walker – e alguns dos poucos momentos realmente divertidos vêm de Nathalie Emmanuel e sua tentativa de dirigir por Londres. São legais também alguns dos flashbacks com as versões jovens de Dom e Jakob, especialmente o racha entre eles que retoma o estilo visual do filme original da franquia.

Mas essas pequenas qualidades salpicadas aqui e ali não conseguem evitar a sensação de cansaço que a experiência transmite. É um tipo muito cínico de cinema: um blockbuster de 2h20 em que não importa história, desenvolvimento de personagem, temática, em suma, nada. Nem a experiência do espectador importa tanto, já que algumas das poucas surpresas do filme já foram divulgadas logo cedo nos trailers.

Velozes e Furiosos, no entanto, costumava ter ao menos uns lampejos de criatividade, de energia, para empilhar absurdo em cima de absurdo e assim fazer o espectador rir um pouco e esquecer os problemas. Neste nono exemplar, até essa criatividade já começa a minguar.

Vinte anos depois, a cinessérie de maior sucesso do cinema de ação moderno tinha razões para comemorar… Mas, depois deste aqui, talvez fosse melhor repensar algumas concepções para os próximos. Pois num momento de comemoração, Velozes e Furiosos acabou entregando um dos seus piores filmes.

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