“Como nossos pais” é, à primeira vista, apenas o filme feminista por excelência da temporada no cinema brasileiro. Nele, a protagonista de Rosa (Maria Ribeiro) enfrenta uma transformação em sua rotina ao encarar problemas conjugais, familiares e a busca de sua própria identidade.

A (impossibilidade da) multifuncionalidade da mulher é o elemento que faz a amarração desses acontecimentos, que não são poucos. Eles vão da desconfiança e falta de apoio do marido Dado (Paulo Vilhena), passando pela insatisfação em ter aberto mão de uma carreira na escrita em prol de uma relativa estabilidade profissional, chegando à revelação de que Rosa é fruto de um affair da mãe, a geniosa Clarice (Clarisse Abujamra).

Mas é a dinâmica familiar, tão associada que é ao cotidiano da mulher, que acaba indo muito além no longa de Laís Bodanzky. “Como nossos pais” é, nesse sentido, um filme que busca olhar para a riqueza e conflitos de algo que muitas vezes é suprimido no cinema: afinal, a família tradicionalmente pertence ao espaço da segurança e da estagnação em muitas narrativas – a aventura começa não quando se reflete sobre ela, e sim quando se afrouxam os laços e nos colocamos “para o mundo”. Mas não pra Bodanzky, ou, pelo menos, são exclusivamente.

A diretora cria e adentra esse espaço de pretenso conforto sem cerimônias, dando conta da tensão entre Rosa e a mãe logo de cara. O choque de personalidades e valores contrasta com a rigidez de ambas as personagens em suas formas de encarar a vida, e nisso elas se espelham de forma curiosa. Ambas são muito bem delineadas na trama – a primeira, desvelando os conflitos das mulheres de uma geração já na virada dos 30 para os 40 anos e ainda em busca de uma definição de si; a segunda, lidando com as consequências de suas escolhas e algumas décadas à frente em idade. Ribeiro e Abujamra têm com essa dupla a chance de mostrar atuações inspiradas e, mais que isso, multifacetadas, dada a riqueza das personagens.


Homens livres

Os homens são definitivamente um elemento desestabilizador em “Como nossos pais”, mas é apenas na superfície da trama que eles parecem determinar o destino das mulheres. Temos como exemplo o motor principal de conflito, o fato recém-revelado de que o pai biológico de Rosa é Roberto (Herson Capri), um ministro, e não Homero (Jorge Mautner), um artista com certos sinais de demência e fartos sinais de “malemolência”.

A forte ligação de Rosa com o pai de criação, a adoração e a permissividade que ela imprime a ele são contrastantes com o rigor do trato entre ela e o marido Dado, um pai e marido tão ausente quando o seu próprio, mas com quem ela gostaria de dividir verdadeiramente as responsabilidades da vida “multifuncional” de quem trabalha e cria filhos. Isso, porém, é usado não como foco principal, mas novamente como o espelho cujo reflexo faz com que Rosa e Clarice sejam mais parecidas do que imaginam – afinal, Clarice não titubeou ao mandar o agora ex-marido embora por sentir que não tinha apoio dele.

Homero e Duda são figuras agradáveis e apaixonantes, cada um de seu jeito, com personalidades solares e liberais. Podemos quase arriscar o palpite de que são uma representação dos “machos de esquerda”: pessoas comprometidas com modelos não tradicionais de sociedade, mas que ainda assim não obrigatoriamente têm interesse ou capacidade de exercitar empatia para com a condição da mulher.

Mais que isso, o que os une tematicamente é o fato de que puderam fazer suas escolhas de vida sem colocar de verdade na balança responsabilidades sobre como essas escolhas afetariam os outros – Homero é um artista que constantemente depende de mulheres com vidas mais estáveis para sobreviver, e Dado é um antropólogo e ativista que não titubeia em viajar para longe da família para “salvar a Amazônia”, como bem a sogra pontua inúmeras vezes. Apesar dos pesares, o roteiro de Bodanzky e Luiz Bolognesi olha mais para a contradição desses homens do que se preocupa em alfinetá-los.

Essas decisões dos homens afetam Rosa, mas não são a força que move a personagem, e sim a inquietação para encontrar um equilíbrio entre dever e querer. Não por acaso, Ribeiro capta bem a metafórica esquizofrenia da “mulher moderna”, que deve ser livre e divertida, mas também uma super mãe, que deve ser uma profissional de sucesso, mas também uma esposa prendada, que deve ser forte sempre, mas também doce – em suma, cumprir um novo padrão de expectativa irreal. Por mais que os homens sejam fascinantes em sua força e liberdade, o que atrai a câmera de Bodanzky são as amarras (impostas pela sociedade ou por si mesma) que Rosa luta para afrouxar.

Essa proposição se comprova quando percebemos que o encontro entre Rosa e o pai biológico, o que deveria ser o ápice da narrativa, na verdade é apenas um fragmento dela. Roberto, numa atuação nada marcante de Capri, é uma figura que rapidamente deixa de exercer algum tipo de curiosidade à filha; ela se vê entre questões mais urgentes na sua jornada de autodescoberta, tais como as pequenas tentativas de se dedicar novamente a um trabalho apaixonante com o teatro, ou ao refletir (e botar em prática) as colocações de sua meia-irmã mais nova sobre o fracasso e hipocrisia da monogamia e dos modelos tradicionais de família.

Com tantos temas aptos a descambar para um drama mais pesado ou uma comédia de erros, “Como nossos pais” tem o mérito de se desenrolar de maneira, digamos assim, agridoce. Sua atmosfera é densa, mas ainda assim imersa de momentos delicados, nos quais traçamos a esperança de renovação que tanto impulsiona a protagonista. O momento em que ela se desvencilha das velhas marionetes com que brincava com o pai na infância, por exemplo, é uma das pequenas metáforas entregues por Bodanzky e Bolognesi nessa fronteira fluida entre o delicado e o brutal na transformação de Rosa.

“Como nossos pais” tem ainda o mérito de trazer toda essa riqueza de proposições dentro de um roteiro e direção de fácil fruição ao público. O filme carrega algo de bastante familiar a quem o assiste – uma jogada bacana que dialoga com a música que dá nome à obra, na qual um dado trecho diz: “Minha dor é perceber/ Que apesar de termos/ Feito tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos/ Como os nossos pais”. Tem-se no longa esse equilíbrio interessante e talvez até mesmo urgente ao cinema brasileiro hoje, que vive uma fase acalorada de ataques por sua inserção mais explícita no debate político do Brasil de 2017. Para além disso, a força de “Como nossos pais” está no elenco afinado e total controle de direção de Bodanzky, o que o coloca dentre os filmes imperdíveis de se conferir nos cinemas nesse ano.

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