O surto de COVID-19, conhecido popularmente como coronavírus, tem deixado o mundo em pânico nestes últimos meses. O alto número de pessoas diagnosticadas com o vírus e o crescente número de mortes só tem alarmado mais ainda a situação. O surto teve início na cidade de Wuhan, importante polo econômico da China, e já se espalhou para todos os continentes.

Números atualizados indicam 90 mil casos confirmados de pessoas infectadas e 3.100 mortos em todo o mundo. Os países mais afetados são a China (recordista de números de infectados e mortos), a Coréia do Sul (segundo maior país afetado pelo vírus) e a Itália (recordista fora da Ásia).

Devido a epidemia e a facilidade de transmissão do coronavirus, muitos países estão criando mecanismos para evitar a aglomeração de pessoas em espaços públicos. Uma medida que está se tornando comum é o fechamento de cinemas e escolas, além da recomendação para que se evite ao máximo a saída de casa nas regiões afetadas. Logo, é evidente o forte impacto que a doença irá trazer para o setor audiovisual mundial. Ainda mais pelo foco da epidemia ser justamente em polos importantes do cinema mundial como China, Coréia do Sul e Japão.

O Cine Set traz aqui algumas informações sobre o impacto da expansão do COVID-19 no mercado de cinema mundial. O foco é tirar dúvidas sobre a importância das áreas afetadas e sua relação com Hollywood e para as bilheterias mundiais. E também verificar como as mudanças no comportamento das pessoas podem influenciar outras alternativas para o audiovisual como os serviços de streaming.

Coronavírus e o mercado chinês

Só na China, 70 mil salas de cinema foram fechadas para evitar o contágio. O surto não poderia chegar em pior momento para o contexto do mercado chinês: o lançamento dos principais blockbusters chineses acontece nesta época marcada pelas festas de final de ano local. Filmes como “A Sereia”, de Stephen Chow, e “Terra à Deriva”, de Frant Gwo foram grandes sucessos de bilheteria, batendo recordes históricos justamente neste período.

Para 2020, seis filmes chineses estavam sendo esperados com expectativas acima da média, incluindo o novo filme de Jackie Chan, “Vanguard”. O efeito nas bilheterias já é sentido: os cinemas locais arrecadaram US$ 238 milhões entre janeiro e fevereiro deste ano; muito pouco comparado aos US$ 1,91 bilhão do ano passado.

Felizmente novos casos de pessoas diagnosticadas com o coronavírus tem reduzido graças as manobras do governo do país em reduzir os danos. A partir disso, especialistas da indústria estipulam que, por volta de maio a julho, as salas de cinema na China poderão ser reabertas. Porém, isso não seria tão positivo para lançamentos internacionais marcados para março e início de abril. No período de julho, o país prioriza normalmente lançamentos locais, mas, devido a gravidade da situação, isso talvez seja alterado, levando produções como “Viúva Negra” (estreia 24/04) e “Velozes e Furiosos 9” (22/05) a repensarem estratégias.

Blockbusters mundiais

Filmes como “007 – Sem Tempo para Morrer” e “Mulan” podem ser dois dos mais filmes mais afetados pelo aumento de casos de coronavírus pelo mundo. O mais novo capítulo do espião britânico teve sua estreia mundial, prevista inicialmente para 31 de março, adiada para novembro de 2020. A medida agradou até mesmo os fãs de James Bond que chegaram a publicaram uma carta pedindo o adiamento.

Já para “Mulan”, a questão se complica mais ainda, afinal, a China é vista como o mercado principal do projeto. No entanto, a Disney se mantém firme e continua apostando em um lançamento mundial do longa em 27 de março.

Lançado na última quinta-feira no Brasil e nos EUA, “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” também deve ser afetado. Com a Califórnia em estado de emergência após a morte de uma pessoa, a aventura deve registrar uma das piores aberturas da história da Pixar nos EUA – estimativa de US$ 40 milhões. O Brasil ainda se tornou um país estratégico para melhorar o faturamento da animação após o cancelamento da estreia na Coréia do Sul e Japão.

Produções que ainda estão na fase de gravação também acabaram sendo afetadas. O sétimo “Missão impossível”. teve que cancelar as” três semanas reservadas para as gravações em Veneza devido ao aumento dos casos de infecção no norte da Itália.

Bilheteria Mundial

Em 2019, o medo seria que o aumento das plataformas de streaming levasse a uma queda nas bilheterias mundiais de diversos filmes. Ao final, o resultado foi bastante satisfatório com quase US$ 42 bilhões, mas, com leve retração na arrecadação nos EUA. Este ano, o medo retorna devido ao avanço do coronavírus em diversas partes do planeta, incluindo os EUA. Devido a isso, especialistas especulam uma perda de cerca de US$ 5 bilhões para as bilheterias mundiais em 2020.

Na Itália, Coréia do Sul e Japão, a queda chega a quase 80% na arrecadação. Filmes como “O Homem Invisível” conseguem se manter no topo na Coréia do Sul, porém, com modestos US$ 1 milhão arrecadados.

Nem mesmo a empolgação da conquista de “Parasita” no Oscar 2020 escapou do efeito do coronavírus na indústria do audiovisual na Coreia do Sul: a versão em preto e branco seria lançada nesta quarta, porém, teve que ser adiada. O país viu o número de espectadores nas salas de cinema reduzir de 22,3 milhões em 2019 para 7 milhões no mesmo período de 2020.

No Japão, as redes de cinema Toho e Shochiku estão oferecendo o dinheiro de volta para os clientes que compraram ingressos adiantados. E assim como na China, lançamentos aguardados para esta época do ano, incluindo animações para o público infantil, estão sendo cancelados. Na Itália, a história se repete com reduções drásticas nas bilheterias das últimas semanas (cerca de 75% menores comparadas com o mesmo período em 2019) e mais adiamentos. Os filmes “Hidden Away” e “Favolacce”, ambos italianos e vencedores dos prêmios de Melhor Ator e Melhor Roteiro, respectivamente, no Festival de Berlim de 2020 terão que esperar mais um tempo para serem vistos pelo público.

Festivais Internacionais

Festivais de Cinema são importantes por reunir diferentes nomes da indústria criativa e apresentar projetos em diversas fases de desenvolvimento, indo além, portanto, das exibições de filmes. Para 2020, o cenário para alguns cineastas se complica com as notícias de festivais cancelando ou adiando edições por medo de aumentar os riscos de contaminações.

Recentemente, o Festival de Cinema e Fórum de Direitos Humanos (Suíça) cancelou sua edição para este ano e os festivais de Documentário de Tessalônica (Grécia) e o FilmArt de Hong Kong adiaram suas datas de realização.

Dentre os festivais de maiores prestigio, Cannes pode sofrer também com o aumento do vírus. O Ministério da Saúde da França havia proibido reuniões públicas em lugares fechados com mais de 5000 pessoas e recentemente estendeu o prazo para o fim dessa diretriz para 31 de maio. O festival francês ocorre entre as datas 12 e 23 daquele mês.

Em uma entrevista para a Variety, um representante do Festival de Cannes comentou que o evento não seria afetado pelas ordens do governo, já que tanto as mostras quanto o seu evento de mercado, Marché du Film, reúnem até, no máximo, 3000 pessoas em um mesmo lugar. Anterior as novas regras do governo francês, o festival já havia confirmado as preparações para a edição deste após a confirmação de um caso de um paciente com COVID-19 na região de Cannes. A França conta, atualmente, com quatro mortes e cerca de 613 pessoas contaminadas com o vírus.

É importante ressaltar o peso de adiamentos ou cancelamentos de festivais. Devido aos calendários, equipes de produção e financiamento de cinema vão se adequando as janelas fornecidas pelos festivais, já que é por lá que conseguem encontrar distribuidoras ou financiadores para seus projetos. O Festival de Cannes, por exemplo, realiza no mesmo período das mostras o Marché du Film, um dos maiores mercados de audiovisual do mundo. É lá que são realizados os pitchings, vendas de direitos, possibilidades de acordos de produção e coproduções e etc.

Nos EUA, o tradicional South by Southwest, no Texas, também foi cancelado. A expectativa fica agora por conta de Tribeca, em Nova York, que corre risco semelhante.

Já na Arábia Saudita, país que vem tentando nos últimos anos mudar sua imagem e se reposicionar como um local mais “liberal”, teve de adiar a realização da primeira edição do Festival de Cinema do Mar Vermelho. Previsto para 12 de março, o evento seria uma aposta para fomentar ainda mais o setor audiovisual saudita que por 35 anos conviveu com uma lei que proibia a existência de salas de cinema. O festival teria Oliver Stone como presidente do júri e também contaria com a presença de Spike Lee como professor de uma masterclass.

Serviços de Streaming pode ganhar mais público

Devido as recomendações para as pessoas evitarem aglomerações e locais fechados, há boas chances de serviços de streaming como Netflix, Amazon Prime e Disney+ se beneficiarem financeiramente com a situação. Sendo as prováveis alternativas para consumo de entretenimento, estes tipos de plataformas podem ganhar mais público nos dias que se sucedem com aumentos de casos confirmados.

Escrevendo para a CNN sobre a influência de serviços de streaming em relação ao surto de COVID-19, o analista Brian Lowry comenta que o maior ganho para elas não seria à curto prazo com mais assinantes. Na verdade, a mudança no comportamento das pessoas, tornando-se mais inclinadas a assistir filmes em casa do que em cinemas, pode ser o grande impacto do coronavírus na indústria do audiovisual. Não à toa que as ações da Netflix operaram em alta na semana passada de 0,8%, enquanto Wall Street enfrentava sua pior semana em anos.

Na China, o estúdio Huanxi optou por lançar o filme “Lost in Russia” de graça por streaming. A produção seria lançada de forma tradicional no dia 25 de janeiro, porém, com o fechamento dos cinemas, o estúdio decidiu realizar esta manobra e fechou um acordo de US$ 90 milhões com a empresa ByteDance, responsável pela plataforma online. O filme era considerado um dos mais aguardados do calendário de final de ano chinês, e a sua solução foi mal vista por diversos setores da indústria de exibição local.

Agora, o estúdio responsável pelo filme terá que lidar com ameaças de boicote das empresas de exibição, que também enviaram uma reclamação para o Departamento de Estado de Cinema Chinês para lidar com a situação.

E o Brasil?

O país já conta com 13 casos confirmados de coronavírus até este sábado (7), segundo informações do Ministério da Saúde. Caso a situação avance igual ao redor do planeta, é esperado que as mesmas medidas tomadas no exterior sejam adotadas por aqui.

Em entrevista para o Cine Set, Marina Rodrigues, responsável pelo blog “Simplificando Cinema” voltado para análises do mercado audiovisual no Brasil, acredita que podemos ter um cenário semelhante ao visto em 2009. “O país deve adotar medidas semelhantes da época do H1N1, onde no auge da epidemia, o país viveu 15 dias com recomendações para não sair de casa e frequentar lugares mais públicos, mas definitivamente vamos ver bilheterias abaixo do esperado, principalmente em filmes de grandes estúdios”.

Marina também comenta que participação do Brasil em eventos de mercado audiovisual, como o Marché du Film, em maio no Festival de Cannes, deve ser afetada. Ela complementa indicando que os efeitos do vírus não irão afetar diretamente pautas políticas vinculadas à área no Brasil, visto que as mesmas não são resolvidas em um prazo de um ano ou menos.

Marina termina comentando sobre os efeitos do vírus na Argentina, que vem passando por problemas no seu setor de audiovisual devido às mudanças ocorridas na gestão Macri. Ela indica que o vírus não será um fator para a desaceleração da área, mas diz que “se a doença não for contida, pode afetar festivais importantes para o país como o BAFICI, que ocorre em meados de abril/maio e tem uma área de mercado importante para a América do Sul”.

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