Depois do sucesso de seu primeiro longa, “O Reino de Deus”, Francis Lee torna a apostar em um romance LGBT em sua nova produção, “Ammonite“. No entanto, as semelhanças entre os filmes acabam por aí. Mesmo contando com performances poderosas de Kate Winslet e Saoirse Ronan, o novo projeto do cineasta – que estreou em Toronto e foi exibido no Festival de Londres deste ano – parece despreocupado em trazer algo tematicamente novo, deixando uma sensação de oportunidade perdida no ar. 
 
Escrito pelo próprio Lee, “Ammonite” imagina uma versão da vida da paleontóloga Mary Anning (Winslet) em que ela tinha furtivos romances lésbicos na pequena cidade inglesa de Lyme Regis, cujas praias cheias de fósseis lhe davam farto material de pesquisa. Sem muito dinheiro, ela vive de vender artefatos para turistas ricos e, com isso, ajudar a mãe doente (Gemma Jones). Quando um destes visitantes oferece dinheiro para que hospede sua esposa, Charlotte (Ronan), e a aceite como aprendiz em seu trabalho, Anning se vê, apesar da vontade, impedida de dizer não. Relutante, ela recebe a jovem e, uma vez que as claras diferenças são contornadas, uma paixão aflora. 
 
O roteiro é bem-sucedido ao usar a trama central para tecer pertinentes observações sobre o papel social feminino no século XIX. O mundo mostrado aqui é desdenhoso ou indiferente ao conhecimento e à opinião das mulheres. Diante dessa apatia, a maternidade se torna uma das raras oportunidades de uma mulher ser vista e ela passa a ser definida por sua disponibilidade (ou falta de) para ter filhos. 
 
Charlotte chega a Lyme Regis devastada pela perda de um filho. Por isso, é comandada por seu marido com a resignação de quem não tem nenhuma moeda de troca na relação. Já Mary, traumatizada com o fardo psicológico que a morte dos filhos trouxe à sua mãe, nem considera ter um – posição que a distancia ainda mais de seus conterrâneos. 

POTENCIAL ESCONDIDO DESPERDIÇADO 

A maneira como ambas lidam com a questão é um excelente subtexto, bem como é o a desvalorização da ciência e a invisibilização feminina no âmbito científico. Com tanto sendo explorado nas entrelinhas, é uma pena que o romance que ancora “Ammonite” seja tão morno e insosso, jamais transcendendo as amarras educadas do filão de filmes de época. 
 
É inafastável o pensamento de que essa história já foi contada antes – e de maneira mais eloquente. De certa forma, “Ammonite” revisita temas do excelente “Retrato de uma Jovem em Chamas” através de um prisma decididamente britânico, com muita atenção sendo dada ao choque de classes e à vida profissional. 
 
Winslet e Ronan estão incríveis, especialmente a primeira, que prova mais uma vez a capacidade quase sobrenatural de interpretar qualquer personagem. Infelizmente, a dupla não consegue fazer esse drama soporífero levantar voo. O óbvio talento envolvido e os acertos do longa (com destaque para a fotografia sombria de Stéphane Fontaine) apontam para o filme que “Ammonite” poderia ter sido, mas esse potencial permanece escondido, tais como os fósseis que Anning escavava. 

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