Curta paraibano selecionado para a Mostra Panorama da Mostra de Cinema Tiradentes de 2021, “Animais na Pista” adapta o conto “Relato de ocorrência em qualquer semelhança não é mera coincidência”, de Rubem Fonseca. O diretor Otto Cabral consegue captar a aura descritiva da obra literária em sua essência com uma criação de atmosfera absurda através da execução do ótimo plano-sequência que carrega a obra, porém, esquece de dar maior dimensão aos personagens daquela história.  

“Animais na Pista” acompanha o desenrolar de um acidente de trânsito em uma rodovia no interior do Brasil. Enquanto uma vítima está estirada no chão, os moradores mais próximos da região lutam para arrancar os melhores pedaços de uma vaca também atingida na colisão. 

Quase metade dos nove minutos do curta traz um plano-sequência sufocante em que os detalhes da tragédia se revelam gradualmente. As luzes vermelhas piscando dos carros se fundem à escuridão do asfalto parcialmente iluminado pelos faróis e do próprio pôr-do-sol, dando um tom ainda mais trágico para um cenário desalentador. Méritos do trabalho soberbo do diretor fotografia Rodolpho Barros, da equipe de som e da execução precisa da mise-en-scène. 

Por outro lado, “Animais na Pista” peca por não conseguir desenvolver nada sobre aquelas figuras vistas no filme. Se Rubem Fonseca consegue dar uma dimensão da miséria social através da descrição meticulosa, por exemplo, do protagonista Elias, o drama paraibano passa longe de qualquer tentativa disso. Falta ao roteiro se dedicar à construção mínima dos personagens, o que prejudica qualquer elo emocional com o desfecho que se pretendia emocionante. A mão pesada com uma trilha onipresente ainda parece busca fazer este trabalho na marra em uma tentativa de provocar choro a qualquer custo. 

Diante deste problema, mesmo que a intenção possa nem ser essa por parte da equipe, o próprio título do curta ganha mais uma conotação de julgamento daquelas pessoas e não da condição de miséria. No fim das contas, “Animais na Pista” brilha na técnica enquanto deixa lacunas graves no seu discurso. 

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