Em “Espíritu Sagrado”, crianças desaparecem, ovnis aparentam estar circulando pelos céus e grandes conspirações se mostram onipresentes. No entanto, no rico microcosmo criado pelo diretor e roteirista Chema García Ibarra, nada é exatamente como parece. Esta co-produção Espanha-França-Turquia, que marca a estreia de Ibarra na direção de longas-metragens, foi exibida na Competição Internacional do Festival de Locarno deste ano e o anuncia como um talento a ser acompanhado.

Numa pequena cidade espanhola, uma menina desaparece, deixando um vazio nas vidas de sua mãe Charo (Joanna Valverde) e de sua irmã gêmea Veró (Llum Arques). Ao mesmo tempo, Julio (José Ángel Asensio), líder de uma associação ufologista local, morre, deixando o grupo numa delicada situação.

Conectando essas histórias está José Manuel (Nacho Fernández), irmão de Charo e o membro da associação escolhido por Julio para dar prosseguimento a um plano secreto: contatar extraterrestres para despertar um espírito ancestral na Terra e mudar o destino da humanidade.

FOCO NO SISTEMA DE CRENÇAS


Ibarra vem de uma esteira de curtas de ficção científica e tudo em “Espíritu Sagrado” reflete sua profunda afinidade com este tipo de material. O roteiro assinado por ele, largamente focado na vida de José Manuel e em seus esforços para levar o plano de seu mentor adiante, faz uso deliberado de recursos narrativos clássicos do gênero, mas não é uma ficção científica no estrito senso do termo.

Para além das discussões sobre a natureza dos extraterrestres e das teorias conspiratórias, o cineasta está claramente interessado em sistemas de crença e em como a forma de encarar o mundo molda a visão das pessoas. Nesta estranha cidade povoada por personagens estranhos e idiossincráticos, diversos grupos distintos (católicos, ufólogos, paranormais, etc.) se esbarram nas ruas apegados às suas crendices, incapazes de enxergar a totalidade do que os rodeia.

HISTÓRIA DE MÚLTIPLOS TONS


A aura dessa Espanha parece feita sob medidas para sessões de meia-noite, com detalhes extremamente táteis (filmados em 16mm com maestria pelo diretor de fotografia Ion de Sosa) que remetem ao cinema do mestre britânico da estranheza Peter Strickland. Durante os 97 minutos de projeção, o espectador não consegue deixar de lado a ideia de que há algo profundamente errado acontecendo, ainda que isso não se mostre claramente.

O triunfo de Ibarra é fazer um filme desafiador em termos de tom, constantemente alternando entre comédia, mistério, sátira e tragédia, mas que não perde de vista a trama. “Espíritu Sagrado” fala de almas perdidas, da vontade de pertencimento e da escuridão que nasce durante o sono da razão – e também dá ao seu mistério uma conclusão que recompensa tanto quem acompanha esse subtexto quanto quem só quer saber o final da história. Um acerto em múltiplos níveis.

‘Guerra Civil’: um filme sem saber o que dizer  

Todos nós gostamos do Wagner Moura (e seu novo bigode); todos nós gostamos de Kirsten Dunst; e todos nós adoraríamos testemunhar a derrocada dos EUA. Por que então “Guerra Civil” é um saco?  A culpa, claro, é do diretor. Agora, é importante esclarecer que Alex Garland...

‘Matador de Aluguel’: Jake Gyllenhaal salva filme do nocaute técnico

Para uma parte da cinefilia, os remakes são considerados o suprassumo do que existe de pior no mundo cinematográfico. Pessoalmente não sou contra e até compreendo que servem para os estúdios reduzirem os riscos financeiros. Por outro lado, eles deixam o capital...

‘Origin’: narrativa forte em contraste com conceitos acadêmicos

“Origin” toca em dois pontos que me tangenciam: pesquisa acadêmica e a questão de raça. Ava Duvernay, que assina direção e o roteiro, é uma cineasta ambiciosa, rigorosa e que não deixa de ser didática em seus projetos. Entendo que ela toma esse caminho porque discutir...

‘Instinto Materno”: thriller sem brilho joga no seguro

Enquanto a projeção de “Instinto Materno” se desenrolava na sessão de 21h25 de uma segunda-feira na Tijuca, a mente se esforçava para lembrar da trama de “Uma Família Feliz”, visto há menos de sete dias. Os detalhes das reviravoltas rocambolescas já ficaram para trás....

‘Caminhos Tortos’: o cinema pós-Podres de Ricos

Cravar que momento x ou y foi divisor de águas na história do cinema parece um convite à hipérbole. Quando esse acontecimento tem menos de uma década, soa precoce demais. Mas talvez não seja um exagero dizer que Podres de Ricos (2018), de Jon M. Chu, mudou alguma...

‘Saudosa Maloca’: divertida crônica social sobre um artista boêmio

Não deixa de ser interessante que neste início da sua carreira como diretor, Pedro Serrano tenha estabelecido um forte laço afetivo com o icônico sambista paulista, Adoniram Barbosa. Afinal, o sambista deixou a sua marca no samba nacional dos anos 1950 e 1960 ao...

‘Godzilla e Kong – O Novo Império’: clima de fim de feira em filme nada inspirado

No momento em que escrevo esta crítica, caro leitor, ainda não consegui ver Godzilla Minus One, a produção japonesa recente com o monstro mais icônico do cinema, que foi aclamada e até ganhou o Oscar de efeitos visuais. Mas assisti a este Godzilla e Kong: O Novo...

‘Uma Família Feliz’: suspense à procura de ideias firmes

José Eduardo Belmonte ataca novamente. Depois do detetivesco – e fraco – "As Verdades", ele segue se enveredando pelas artimanhas do cinema de gênero – desta vez, o thriller domiciliar.  A trama de "Uma Família Feliz" – dolorosamente óbvio na ironia do seu título –...

‘Donzela’: mitologia rasa sabota boas ideias de conto de fadas

Se a Netflix fosse um canal de televisão brasileira, Millie Bobby Brown seria o que Maisa Silva e Larissa Manoela foram para o SBT durante a infância de ambas. A atriz, que alcançou o estrelato por seu papel em “Stranger Things”, emendou ainda outros universos...

‘O Astronauta’: versão ‘Solaris’ sem brilho de Adam Sandler

Recentemente a revista Forbes publicou uma lista com os maiores salários recebidos por atores e atrizes de Hollywood em 2023. O N.1 é Adam Sandler: o astro recebeu no ano passado nada menos que US$ 73 milhões líquidos a partir de um contrato milionário com a Netflix...