“Eu vejo você em todos os lugares”, filme húngaro que esteve presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, se desenvolve como uma antologia de seis pequenas histórias cuja únicas semelhanças estão em serem trágicas. Os temas variam entre acidentes, violência sexual, transtornos psicológicos, doenças incuráveis, graves desentendimentos familiares.

Para além de seus temas espinhosos, o sentimento que o filme parece buscar em suas diferentes histórias é a culpa, colocando seus personagens em campos de batalha uns contra os outros onde cada um tenta empurrar para o outro a responsabilidade por aquelas situações.

Por trabalhar com temas tão sensíveis, seria natural esperar um filme com certo apelo emotivo, que mal trabalhado poderia cair em situações piegas. Para evitar essa armadilha, o diretor Benedek Fliegaulf escolhe encenar todas as diferentes histórias da mesma forma: uma câmera que reproduz sempre os mesmos movimentos, indo dos rostos para as mãos dos personagens.

Essa técnica, repetida do início ao fim de “Eu vejo você em todos os lugares”, nos aproxima dos personagens apresentados ao mesmo tempo em que nos coloca em um lugar de conforto por rapidamente percebermos os movimentos repetidos. Parece uma escolha pensada para criar empatia por aquelas pessoas em cena, enquanto não agride o público com o peso das histórias apresentadas a partir da monotonia, o que funciona bem.

Além disso, essa estética também ajuda a criar uma unidade entre as diferentes histórias, algumas mais interessantes que outras. Com o benefício de ser aquela que inaugura a obra, a primeira parece ser a melhor. É onde tanto roteiro quanto direção estão mais afiados. Uma garota (Juli Jakab) inicia um discurso sobre o dia em que sua mãe precisou fazer uma viagem de carro e acabou sofrendo um acidente fatal. Ela se dirige a um homem (Lázló Cziffer) que, mais tarde, descobrimos ser seu pai. 

Simplicidade eficiente

As atuações nos entregam sempre o ponto certo entre o desespero e a ironia, na disputa de um tenta lançar ao outro a culpa pela tragédia. Outra estratégia interessante do roteiro é iniciar cada história com uma breve cena de como ela terminará, dando uma espécie de spoiler descontextualizado ao espectador.

A maior dificuldade de “Eu vejo você em todos os lugares” é manter o nível entre suas diferentes tramas. Nenhuma delas chega a ser ruim, mas algumas parecem mais forçadas que outras, apresentando choques mais gratuitos ou até mesmo finais maçantes.

Ainda assim, “Eu vejo você em todos os lugares” traz um resultado satisfatório ao longo de sua duração, apostando na simplicidade de sua direção e roteiro, compondo um caleidoscópio de histórias que. por mais extravagantes que possam parecer, sempre mantém o interesse do espectador.

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